14 de dezembro de 2017 - Anadem

Chega novo remédio contra dermatite atópica. Conheça o problema

Marcada por ressecamento, coceira e lesões, essa condição agride também o bem-estar. Mas um novo tratamento promete controlar mesmo os casos mais graves

Por Diogo Sponchiato, do Saúde é Vital

Se a gente só entende de fato um problema quando o sente na própria pele, posso dizer que escrevo com certo conhecimento de causa. Recebi o diagnóstico de dermatite atópica na pré-adolescência, já faz uns 20 anos. Sintomas típicos: pele seca, coceira e lesões vermelhas em alto-relevo no pescoço, no rosto e nas dobras dos braços e das pernas — o que rendeu muita brincadeira maldosa na escola.
Tive a felicidade de cair no grupo das pessoas que veem a doença apaziguar e praticamente sumir com o avançar da idade. Mas para aquelas que enfrentam um tormento mais grave e persistente, por vezes de difícil controle, boas notícias: acaba de ser aprovada no Brasil a primeira terapia-alvo para o problema, uma injeção autoaplicável que pretende trazer alívio rápido e duradouro a quem mais precisa dele. Se segura que a gente chega lá…

“A dermatite atópica é uma doença que atinge a pele, mas é alimentada por um defeito imunológico”, define a alergista Ariana Yang, coordenadora do Ambulatório de Dermatite Atópica do Hospital das Clínicas de São Paulo. Diferentemente das dermatites de contato, em que as lesões brotam pouco tempo depois de se encostar em algo irritante, nessa outra versão as manifestações aparecem em determinadas áreas, podendo afetar grandes extensões.

“O termo atopia significa que há uma predisposição genética por trás de uma hipersensibilidade do organismo a alérgenos ambientais, como poeira, ácaros, baratas, pólen…”, explica Ariana. Essa reação pode irromper na pele e/ou nas vias respiratórias. Muita gente com a dermatite ainda pena ou penou com rinite (eu!) e asma.

Além da resposta exagerada do sistema imune, a doença também tem em sua gênese uma falha na barreira cutânea, espécie de escudo natural que garante a integridade da pele. Daí que ela vive ressecada, sensível demais e pronta a virar um reduto de inflamação e prurido — sobretudo quando exposta a fatores alérgicos clássicos ou elementos “agressores”, como cloro de piscina (sei bem!), suor, cosméticos e até estresse emocional.

“Na maioria dos casos, o problema começa e termina na infância”, conta a médica Márcia Mallozi, coordenadora do Departamento Científico de Dermatite Atópica da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia. É como se, com a idade, rolasse um amadurecimento imunológico.

Só que uma fração dos portadores encara um problema recorrente e que avança na vida adulta — geralmente com sintomas mais graves. “Falamos de uma condição que piora não só a pele mas a qualidade de vida”, ressalta Márcia.

Além da coceira e das lesões, que podem sediar rachaduras dolorosas, o martírio de muitas pessoas com dermatite atópica tem a ver com a aparência. É aquele velho estigma com as doenças de pele, combatido por campanhas recentes, de que é um mal contagioso (não tem nada a ver!) ou passível de marginalização na escola ou no mercado de trabalho.

Levantamentos apontam que metade dos portadores das formas mais severas sofre com ansiedade ou depressão e quase 80% relatam que a condição atrapalha o dia a dia dos estudos ou do emprego. Tem mais: 55% apresentam problemas para dormir, muitos por causa do coça-coça.

Os salvadores da pele

O diagnóstico da dermatite é o que os médicos chamam de eminentemente clínico. “Examinamos o indivíduo e colhemos sua história. Não há necessidade de biópsias ou testes complexos”, tranquiliza Ariana, cujo ambulatório tem ao redor de mil pacientes, a maioria adultos.

Por meio de alguns escores, que levam em conta a extensão e a gravidade das lesões, bem como o impacto físico e social, o profissional pode definir se a enfermidade é leve, moderada ou grave. É com base nisso que se determina o plano de ação.

