7 de maio de 2018 - Anadem

Pesquisa liga enxaqueca a adaptação genética para lidar com frio

Após emigração da África para a Europa, população desenvolveu gene que a tornou mais resistente a baixas temperaturas, mas mais suscetível a enxaquecas, aponta estudo

 

Por David Martin, Deutsche Welle

Estima-se que cerca de um bilhão de pessoas em todo o mundo sofram regularmente de ataques de enxaqueca. Na Alemanha, cerca de 1 milhão de pessoas são afetadas todos os dias, enquanto nos Estados Unidos cerca de 13% dos adultos dizem que sofrem regularmente de fortes dores de cabeça.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), os ataques de enxaqueca são a sexta doença mais incapacitante do mundo. Além de uma forte dor latejante que pode durar dias seguidos, os afetados muitas vezes também experimentam distúrbios visuais, náuseas, tonturas e sensibilidade à luz.

Há muito tempo a enxaqueca tem sido vista como uma doença hereditária, transmitida de pais para filhos. No entanto, pesquisadores do Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva, na cidade alemã de Leipzig, sugerem que o elo pode ser bem mais antigo.

Um estudo realizado por uma equipe liderada pelo cientista Felix-Michael Key, pesquisador em genética evolucionária do Instituto Max Plank, descobriu que uma mutação genética que tem conhecida relação com a enxaqueca é muito mais comum em pessoas da Europa ou descendentes de europeus.

“Queríamos analisar a adaptação humana a diferentes fatores ambientais e queríamos nos concentrar no efeito da temperatura”, disse Key, em entrevista à DW.

Ao estudar os padrões genéticos do gene TRPM8, receptor nas células nervosas através do qual os seres humanos sentem as temperaturas frias, Key e sua equipe descobriram que certas mutações eram muito mais frequentes em algumas regiões e latitudes geográficas.

Clima e enxaqueca
Ao fazer uma retrospectiva de dezenas de milhares de anos de dados do genoma, o estudo descobriu que a mutação genética ligada à enxaqueca é mais frequente quanto mais se avança para o norte, em direção a climas mais frios.

Por exemplo, de acordo com as descobertas de Key, apenas cerca de 5% das pessoas com ancestrais nigerianos têm a variação do gene, enquanto 88% das pessoas com ancestrais finlandeses a possuem. A OMS também aponta que o número de pessoas que sofrem de enxaquecas na África e na Ásia é menor do que em outras regiões.

“Normalmente, você observa algo em alguma frequência em uma população em algum lugar e espera que essas frequências sejam as mesmas em todas as populações”, afirma Key. “Mas aqui você tem uma mudança de frequência de quase 80%. Isso é algo muito incomum.”

Os dados sugerem, portanto, que quando os primeiros humanos viajaram da África em direção ao norte, eles se ajustaram a temperaturas mais frias, mas ao fazê-lo, também se tornaram mais suscetíveis a enxaquecas.

“A colonização pode ter sido acompanhada de adaptações genéticas que ajudaram os primeiros humanos a lidar com temperaturas mais baixas”, afirma a geneticista Aida Andres, da University College London, que supervisionou o estudo.

No entanto, os resultados não esclarecem por que as suscetibilidades a enxaquecas e a temperaturas frias estão geneticamente ligadas. Isso ainda permanece um mistério, de acordo com Key.

“Podemos especular, no entanto, que haja uma sobreposição funcional no receptor que pode mediar enxaquecas, juntamente com a percepção da dor e do frio”, explica. “Assim, o resfriamento do receptor provoca efeitos que vão em uma direção similar, mesmo que não estejam diretamente relacionados entre si.”

