O Olhar Patognomônico da Saúde Pública no Brasil


Por Dr. Mauricio Price*

Ao arrepio da lei acompanhamos obnubilados o cenário dramático do SUS sobretudo no estado do Rio de Janeiro, que ao longo dos últimos anos cultiva uma gestão duvidosa e desqualificada numa das áreas mais importantes de qualquer governo: a saúde. Certamente, o clamor dos usuários dos serviços públicos de saúde tem chegado aos céus, sobretudo aqueles que procuram os atendimentos de emergência nas unidades fluminenses, que no momento enfrentam o caos existencial e o trágico descaso com a vida humana, oriundos de um governo que investe na aparência pessoal, todavia se esquecendo da essência republicana que deve prevalecer na administração do orçamento público. Mas, será que esse cenário é recente? Infelizmente, não.

Mas o que é patognomônico ? É o termo médico que se refere a sinal ou sintoma específico de uma determinada doença, diferenciando-a das outras. Nesse caso, podemos perceber que esses sinais prodrômicos do descaso com a saúde em nosso país têm história patológica pregressa já faz alguns anos. Esse ´´câncer´´ já formou metástases e se dissemina sistemicamente e velozmente causando sofrimento e angústia sobretudo aos mais necessitados, que não suportam pagar os onerosos planos de saúde das milionárias operadoras de saúde e que também não têm renomados médicos particulares ou hospitais privados de alta complexidade disponíveis para atendê-los, muito menos possuem transporte aeromédico para levá-los até o heliponto dos mesmos.

Não há qualquer dúvida que se realizássemos uma diligente anamnese histórica do quadro de saúde em nosso país, iríamos diagnosticar uma síndrome de incompetência com lapsos de lucidez técnica. É notório o amadorismo em certas gestões e paroxisticamente se percebe que as comorbidades associadas são algumas das vezes não muito republicanas. Posto isso, causa-nos náuseas e vômitos quase incoercíveis essa forçada quimioterapia do bom senso que temos que acompanhar, quase que diariamente, ao testemunhar as diversas notícias sobre os casos de corrupção e desvios de verbas públicas, sobretudo em certas Organizações Sociais de Saúde (OSS), modelo de terceirização da gestão pública de saúde. Aliás, essas que na sua gênese no Rio de Janeiro, segundo alguns especialistas, seriam a solução, hoje se tornaram um problema oneroso na complexa gestão de saúde do estado do RJ, que acumulou só em 2015 dívidas de 1,4 bilhão de reais com fornecedores.

Diante desse cenário quase que bélico, onde a luta pela vida é o lema nas grandes emergências com portas abertas nos principais hospitais da rede do SUS em nosso estado, há de prontidão uma legião de anônimos vestidos de branco e trajados de jalecos às vezes até ensanguentados, que nos inspiram a resgatar valores, quase que perdidos, numa sociedade cada vez mais egoísta e menos altruísta. Assim, na qualidade de médico não poderia deixar de registrar minha alta estima aos incontáveis profissionais de saúde que de forma corajosa e destemida ainda conseguem sobreviver e trabalhar nessas unidades de saúde mergulhadas nesse caos ético, econômico e moral em nosso estado. A saúde adoeceu. Mas, a esperança é a última que morre. E essa bandeira tem sido o fôlego que oxigena os pulmões daqueles que bravamente guarnecem os seus plantões médicos ininterruptamente nas unidades de saúde em nosso estado, mesmo se expondo a carência de insumos básicos e muitas das vezes sendo alvo injusto da incompreensão e até agressão de alguns usuários do SUS.

Acredito que essa indignação justa não deveria ser canalizada nos inúmeros profissionais de saúde que bravamente ainda resistem em suas posições de combate em favor da vida em nosso estado. Ao contrário disso, essa justa reivindicação por uma saúde digna deve convergir em comum anseio tanto da classe médica e demais agentes da saúde, quanto do restante de toda população brasileira. Essa reivindicação tem como foco a luta contra o descaso da vida humana e o descalabro da saúde. Essa é a nossa guerra, que é real. Salvar e não matar. Reconstruir e não destruir.

Porém, quando chegamos ao ápice da hipocrisia em que um gestor afirma que “mesmo não recebendo, o médico deve atender pacientes”, não se pode intubar tais sofismas. Gostaria de saber se essa regra irá valer também para os gestores e demais autoridades. Aliás, o tão falado sacerdócio médico deveria valer também para as outras classes e, principalmente, aos agentes políticos. Criminalizar os médicos é fácil. O difícil é fazer o que nós fazemos: salvar vidas no meio do caos !

Assim, nesse cenário dramático que presenciamos no último fim de ano, talvez estivéssemos necessitados de resgatar alguns exemplos da Medicina que nos inspirem a praticar o bem, mesmo enxergando o mal. O evangelista Lucas, médico grego e cidadão romano, segundo a tradição, que com maestria de um cirurgião plástico descreveu com precisão a vida de Jesus de Nazaré na Terra nos desafia também nesses tempos de descalabro da saúde, a exercer essa nobre Medicina. Com amor e compaixão, seu exemplo nos motiva de maneira consciente a preservar a crença de que o preparo espiritual dos necessitados e o cuidado dos profissionais de saúde são de inestimável valor no sucesso da proposta terapêutica oferecida. Por isso, o desafio que lhe convido a refletir é esse: no meio da tempestade, é tempo de crer que haverá dias melhores !

Com estima do seu amigo e colega, Dr. Mauricio Price

* Carioca, gestor, médico graduado pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro ( UERJ), com MBA em Gestão em Saúde pelo Instituto COPPEAD da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), especialista nas áreas de Clínica Médica, Medicina Esportiva, Medicina Hiperbárica e Medicina do Trabalho com ênfase em Direito de Saúde. É palestrante, escritor, debatedor e diretor técnico médico da Anadem. Membro da Academia Evangélica de Letras do Brasil. E-mail: [email protected] e www.facebook.com/DrMauricioPrice

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