De acordo com a dermatologista Ana Mósca, da Sociedade Brasileira de Dermatologia, uma palavra-chave vai aparecer e persistir a despeito do tratamento: hidratação. “A pessoa com dermatite tem de entender que, para ela, hidratar a pele precisa virar um hábito como escovar os dentes”, compara.

Sim, falamos de passar a loção prescrita (em geral, sem perfume) pelo menos três vezes ao dia — e sempre depois do banho. “O banho, aliás, deve ser morno e mais rápido, de preferência com sabonetes sintéticos suaves, como aqueles de recém-nascido”, orienta Ana.

Mas o tratamento, especialmente diante das crises, vai além das tão importantes medidas comportamentais. Nos quadros mais brandos, os médicos tendem a se concentrar em cremes ou pomadas para remediar a pele.

“Além de hidratar, a ideia é controlar o prurido e minimizar a inflamação no local”, esclarece Ariana. Para tanto, são recrutados produtos à base de corticoides, cuja potência varia, ou os imunomoduladores, que inibem um ramo do sistema imune envolvido na história.

Os casos mais graves – e o novo remédio

Nas situações mais complicadas, é preciso partir para um tratamento também sistêmico — ou seja, comprimidos que vão ajudar, numa escala ainda maior, a apagar o incêndio inflamatório.

Desse arsenal fazem parte os corticoides orais, que demandam acompanhamento médico de perto devido aos efeitos colaterais, e os imunossupressores, que acalmam os ânimos das células de defesa desordeiras mas também inspiram cuidado. “Em um estudo recente que fizemos com nossos pacientes, 38% dos tratados com imunossupressores tiveram reações adversas, como pressão alta”, revela Ariana.

Diante desse contexto, e considerando que há pessoas que não respondem bem a nenhuma das intervenções, uma promessa se concretizou. Já aprovado nos Estados Unidos e na Europa para adultos com o problema em grau moderado ou grave, foi liberado no Brasil o primeiro anticorpo monoclonal contra a dermatite atópica, o dupilumabe.

“O medicamento é uma injeção subcutânea que pode ser aplicada pelo paciente ou pelo profissional de saúde a cada duas semanas”, explica Suely Goldflus, gerente médica da Sanofi, um dos laboratórios responsáveis pela novidade. “O remédio corta o principal mecanismo inflamatório da doença e tem um tempo de resposta mais rápido”, comenta Ariana.

A ideia é que, aliada a outras medidas, a terapia silencie de maneira sustentada uma condição que incomoda a pele e a alma. E, se depender dos avanços da ciência, dá pra dizer que reforços de peso virão se somar ao dupilumabe, inclusive pomadas biológicas de última geração. Com medicina de ponta e a consciência do autocuidado, bons tempos virão, companheiros!

Como atua a injeção recém-chegada ao Brasil

1) Na dermatite, o sistema imune libera moléculas, as interleucinas 4 e 13, que acionam uma resposta inflamatória.

2) O anticorpo monoclonal (dupilumabe) impede que tais moléculas se liguem às células do corpo, processo que desata a inflamação.

Sinais e áreas mais afetadas em casos de dermatite atópica

Os sintomas

As principais manifestações são pele seca, descamação, coceira, vermelhidão e inchaço nas regiões atingidas, além de eventuais rachaduras, que podem causar dor e atrapalhar movimentos.

Os locais

Nas crianças pequenas, as lesões aparecem mais em áreas como cotovelo e joelho, embora possam acometer grandes extensões do corpo. Nos adultos, ocorrem nas dobras de braços e pernas, além das mãos, do rosto e do pescoço.

Como cuidar da pele sensível

O banho

Nada de chuveiro pelando ou sessões demoradas. Vá de banhos mornos e ligeiros — sempre!

A higiene

Evite sabões comuns ou antissépticos e a mania de esfregá-los pelo corpo. Prefira as versões para bebês.

O guarda-roupa

Se notar que blusas de lã ou de outro tecido causam irritação, melhor trocar por outro material.

A casa

Manter o ambiente livre de pó, ácaros e afins reduz o risco de alérgenos instigarem a dermatite.

O sol

Exposição solar é bem-vinda, mas tem que ser logo pela manhã. Ao meio-dia a pele tende a sofrer.