Foto: Rodolfo Tiengo/ G1

Achar a cura ou 'controlar' a Aids são metas que dividem recursos e pesquisas na luta contra o HIV

Doença afeta 36 milhões de pessoas no mundo. Especialistas ouvidos pelo G1 avaliam onde deveriam estar os investimentos em pesquisa

Por Tatiana Regadas, G1

Como será a cura do vírus HIV? Será de um tratamento que fortaleça o sistema imunológico ou da terapia genética? Os especialistas não sabem. Mas dentre os muitos caminhos possíveis para chegar a uma cura para o HIV e a AIDS um debate divide cientistas: o problema estará resolvido se conseguirmos chegar è remissão da doença, ou é preciso encontrar a cura?

A medicina considera remissão completa a fase da doença em que não há sinais de sua atividade, mas não é possível considerá-la como cura.

Para Rowena Johnston, vice-presidente da amfAR – organização sem fins lucrativos dedicada ao apoio de pesquisas sobre a AIDS – a cura é o único caminho possível. Em visita ao Brasil, ela falou com o G1 após um debate na Faculdade de Medicina da USP.

Ela acredita em trabalhar sempre “mirando” a cura: “O que acreditamos é que pode haver uma cura, não há nada de impossível sobre curar o HIV, mas temos que colocar os recursos e investimentos nas pesquisas para que possamos achar essa cura.”

Já para o médico Steven Deeks, que pesquisa o HIV há 25 anos no Estados Unidos, o ideal é que cientistas trabalhem para conseguir a remissão antes de seguirem trabalhando para a cura.

“As pessoas querem uma cura real, elas querem todo o vírus eliminado, querem sentir que estão completamente livres da doença. Este é o desejável, mas é o alcançável? Esta é a pergunta. Eu sou completamente a favor de tentar a remissão antes e no caminho aprender se conseguimos curar alguém. Elas [as duas estratégias] não são mutualmente excludentes, mas acho que a estratégia de remissão deveria ser o foco agora, com o objetivo final sendo a cura”, explica.

Para Esper Kallas, infectologista e professor na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, sem a resposta sobre qual estratégia funcionará melhor, o ideal é que existam as duas linhas de pesquisa: uma que trabalhe para a remissão e outra que busque a cura.

Os custos na luta contra o HIV para saúde pública em todo mundo são altos. Este é um dos principais motivadores dos pesquisadores: o medo de que menos investimentos sejam feitos e o mundo tenha um avanço da doença e das mortes por Aids.

“Penso que o investimento global em fornecer tratamento em todo o mundo não vai continuar a aumentar. Está estável agora e existem muitos motivos para acreditar que vai começar a diminuir. E neste caso precisamos de um plano B para daqui a dez, 20 anos”, aponta Deeks.

Como seria a cura?
A amfAR apoia atualmente 139 pesquisadores dedicados a curar o HIV. Johnston supervisiona os estudos financiados pela organização e acredita que o sistema imunológico talvez não seja um caminho viável.

Ela aposta na terapia genética, em que trabalha-se para retirar o vírus HIV das células infectadas: “Isso não tem nada a ver com sistema imunológico, além do fato de o vírus estar nas células que estão no sistema imunológico. Você pode curar o HIV sem pedir que o sistema imunológico faça alguma coisa.”

A terapia genética também é a aposta de Deeks, além do transplante de medula, usada no caso do “paciente de Berlim”, homem que teve remissão completa do vírus após transplante de medula óssea de doador resistente ao HIV.

“Os mais promissores acho que são as terapias genéticas e o transplante de medula, que eventualmente vão funcionar, mas serão caros e talvez não tenham um impacto global”, diz Deeks.

Pesquisas precisam de diversidade
Um problema recorrente nas pesquisas sobre o HIV é a falta de diversidade dos grupos estudados. Como a maior parte das pesquisas é realizada na Europa e nos EUA, em geral, os testes são feitos em homens gays.

Johnston ressalta que a falta de estudos com mulheres, por exemplo, pode significar que uma possível cura descoberta não seja eficaz para todos.

