28 de agosto de 2018 - Anadem

Estudos de fragmento de DNA poderão substituir o mapeamento de marcadores tumorais

Avaliação epigenética da idade também medirá efeito da exposição às agressões do meio ambiente

 
Por Mariza Tavares, G1 Rio de Janeiro
 

O tema é complexo, mas com a ajuda certa a gente destrincha o assunto. Estou me referindo aos marcadores tumorais, substâncias que apontam a possível existência de um tumor no organismo, porque estão diretamente relacionados à transformação celular maligna. Os marcadores podem ser encontrados no sangue, em tecidos e na urina, e sua presença auxilia na detecção precoce do câncer, ou na identificação de sua reincidência após o tratamento. Conversei com o médico Marcelo Bendhack, doutor em Uro-Oncologia pela Universidade de Düsseldorf (Alemanha), presidente da Associação Latino-americana de Uro-Oncologia e membro do Conselho da Federação Mundial de Uro-Oncologia, que explicou que o PSA (antígeno prostático específico) é um deles: “o PSA é medido no sangue e serve para avaliar a probabilidade de câncer da próstata e o grau de extensão da doença, embora sua simples presença não possa tornar o diagnóstico definitivo”. Quando os marcadores se encontram num tecido do organismo, o método é outro: chama-se imuno-histoquímica. No entanto, o próximo grande passo da medicina será dado através do estudo de fragmentos de DNA, que identificam a localização da doença pelas características da célula – por exemplo, se ela tem origem no pulmão, intestino ou outro órgão.

Imagine uma célula que morre: ela se rompe e o que se poderia chamar de seus resíduos cai na corrente sanguínea. “Esses fragmentos”, diz o doutor Marcelo, “carregam as impressões digitais da célula, como uma assinatura. Será possível detectar a doença apenas com uma amostra de sangue, em vez de termos que procurar uma enzima, ou uma proteína. Um bom exemplo é o câncer de bexiga, cuja taxa de reincidência é alta: cerca de 70% dos pacientes acabam apresentando um novo tumor nos anos seguintes. Em vez de exames invasivos, será possível fazer esse monitoramento com amostras de urina ou sangue, como se fossem uma biopsia líquida”. E acrescenta: “aliás, as pessoas têm uma imagem de que o sangue é homogêneo, mas, na verdade, ele mais parece uma correnteza que leva restos de todo tipo”.

O médico integra um grupo de pesquisadores que trabalha com novas técnicas de biologia molecular. Um dos campos de conhecimento que mais vem crescendo é o da epigenética. Todos temos a carga genética que herdamos de nossos pais. Entretanto, além dela temos a epigenética, que está relacionada com a funcionalidade dos genes e abrange as modificações sofridas pelo genoma. Essas alterações podem resultar da nossa interação com o meio ambiente e de todas as agressões com as quais convivemos (ou a que nos submetemos), como álcool, fumo e poucas horas de sono. “Trata-se de uma nova plataforma de diagnóstico, que inclui a avaliação epigenética da idade, ou seja, poderemos avaliar se o organismo da pessoa tem sua idade cronológica; se está mais preservado, isto é, mais jovem; ou se, exposto a muitas agressões, está mais velho do que o que consta na certidão de nascimento”, ele afirma.

No Brasil, o uro-oncologista Marcelo BendHack é pioneiro na introdução do tratamento de câncer de próstata por ultrassom focalizado de alta intensidade, o HIFU (High Intensity Focused Ultrasound), que se apresenta como uma opção com menor índice de sequelas se comparado com a cirurgia convencional e a radioterapia. A energia ultrassônica é utilizada a uma pequena distância e necrosa o órgão, destruindo o tumor. Estudos recentes mostram que, enquanto o risco de impotência depois de uma cirurgia fica entre 50% e 80%, com o HIFU essa taxa está entre 7% e 10%. O câncer de próstata é o segundo mais comum entre os homens no mundo. O principal fator de risco é a idade: 75% dos casos ocorrem a partir dos 65 anos, mas o histórico familiar é importante: quem tem pai ou irmão diagnosticado com câncer de próstata antes dos 60 tem de três a dez vezes aumentado o risco de desenvolver a doença.
 

