Como pais estão contribuindo para o consumo de álcool dos filhos
Revisão brasileira desvenda os principais fatores familiares por trás do abuso de cerveja e afins entre jovens
Por Vand Vieira, do Saúde é Vital
Pouco mais da metade dos alunos que estão no primeiro ano do ensino médio no Brasil já experimentaram algum tipo de bebida alcoólica, segundo o levantamento mais recente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). São, para sermos exatos, 55% dos jovens entrevistados, o que representa 1,44 milhão de adolescentes e um aumento de quase 5% em comparação a 2012.
Motivados por pesquisas internacionais como essa, um grupo de cientistas australianos e holandeses se debruçou sobre 131 estudos relacionados ao assunto para descobrir o papel que pais e mães desempenham nessas estatísticas. Pois dois pontos se sobressaíram: a quantidade de álcool disponível em casa e a relação que os adultos têm com cerveja, uísque e companhia influenciam bastante na idade dos primeiros goles.
De acordo com os responsáveis pela análise, se os pais costumam compartilhar experiências engraçadas ou agradáveis regadas a drinques, os filhos criam expectativas positivas sobre o hábito. E, claro, isso favorece a experimentação precoce.
“É fundamental orientar os mais novos sobre as consequências do consumo de bebidas alcoólicas para que eles façam escolhas saudáveis no presente e no futuro”, avalia Arthur Guerra, presidente executivo do Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (CISA), em São Paulo.
A questão é especialmente importante quando essa ingestão se torna abusiva ou se incita, anos pra frente, condutas perigosas, como dirigir bêbado. O que se pede, em resumo, é sinceridade sobre os efeitos do álcool.
Para facilitar essa tarefa, Guerra e seus colegas desenvolveram o livreto “Como Falar Sobre Uso de Álcool com Seus Filhos”, disponível no site http://www.cisa.org.br. O principal recado é evitar sermões, sendo claro, didático e imparcial na medida do possível.
Foto: Dercílio//Como pais estão contribuindo para o consumo de álcool dos filhos/SAÚDE é Vital
A farinata (ração humana) pode melhorar a alimentação em SP?
Especialista questiona a decisão do prefeito João Doria de oferecer uma espécie de ração humana à população carente de São Paulo
Por Dra Fabiana Poltronieri*, publicado no Saúde é Vital
A Prefeitura de São Paulo lançou no início do mês de outubro o programa “Alimento Para Todos”. Dentro dele, apresentou o produto batizado de “Allimento”, com o intuito de ser distribuído para a população carente da cidade. Mas ele ficou conhecido como farinata ou ração humana – e foi o estopim para uma enorme polêmica.
Sua composição, até o momento desconhecida, está baseada no uso de alimentos próximos do vencimento ou fora do padrão de comercialização em supermercados. Eles serão doados à prefeitura por meio da Plataforma Sinergia.
De acordo com a prefeitura, essas comidas serão liofilizadas (submetidas a um processo de desidratação) e transformadas em um “alimento completo”, com proteínas, vitaminas e minerais. A mistura poderá ser oferecida em forma de biscoitos e também usada em pães, bolos e massas.
Apesar de o prefeito João Doria ter comparado o granulado à “comida de astronauta” e alegar que o seu sabor é semelhante ao biscoito de polvilho, o produto, apresentado em um pote com uma imagem de Nossa Senhora Aparecida, foi rapidamente apelidado de “ração humana”.
O Conselho Regional de Nutricionistas (CRN-3) se manifestou contra a proposta por entender que a ação fere os princípios do Direito Humano à Alimentação Adequada (DHAA) e nega as políticas públicas de combate à fome e à desnutrição, bem como o Guia Alimentar para a População Brasileira. É um total desrespeito aos avanços obtidos nas últimas décadas no campo da Segurança Alimentar e Nutricional.
Contradições e receios por trás da farinata
Várias questões relevantes, sob o aspecto da alimentação e nutrição, são passíveis de análise. A Prefeitura de São Paulo, depois de alegar reduzir itens da merenda escolar para contra-atacar a obesidade, agora lança um programa que objetiva o combate à fome. Ela tira alimentos de verdade… e inclui a farinata.
E mais: de acordo com dados do Ministério da Saúde, não há prevalência de desnutrição em São Paulo. Essas contradições revelam uma incoerência nas políticas públicas adotadas.
O CRN-3 e o Conselho Municipal de Segurança Alimentar e Nutricional de São Paulo (COMUSAN) não foram consultados sobre a criação do programa Alimento Para Todos. Assim como o CRN-3, o COMUSAN se manifestou contra o projeto por não estar alinhado às diretrizes que visam facilitar o acesso de toda a população à comida de verdade.
Comida não é nutriente
A alimentação abrange aspectos nutricionais, culturais, étnicos, sociais, regionais, sensoriais, antropológicos, religiosos. Comer é um ato que diz muito do indivíduo. A comida conta uma história, proporciona lembranças, agrega sensações, caracteriza seu modo de vida…
Aí que está: a decisão de alimentar a população não deve ser vista de forma isolada, reducionista, como quem busca apenas nutrir. No longo prazo, não se deve combater a fome com qualquer espécie de ração.
A dignidade das pessoas deve ser garantida por meio do direito ao acesso à comida de verdade, no campo e na cidade. Isso foi preconizado na 5ª Conferência Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, cujo lema é “Comida de verdade no campo e na cidade: por direitos e soberania alimentar”.
Discutir o acesso ao alimento é fazer da segurança alimentar um direito de fato.
*Fabiana Poltronieri, CRN3-13008, nutricionista, doutora em Ciência dos Alimentos pela USP; Professora da Faculdade das Américas – FAM e Conselheira do Conselho Regional de Nutricionistas 3ª Região.
Foto: Rosanna PErrotti/Divulgação