“Acredita-se que, se acharmos uma cura para o homem [ela] vai funcionar para a mulher. Mas, assim que estudamos células de mulheres e colocamos o estrogênio nessa mistura, já identificamos que ele pode evitar que uma cura seja efetiva. Então, sabemos que se usarmos uma droga para bloquear estrogênio, isso pode fazer a cura mais eficaz.”

Tanto Johnston quanto Kallas acreditam que o Brasil poderia ter um papel chave nas pesquisas por causa de sua grande diversidade étnica, mas sofre com a falta de recursos.

“Há poucos grupos de pesquisa dedicados ao assunto, associado à escassa fonte de financiamento no país. Aliás, o financiamento da pesquisa brasileira sofreu duro corte no último ano, comprometendo ainda mais a estruturação e competitividade da pesquisa brasileira”, analisa Kallas.

Prevenção
Sem uma cura, o trabalho de prevenção ainda representa uma parte importante na luta contra o avanço da doença no mundo. No Brasil, Kallas ressalta a importância de trabalhar com os grupos mais vulneráveis, como homens gays em grandes cidades e mulheres trans. “Enquanto a proporção da população brasileira infectada é estimada em 0,4%, alguns grupos têm taxas de infecção muito mais alta. Isso mostra que falhamos na prevenção nesses grupos.”

A camisinha é um dos caminhos para a prevenção do HIV, mas não é mais o único, nem é considerado o principal por alguns especialistas. “Apostar só na camisinha não conteve o avanço da epidemia de forma satisfatória. Precisamos continuar adicionando outros métodos de prevenção”, diz Kallas.

Dentre estes métodos está o Prep (Profilaxia de Pré-exposição), tratamento que evita que pessoas expostas ao vírus HIV desenvolvam Aids. No Brasil, o Sistema Único de Saúde (SUS) disponibiliza o tratamento para grupos considerados de risco: profissionais do sexo, homens e mulheres transexuais, casais sorodiferentes (quando um tem HIV e o outro não) e homens gays – independentemente de terem parceiro fixo ou não.

Por ser uma doença sexualmente transmissível (DST), Johnston acredita que o julgamento impede avanços.

“Se tivéssemos a cura, se fosse barato, seria tão ruim se durante sua vida uma pessoa tivesse HIV 10 vezes e fosse curada 10 vezes? Acho que é algo a ser pensado.”

Apesar do preconceito com quem faz, o Prep tem se mostrado um caminho para a prevenção da doença. Segundo Kallas, em São Francisco, nos EUA, o Prep conseguiu pela primeira vez reduzir o número de casos da infecção pelo HIV e mortes por Aids desde sua implementação, em 2012.

“Para funcionar no Brasil, contudo, deve ser adotada no contexto da prevenção combinada e receber contínuo investimento”, ressalta.

Para Deeks, durante a implementação de novos tratamentos, como o Prep, é preciso sempre debate, mas ele acredita que o tratamento de pré-exposição é um caminho a ser seguido.

“As pessoas deveriam ter alguma liberdade sobre como viver sua vida sexual. Eu acho que os indivíduos deveriam ter acesso ao Prep e decidir como usá-lo.”

Johnston também acredita no potencial do Prep como prevenção. Para ela, como é algo ainda novo, é normal que as pessoas questionem e não entendam totalmente.

“Você precisa ter certeza de que as pessoas que estão usando entendam o que elas podem ou não podem fazer. A grande questão é: a pessoa que está usando a tecnologia entende exatamente como deveria ser usada e está usando exatamente como deveria ser? Existe um potencial para não entender a situação por completo”, diz.

Enquanto a cura não chega, Johnston acredita que o assunto precisa ser debatido para que não falte informação sobre o HIV e a Aids: “Enquanto existir HIV no mundo, qualquer pessoa que seja sexualmente ativa tem potencial para pegar. É muito importante que as pessoas entendam como podem se proteger do HIV, mas saibam quais são os passos a seguir caso peguem.”

Foto: Photo: Jens Kalaene/dpa/AFP/Arquivo