Após terapia experimental, médicos dizem que mulher em estágio terminal está livre do câncer
Judy Perkins havia recebido o prognóstico de que viveria apenas três meses mais; dois anos depois, ela vive com saúde graças a dose de 90 bilhões de suas próprias células, uma iniciativa que ainda precisa ser testada em grande escala
Por BBC
A vida de uma mulher com câncer de mama em estágio considerado terminal foi salva por um tratamento pioneiro, que consiste na aplicação de 90 bilhões de células imunológicas cujo objetivo é combater o tumor.
Segundo pesquisadores do Instituto Nacional do Câncer, nos EUA, o tratamento ainda é experimental, mas pode ter efeito transformador em todas as terapias de combate ao câncer.
A mulher em questão é a americana Judy Perkins, 49 anos, que havia recebido, dois anos atrás, o prognóstico de que teria apenas três meses de vida restantes. A moradora da Flórida tinha câncer de mama em estágio avançado, que estava se espalhando – já havia tumores do tamanho de uma bola de tênis em seu fígado e em outras partes do corpo – e não havia mais perspectiva com tratamentos convencionais.
Hoje, porém, não há vestígios do câncer em seu corpo, segundo médicos. E Judy tem aproveitado a vida viajando e praticando canoagem.
Ela lembra que, ao fazer o primeiro exame após passar pelo tratamento, viu a equipe médica “saltitando de empolgação”.
Foi quando ela soube que teria uma chance de cura.
‘Droga viva’
O tratamento a que Judy foi submetido consiste em uma “droga viva”, feita a partir das próprias células dela, em um dos centros de referência de pesquisa de câncer do mundo.
A terapia ainda dependerá de uma grande quantidade de testes até que possa ser amplamente usada, mas começa da seguinte forma: o tumor do paciente é analisado geneticamente, para que sejam identificadas as raras mutações que podem tornar o câncer visível ao sistema imunológico do corpo – e que podem, portanto, ser formas de combater os tumores.
No caso de Judy, das 62 anormalidades genéticas do seu câncer, apenas quatro eram potencialmente atacáveis pelo sistema imunológico.
Na verdade, o sistema imunológico já está, naturalmente, combatendo os tumores, mas está perdendo as batalhas.
Por isso, o passo seguinte dos pesquisadores é analisar os glóbulos brancos (as células imunológicas do corpo) para extrair as que são capazes de atacar o tumor.
Essas células serão, então, reproduzidas em enormes quantidades em laboratório.
Judy recebeu 90 bilhões de suas próprias células, junto com medicamentos que “retiram os freios” do sistema imunológico.
Com isso, “as mesmas mutações que provocam o câncer acabam se tornando seu calcanhar de Aquiles”, diz Rosenberg.
‘Mudança de paradigma’
Vale lembrar, porém, que os resultados animadores vêm por enquanto desse único caso isolado, e pesquisas em populações maiores serão necessárias para confirmar a validade do tratamento.
O desafio, até agora, na terapia imunológica contra o câncer é que ela às vezes funciona muitíssimo bem em alguns pacientes, mas sem beneficiar a maioria dos doentes.
“(O tratamento) é altamente experimental, e estamos apenas começando a aprender a aplicá-lo, mas potencialmente ele vale para qualquer câncer”, afirma Rosenberg.
“Ainda há muito trabalho a fazer, mas há potencial para uma mudança de paradigma no tratamento de câncer – uma droga sob medida para cada paciente. É muito diferente de qualquer outro tratamento.”
Os detalhes do caso de Judy Perkins foram publicados no periódico “Nature Medicine”.
Para o médico Simon Vincent, diretor de pesquisas da organização Breast Cancer Now, os resultados são “extraordinários”.