3 dicas para domar os sintomas da dermatite

Hidratação

Passar religiosamente as loções receitadas pelo médico, sobretudo após o banho, ajuda a reparar a pele seca. Os cremes podem dispor ou não de ativos específicos. O melhor é que não sejam perfumados.

Inflamação

A missão é debelar a reação imunológica que leva ao aparecimento das lesões na pele. O tratamento pode ser por meio de pomadas ou também contar com comprimidos de ação anti-inflamatória.

Coceira

Além de irritante, o prurido coloca a pele em um estado ainda pior, nutrindo um círculo vicioso que não deixa as coisas melhorarem. Cremes e certos remédios auxiliam a conter o coça-coça.

Foto: Anna de Bartolomeis//Chega novo remédio contra dermatite atópica. Conheça o problema/iStock

Insulina mais eficaz pra diabetes ganha versão com preço reduzido

O remédio (o primeiro biossimilar contra essa doença) é 70% mais barato e promete facilitar a vida de quem precisa tomar as injeções diárias

 
Por Chloé Pinheiro, do Saúde é Vital
 
Chegou ao Brasil uma novidade para o tratamento do diabetes tipo 1 e 2. Trata-se do Basaglar, o primeiro medicamento biossimilar da insulina glargina, criado pela parceria entre as farmacêuticas Eli Lilly e Boehringer Ingelheim. Em resumo, ele é criado a partir da versão original da insulina glargina, que há alguns anos foi recebida com entusiasmo pelos diabéticos e seus médicos. Só que a novidade é 70% mais barata do que o medicamento referência no nosso país – e com eficácia e segurança iguais, garantidos por órgãos reguladores e pesquisas científicas.

“A insulina glargina é um marco no tratamento da doença no país, porque permite aos pacientes um maior controle da glicemia e um estilo de vida mais flexível”, explica Rosangela Réa, endocrinologista e professora da Universidade Federal do Paraná, em Curitiba.

Ela ganhou essa fama porque sua ação é mais estável. “As insulinas basais antigas provocavam picos do hormônio e duravam 18 horas ao invés de 24”, compara a médica. Sem saber quando esse pico aconteceria, as refeições tinham que seguir um horário mais rígido.

Já a glargina tem efeito duradouro: basta uma picada ao dia. E ela ainda diminui o risco da hipoglicemia, quadro perigoso que pode ocorrer quando há insulina demais em circulação.

Além disso, como contém apenas insulina, o produto não precisa ser misturado a outros elementos toda vez que for aplicado. “Esse procedimento é delicado e, se feito inadequadamente, compromete a eficácia do remédio”, relembra a médica. Em vez disso, o fármaco é apresentado em canetas injetáveis com agulhas fininhas.

Mais acessibilidade

A insulina glargina disponível até então, da Sanofi, pesava no bolso dos pacientes. Em algumas situações, seu preço simplesmente inviabilizava o tratamento no longo prazo, obrigando os pacientes a utilizar opções menos apropriadas.

Com a nova opção no mercado, a esperança é de que mais diabéticos possam alcançar um controle adequado da doença. Aliás, após a chegada de Basaglar, a versão de referência da insulina glargina já baixou seu preço por meio de programas de assistência ao paciente. O que a concorrência não faz…

Vale lembrar que a insulina glargina é de longa ação e não substitui a versão de ação rápida ou a ultrarrápida, que é tomada imediatamente antes das refeições. Coordenar essas medicações direito é fruto de um bom diálogo com o doutor.

O que é um biossimilar?

Os medicamentos biológicos, caso da insulina glargina, são feitos a partir de organismos vivos e compostos por milhares de moléculas. Assim, mesmo quando a patente deles cai, é impossível copiá-lo de maneira idêntica, como ocorre com os genéricos de remédios convencionais.

No entanto, dá para chegar bem perto da estrutura original – e, por meio de estudos científicos, garantir segurança e eficácia igual ao do produto referência. Quando isso acontece, trata-se de um biossimilar. Esse é o caso do Basaglar.

O surgimento dos biossimilares é visto com bons olhos justamente por oferecer opções mais baratas ao consumidor.
 

Foto: Dulla/SAÚDE é Vital