Doutor Bumbum: parentes contam como foram as últimas horas de bancária que morreu após procedimento estético
Antes de embarcar para o Rio de Janeiro, Lilian Calixto disse à família que passaria apenas por procedimento sem grandes complicações; parentes planejam, no futuro, processar Furtado
Por BBC
A gerente de banco Lilian Calixto, de 46 anos, viajou de Cuiabá (MT) para o Rio de Janeiro, na manhã do último sábado, 18, para fazer intervenções estéticas que planejava há quatro meses. Antes de embarcar, ela disse à família que passaria por um procedimento sem grandes complicações, que duraria no máximo 1h30, e retornaria na noite do mesmo dia para a capital mato-grossense.
Mas ela não contou aos parentes que faria um implante nos glúteos.
O responsável pelos procedimentos foi um médico que ela acompanhava nas redes sociais havia seis meses: Denis César Barros Furtado, conhecido como “Doutor Bumbum”. Furtado possuía mais de 600 mil seguidores no Instagram – ele deletou a conta na terça-feira, 18. Em seu perfil, propagava resultados de intervenções que inspiraram a bancária a procurá-lo.
Lilian marcou as intervenções com o “Doutor Bumbum” por meio do WhatsApp. Familiares acreditam que ela tenha encaminhado fotos para que ele fizesse uma avaliação e um orçamento dos procedimentos. A bancária queria colocar um chip que funcionaria como implante hormonal, em razão da menopausa, e também aplicar PMMA (polimetilmetacrilato) nos glúteos.
Parentes dela acreditam que Furtado tenha cobrado R$ 20 mil pelos procedimentos e afirmam não saber se ela pagou o valor integral antes das intervenções.
Os procedimentos estéticos de Lilian estavam agendados para serem feitos em Brasília, onde o médico afirma possuir uma clínica. Porém, na última sexta-feira, 13, Furtado informou à paciente que as intervenções somente poderiam ser feitas no Rio de Janeiro.
Antes de viajar, Lilian informou à família apenas que faria a implantação do chip para controle hormonal. Uma amiga sabia que ela também passaria pela aplicação do PMMA. Os parentes da bancária descobriram a segunda intervenção somente quando souberam de sua morte.
A aplicação do PMMA, segundo a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP), não é indicada nos glúteos. “É um produto sintético que, muito embora autorizado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária, não é recomendado pela SBCP, sobretudo em áreas com grande volume e em planos anatômicos profundos, como os glúteos”, afirma Denis Calazans, secretário-geral da entidade.
A bancária morreu na madrugada do domingo, 15, horas após passar pelos procedimentos estéticos. A suspeita é de que a aplicação do PMMA tenha sido feita de modo excessivo e ocasionou uma embolia pulmonar, quando artérias dos pulmões são obstruídas por coágulos.
Vaidosa e apaixonada pela família
Conhecidos consideravam Lilian uma mulher segura e independente. Mãe de dois filhos, uma garota de 13 anos e um jovem de 24, ela era classificada como a líder da família. Ela gostava muito de viajar com o marido, o empresário Osmar Jamberci, com quem estava há 19 anos.
“Ela era muito especial para a gente. Perdi a coisa mais importante da minha vida. Ela era tudo para mim”, disse à BBC News Brasil Victor Calixto, filho do primeiro relacionamento dela.
Enteado de Lilian, Alessandro Jamberci afirma que a madrasta costumava atrair a simpatia das pessoas em todos os lugares que frequentava. “Ela sempre foi muito bem-quista por todos. Além disso, a Lilian foi uma supermulher para o meu pai.”
Vaidosa, a bancária costumava se preocupar com dietas e era adepta de exercícios físicos. “A minha mãe era muito saudável. Tinha uma saúde excelente. Não tinha doença, não tinha nada”, declara Victor.
‘Não sabia dos riscos’
Duas semanas antes de embarcar para o Rio de Janeiro, Lilian ouviu relatos positivos de uma amiga que havia aplicado PMMA com o “Doutor Bumbum”. Outras colegas dela também haviam feito, anteriormente, a intervenção com o médico e o elogiavam. Nas redes sociais, Furtado afirma ter feito mais de cinco mil bioplastias, intervenções à base de injeções para remodelar o corpo.
Para Victor, a mãe não pensava que o procedimento pudesse trazer graves consequências. “Acredito que ela não entendia os riscos, porque sempre teve medo. Se fosse uma coisa mais perigosa, com certeza não faria.”
Logo que chegou à capital fluminense, na tarde de sábado, Lilian pegou um táxi e pediu que o motorista a conduzisse ao endereço informado pelo médico, na suposta clínica dele. O local era uma cobertura, na Barra da Tijuca. O filho dela acredita que a bancária se surpreendeu quando chegou ao lugar.