Foto: Divulgação

Mortes por overdose de drogas e suicídio superam as por diabetes nos EUA

Estudo publicado na revista ‘BMJ’ juntou dados americanos por autolesão intencional, no caso do suicídio, e não-intencional, no caso do uso de opioides e outros tipos de intoxicação pelo uso de drogas

Por Carolina Dantas, G1

O número de mortes devido a overdose e suicídio supera as registradas por causa da diabetes nos Estados Unidos, segundo análise de dados públicos feita por um grupo de pesquisadores e publicada nesta segunda-feira (27) na revista “BMJ”.

A pesquisa é liderada pelo Departamento de Epidemiologia da Universidade de West Virginia, em parceria com os Departamentos de Psiquiatria da Universidade de Rochester, em Nova York, e da Universidade Harvard, em Boston.

Os cientistas usam o conceito de “Mortalidade por autolesão” (Self-injury mortality, sigla SIM) que reúne dados relativos às mortes ocorridas por suicídios concluídos por qualquer método e uma estimativa de mortes não-intencionais devido ao uso de opioides e outras intoxicações ligadas ao uso de drogas em geral.

Os dados mostram:

As mortes por suicídio e uso de drogas ultrapassaram as que ocorreram devido ao diabetes nos EUA no ano de 2015
Em 2016, a lacuna entre os números aumentou: ocorreram 29,1 mortes por 100 mil habitantes por uso de drogas e suicídio contra 24,8 mortes por 100 mil devido ao diabetes
O índice de mortes devido ao suicídio e ao uso de drogas cresceu 80% no país desde 2000
Números são puxados pelos homens. Eles abusam das drogas e comentem suicídio mais do que morrem por diabetes desde 2002 no país
Esses são os números mais recentes divulgados pelos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC, sigla em inglês), órgão de saúde americano.

A análise mostra que a recorrência de mortes por suicídio e abuso de drogas está mais ligada à vida dos homens americanos. O número de óbitos entre pessoas do sexo masculino passou o registro de diabetes no país ainda em 2002. O mesmo não aconteceu no caso das mulheres: elas ainda morrem mais por diabetes, mesmo com uma queda na taxa entre os anos de 2000 e 2016.

O artigo lembra que o governo dos Estados Unidos iniciou uma estratégia de prevenção para doenças cardiovasculares, câncer de pulmão ligado ao fumo, HIV e acidentes de trânsito, o que gerou um entendimento epidemiológico sobre esses assuntos e contribuiu para atitudes políticas nos estados. O mesmo, de acordo com os autores, deve ocorrer devido ao abuso de drogas e alta no caso de doenças mentais.

Epidemia de drogas e opioides

Demi Lovato chamou a atenção devido a sua internação por uso de drogas. Ela é uma sobrevivente, mas 142 americanos morrem de overdose por dia, em média. Os opioides já matam mais que os acidentes de carro e os casos de homicídios somados no país. A taxa de mortes apenas pelo uso de drogas cresceu de 6,2 para 19,7 por 100 mil habitantes de 2000 até 2016.

A heroína está entre as drogas ilegais mais consumidas, de acordo com os CDC. Eles chamam a atenção, no entanto, para o número de overdoses pelo consumo de medicamentos comprados com receita médica: eles representam mais da metade dos das mortes pelo uso de drogas nos EUA.

No país, os analgésicos feitos à base de opioides são muito comuns. São fortes e com poder de adicção, fatores apontados para a alta no número de mortes.

Os autores do estudo justificaram porque relacionam as duas estatísticas – mortes por drogas e suicídio. Eles dizem que os médicos legistas usam as classificações de “morte acidental” e “causa indeterminada” para casos de overdose que podem estar relacionados a suicídio.

Existem casos de pessoas deprimidas que injetaram heroína, se embebedaram e deixaram um bilhete para a família – estes, são considerados suicídio. Há casos idênticos: depressivos que usam drogas, abusam do álcool e não deixam bilhetes – são notificados como “mortes acidentais”.

“Essa última classificação como “acidental” ou “não-intencional” é enganosa, no entanto, já que a maioria os opioides injetáveis de forma consciente estão relacionados com um padrão de automutiação repetitiva associada à morbidade e mortalidade significativas”, escreveram.

Foto: Patrick Sison/AP