Foto: Arquivo Pessoal
Vacina experimental encontra 'ponto fraco' do HIV e neutraliza vírus em animais
Teste foi feito em camundongos, porquinhos-da-índia e macacos. Estudo preliminar em humanos deve ter início em 2019
Por G1
Cientistas desenvolveram uma vacina experimental para o HIV capaz de neutralizar dezenas de variedades do vírus. A descoberta foi publicada nesta segunda-feira (6) na publicação científica “Nature Medicine” por pesquisadores do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas (NIAID), nos EUA.
Baseada na estrutura de um local vulnerável no HIV, a vacina induziu a produção de anticorpos em camundongos, porquinhos-da-índia e macacos, que neutralizaram dezenas de variedades de HIV de todo o mundo.
“Os cientistas usaram seu conhecimento detalhado da estrutura do HIV para encontrar um local incomum de vulnerabilidade ao vírus e projetar uma vacina nova e potencialmente poderosa”, disse Anthony S. Fauci, diretor do NIAID.
Um estudo preliminar em humanos já está previsto para começar no segundo semestre de 2019.
O relatório divulgado trata de uma das duas abordagens complementares que os cientistas estão trabalhando para desenvolver uma vacina contra o HIV.
Os cientistas primeiro identificam anticorpos potentes contra o HIV que podem neutralizar muitas variedades- cepas- do vírus, e então tentam extrair esses anticorpos com uma vacina baseada na estrutura da proteína de superfície do HIV onde os anticorpos se ligam.
Ou seja, os cientistas começam com a parte mais promissora da resposta imune e trabalham para desenvolver uma vacina que induza esta mesma resposta.
Nos últimos anos, pesquisadores descobriram muitos anticorpos naturais que podem impedir que múltiplas variedades de HIV infectem células humanas em laboratório. Cerca de metade das pessoas que vivem com o HIV produzem os chamados anticorpos “amplamente neutralizantes”, mas geralmente apenas após vários anos de infecção – muito depois do vírus ter se estabelecido no corpo.
Os cientistas identificaram os lugares, ou epítopos do HIV, onde cada anticorpo amplamente neutralizante se liga.
A vacina experimental descrita no relatório desta segunda é baseada em um destes epítopos chamado peptídeo de fusão do HIV, identificado por cientistas do NIAID em 2016. Uma pequena seqüência de aminoácidos faz parte do pico na superfície do HIV que o vírus usa para entrar nas células humanas.
De acordo com os cientistas, este epítopo é particularmente promissor para uso como vacina porque sua estrutura é a mesma na maioria das variedades do HIV, e porque o sistema imunológico claramente o “vê” e produz uma forte resposta imunológica a ele.
Os cientistas testaram a vacina em camundongos para analisar a resposta do sistema imunólogico deles. Posteriormente, usaram a mesma vacina em porquinhos-da-índia e macacos e tiveram sucesso na resposta imunológica, aumentando as expectativas de que a vacina pode funcionar em diferentes espécies.
Os cientistas agora estão trabalhando para melhorar a vacina, incluindo torná-la mais potente e capaz de alcançar resultados mais consistentes com menos injeções.
Outras vacinas em teste
Atualmente, outra vacina está sendo testada com 2,6 mil mulheres do sul africano. O teste usa uma combinação de duas vacinas desenvolvidas pela Johnson & Johnson com os Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos (NIH, na sigla em inglês) e a Fundação Bill & Melinda Gates. O estudo tem duração de três anos.
Além desta, uma vacina experimental foi testada em 393 voluntários em cinco países (Estados Unidos, Ruanda, Uganda, África do Sul e Tailândia). O protótipo provocou uma resposta imune (produção de anticorpos) em 100% dos participantes.
Esta vacina experimental, de “duplo gatilho”, consiste primeiro em despertar o sistema imunológico com um vírus da gripe comum, antes de dopá-lo com uma proteína encontrada no envelope do HIV, provocando uma reação mais forte do corpo.
Foto: Photo: Jens Kalaene/dpa/AFP/Arquivo