“Eu conheço a minha mãe, ela sempre foi muito correta e tinha medo dessas coisas. O médico, com certeza, a manipulou para que ela fizesse (o procedimento) no apartamento dele”, diz.
Na cobertura de Furtado estava, além do médico, a mãe dele, a ex-médica Maria de Fátima. A mulher teve seu registro cassado pelo Conselho Regional de Medicina (CRM) do Rio de Janeiro em 2015, por divulgar a utilização de métodos com resultados não reconhecidos pela medicina. Fátima teria auxiliado nos procedimento de Lilian. No local também estavam a secretária e namorada de Furtado, Renata Fernandes, e a técnica em enfermagem Rosilane Pereira da Silva.
Lilian chegou ao prédio por volta das 17h. Ela pediu ao taxista que a levou que a esperasse por duas horas, período que estimava para concluir as intervenções. Conforme o enteado de Lilian, o motorista ficou em frente ao local até as 22h. “Ele ficou esperando e só saiu quando percebeu que a avistou no carro do médico. O taxista foi nossa peça-chave para descobrir as informações”, conta o filho.
A bancária foi levada da cobertura de Furtado direto para o Hospital Barra D’Or. Ela chegou ao local por volta das 22h50. Câmeras do circuito interno de segurança da unidade de saúde mostram que o médico levou a paciente ao local junto com a mãe, a secretária Renata Fernandes e a técnica em enfermagem Rosilane Pereira.
“Ela chegou muito ruim e foi encaminhada para a sala vermelha. Os médicos entregaram os pertences dela, como roupas e joias, a ele [Furtado]. Depois, ele desapareceu”, diz Alessandro Jamberci.
Conforme boletim médico do Hospital Barra D’Or, Lilian chegou à unidade de saúde com falta de ar, taquicardia e pele azulada. Ela estava consciente e relatou que havia aplicado cerca de 300 mililitros de PMMA nos glúteos. A bancária morreu às 1h12 de domingo.
Foragido
Após a morte da bancária, a Justiça do Rio de Janeiro decretou a prisão preventiva do médico e a prisão temporária de sua mãe. Os dois permanecem foragidos. Eles foram indiciados por homicídio doloso, junto com Renata Fernandes, que está presa, e Rosilane Pereira, cujo pedido de prisão não foi acolhido pela Justiça.
Para auxiliar na busca por Furtado e Maria de Fátima, a Polícia Civil do Rio de Janeiro tem oferecido recompensa de R$ 1 mil para quem passar informações sobre o seu paradeiro.
Segundo a delegada Adriana Belém, da 16ª Delegacia de Polícia do Rio, na Barra da Tijuca, Furtado tem uma ficha com sete anotações criminais, uma delas por homicídio, em 1997, quando tinha 24 anos. Entre os outros delitos estão porte ilegal de arma, crime contra a administração pública, resistência à prisão e violação de domicílio.
No ano passado, ele foi indiciado quatro vezes pela Polícia Civil do Distrito Federal por exercício ilegal da medicina e por crime contra o consumidor, e teve seu registro médico cassado pelo CRM-DF.
Os familiares de Lilian torcem para que o médico e a mãe dele sejam presos o mais breve possível. A defesa do médico diz que pretende negociar com a polícia para que ele se entregue.
“Eu tenho fé em Deus que esse médico vai pagar pelo que fez, para consolar a nossa família e também porque a Justiça tem que ser feita para que outras famílias não passem pelo mesmo sofrimento”, afirma Victor Calixto.
O corpo de Lilian chegou a Cuiabá na tarde de terça-feira e foi velado por parentes e amigos. A bancária foi enterrada na manhã do dia seguinte em um cemitério da capital mato-grossense.
Familiares dela relataram à BBC News Brasil que planejam, posteriormente, entrar com uma ação judicial contra Furtado. “Mas por enquanto, estamos esfriando a cabeça depois de tudo o que aconteceu”, diz o enteado da bancária.
Foto: ARQUIVO PESSOAL/FACEBOOK
Como a depressão na gravidez afeta a saúde e o comportamento dos bebês, segundo pesquisa inédita
Pelo menos uma a cada 10 mulheres sofrem de depressão durante a gestação; estudo inédito do Reino Unido mostra que a doença afeta diretamente os bebês no útero
Por Nathalia Passarinho, BBC
A gravidez costuma ser associada, no imaginário social, a um período de felicidade. O mar de fotos da “doce espera” que costuma inundar as redes sociais reforça essa ideia. Mas a cobrança pelo estado de alegria pode acabar silenciando mulheres que, na verdade, estão lutando contra a depressão. E o sofrimento durante a gestação afeta tanto as mães quanto os bebês, fazendo com que nasçam mais sensíveis ao estresse.
É o que mostra uma pesquisa inédita a que a BBC News Brasil teve acesso, do Instituto de Psiquiatria e Neurociência do King’s College London, no Reino Unido.
Os pesquisadores acompanharam 106 mulheres grávidas a partir da 25ª semana de gestação, sendo que 49 delas foram diagnosticadas com depressão e não tomaram medicamento para tratar a doença.
Elas tiveram amostras de sangue e saliva coletadas, para verificar se apresentavam sintomas clínicos da doença, como inflamações e maior produção de cortisol – hormônio associado à resposta ao estresse.
Após os partos, os cientistas monitoraram tanto o comportamento dos bebês quanto a liberação de cortisol. Os testes foram feitos aos seis dias de vida, aos oito meses e aos 12 meses.
A primeira descoberta foi que o período de gestação das mulheres com depressão é mais curto. Do grupo observado, as grávidas com depressão tiveram os filhos, em média, oito dias antes das que não tinham a doença.
Mas o que mais impressionou foi o efeito do sofrimento neonatal nos bebês.
Bebês mais sensíveis
Os bebês de mães que tiveram depressão durante a gravidez se mostraram mais hiperativos, chorosos e produziram cortisol em circunstâncias que as demais crianças encararam com normalidade.
Essa diferença no comportamento foi verificada até em bebês com menos de uma semana de vida.
Aos dois meses, os bebês tiveram as salivas coletadas para medir o nível de cortisol. Quando eles completaram um ano e tomaram a primeira vacina, pesquisadores novamente coletaram saliva, para comparar com a amostra anterior.
Descobriram que as crianças de mulheres que tiveram depressão neonatal liberaram muito mais cortisol que as demais após a vacina. Ou seja, esses bebês se estressaram muito mais que os outros diante da experiência da primeira injeção.
O cortisol é um hormônio liberado em situações percebidas pelo corpo como de ameaça ou grande desconforto.
“A liberação do cortisol em si não é ruim, porque ele é uma resposta do corpo ao estresse. Ele dá energia aos músculos e eleva a concentração do cérebro”, explica o professor.
“Mas o resultado da pesquisa mostra que os bebês de mães que tiveram depressão na gravidez são particularmente sensíveis ao estresse. Uma situação que seria normal para outros bebês pode ser difícil para esses bebês, e eles reagem ativando a resposta ao estresse.”
Risco de desenvolver problemas psicológicos
Segundo o professor, os sinais de estresse presentes no sangue da gestante, como a liberação de cortisol, cruzam a placenta e passam para o sangue do bebê, influenciando no sistema de resposta da criança a situações desconfortáveis.
O que preocupa na sensibilidade maior ao estresse é o risco de essas crianças desenvolverem problemas psicológicos ou depressão no futuro, ao lidarem com problemas cotidianos ou situações de sofrimento, como perda de familiares, bullying, e frustrações acadêmicas e profissionais.
“Se você imagina a situação daqui a 10 anos, esses bebês, quando forem crianças ou adolescentes, podem ser mais sensíveis ao ambiente externo”, avalia Pariante.
“E, se alguma circunstância trágica ocorrer ou se eles se tornarem alvo de bullying, pode ser que sejam mais sensíveis a essas mudanças no ambiente e desenvolvam um problema de saúde.”
Tratamento
De acordo com o professor de psiquiatria, pelo menos uma em 10 mulheres grávidas sofrem de depressão. Ele afirma que a principal mensagem da pesquisa do King’s College, feita com o apoio do Centro Biomédico de Pesquisa Maudsley, é que é importante que as gestantes busquem tratamento.
Para o pesquisador, os tabus sobre depressão e a romantização da gravidez dificultam a procura por ajuda.
O pesquisador reconhece, porém, que faltam estudos que apontem com maior segurança qual o melhor tratamento contra a depressão durante a gestação. Algumas pesquisas indicam que antidepressivos podem alterar o comportamento dos bebês, mas Pariante ressalva que é difícil saber ao certo se o efeito é decorrente do remédio ou da depressão em si.
“Muitas das consequências inicialmente associadas aos antidepressivos são hoje explicados pela depressão em si ou pelo fato de que as algumas mulheres deprimidas não fazem o pré-natal corretamente, podem estar bebendo, fumando, ou tomando mais medicamentos vendidos em farmácia sem prescrição médica”, afirma.
Ele destaca que tratamentos não medicamentosos também podem, dependendo do caso, ajudar no combate à depressão durante a gestação.
Foto: Pexels