22 de fevereiro de 2019 - Anadem

Colapso da saúde na Venezuela pode gerar surto regional de doenças infecciosas

Antes pioneiro no combate a malária, dengue e zika, país sofre com falta de entrada de medicamentos devido à crise e êxodo de médicos

Por Terra

Doenças como Chagas ameaçam se espalhar para países vizinhos, diz pesquisa. A crise humanitária na Venezuela poderá resultar num aumento das infecções de malária, doença de Chagas, dengue, zika e outros males que ameaçam 20 anos de avanços obtidos na saúde pública do país

O alerta surgiu em um estudo publicado no portal da revista científica The Lancet para doenças infecciosas na quinta-feira (21/02), onde os autores afirmam que algumas epidemias poderão avançar para além das fronteiras venezuelanas, podendo, potencialmente, causar uma emergência de saúde pública na região.

“Assim como o ressurgimento do sarampo e outras doenças infecciosas que podem ser prevenidas através de vacinas, o aumento contínuo dos casos de malária poderá se tornar incontrolável”, afirmou Martin Llewellyn, acadêmico da Universidade de Glasgow que liderou o estudo junto a pesquisadores da Venezuela, Brasil, Colômbia e Equador.

Ele afirma que com o colapso do sistema de saúde venezuelano e uma dramática redução nos programas de saúde pública e de controle de doenças, as chamadas doenças vetoriais – transmitidas por insetos como mosquitos e carrapatos – aumentam e se espalham em novas partes da Venezuela.

O país foi declarado livre de malária em 1961 pela Organização Mundial de saúde (OMS). Mas os pesquisadores revelaram que as infecções da doença aumentaram 359% entre 2010 (29.736 casos registrados) e 2015 (136.402 casos). Apenas entre 2016 e 2017, o crescimento foi de 71%, aumentando de 240.613 para 411.586 casos em razão da redução do controle dos mosquitos e da escassez de medicamentos.

“A dura realidade é que, como consequência da ausência de vigilância, diagnóstico e medidas preventivas, essas cifras provavelmente subestimam a situação verdadeira”, alertou Llewellyn.

Segundo o estudo, a transmissão da doença de Chagas – que mais causa insuficiências cardíacas na América Latina – é a mais alta em 20 anos na Venezuela. As infecções da doença em menores de 10 anos entre 2008 e 2018 tiveram percentual de 12,5% em algumas comunidades, em contraste com o índice de 0,5 em 2018, o mais baixo já registrado no país.

As infecções por dengue se multiplicaram entre 2010 e 2016, com 211 casos para cada 100 mil habitantes. Os especialistas detectaram seis epidemias nacionais da doença que aumentaram progressivamente de proporção entre 2007 e 2016.

Os casos de chikungunya e zika com possibilidade de provocar epidemias também aumentaram. Estima-se que até dois milhões de pessoas estivessem contagiadas com o vírus do chikungunya, número doze vezes maior do que as estimativas oficiais.

Os pesquisadores alertam ainda para os efeitos da migração em massa de venezuelanos para os países vizinhos, como o Brasil e a Colômbia. Com a média diária de 5,5 mil pessoas que atravessaram a fronteira em 2018, esses países também podem sofrer, potencialmente, surtos de doenças infecciosas.

Nesse contexto, algumas regiões brasileiras fronteiriças também teriam detectado um aumento dos “casos importados de malária”, como em Roraima, onde passaram de 1.538 em 2014 a 3.129 em 2017. Em outros países, dizem os cientistas, a situação “não está clara” – motivo pelo qual recomendam reforço da cooperação bilateral no âmbito do combate a doenças.

O controle eficaz da “crescente crise sanitária” também precisará de políticas de “coordenação regional” e um “compromisso sólido” da comunidade nacional e internacional, dizem os estudiosos. “Pedimos aos membros da Organização dos Estados Americanos (OEA) e outros organismos políticos internacionais que exerçam mais pressão sobre o governo venezuelano para que aceite a ajuda humanitária oferecida pela comunidade internacional para reforçar o sistema de saúde”, afirma Llewellyn.

 

Foto: DW / Deutsche Welle

Adolescentes: como está a alimentação dos jovens no Brasil?

O prato dos adolescentes anda cada vez mais desequilibrado, deixando-os na mira de doenças da pesada. Veja como alterar o rumo dessa história

Por Saúde é Vital

Na adolescência, há indícios de que mudanças no cérebro são responsáveis por deixar os jovens destemidos. Pois a coragem típica dessa fase parece sumir na hora das refeições, quando uma folha de alface gera mais pavor do que escalar uma árvore. Pelo menos é o que dá para presumir a partir de dados divulgados nos últimos tempos, como um grande levantamento feito com 75 mil brasileiros de 12 a 17 anos, em escolas públicas e privadas. O estudo, batizado com a sigla Erica, revela que apenas um em cada três adolescentes coloca salada no prato. Pior: só um em cinco ingere pelo menos uma fruta ao dia.

Os profissionais de saúde enfrentam as consequências dos maus hábitos no dia a dia. “Entre crianças e adolescentes, a incidência de obesidade cresce exponencialmente, e em todas as classe sociais”, afirma Renato Zilli, endocrinologista do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo. “Há 40 anos, atendíamos um adolescente obeso a cada 100. Hoje, são de seis a oito”, estima.

Números da Organização Mundial da Saúde refletem essa realidade. Em 1975, calcula-se que 11 milhões de adolescentes eram obesos. Em 2016, o número saltou para 124 milhões.

A infância é um período determinante na aquisição de hábitos à mesa. Mas mesmo aquela criança que venerava brócolis pode virar o adolescente que rejeita qualquer vegetal. Não há uma explicação biológica para isso, mas, sim, comportamental: é nessa fase da vida que os filhos ganham mais independência, fazem refeições longe dos pais e recebem dinheiro para escolher o que vão comer.

Sem falar na influência dos amigos. Quem vai optar por salada quando a turma toda vai de fast-food? Por isso é essencial manter o equilíbrio nas refeições em família”, diz a nutricionista Renata Faria Amorim, da All Clinik, no Rio de Janeiro.

A profissional alerta sobre o papel da escola nesse cenário. Mesmo que as cantinas não possam vender tranqueiras — alguns estados têm leis para regulamentar isso —, biscoitos, doces e bebidas açucaradas são as estrelas nos intervalos. E proibir não é solução definitiva.

Uma pesquisa feita pela marca Capricho e pela área de Inteligência de Mercado do Grupo Abril, com 1 724 garotas — 1 046 delas com 14 a 17 anos —, mostra que 34% não resistem a um docinho. Elas poderiam sucumbir menos a essas gulodices caso tivessem aulas que ensinassem por que outras opções são mais vantajosas, por exemplo. “É preciso conscientizar”, resume Adriano Segal, diretor de Psiquiatria e Transtornos Alimentares da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso).

Hábitos preocupantes dos jovens, registrados em novos estudos

Pais de castigo?

Mas é em casa que está o principal gargalo. Inclusive, para os experts, é quase impossível falar da dieta dos adolescentes sem dar um puxão de orelha nos adultos.

“A maioria dos pais tem dificuldade em reconhecer as deficiências alimentares dos filhos porque eles próprios apresentam esses maus hábitos. Só que não os percebem como um problema”, analisa Julia Bittencourt, psicóloga especialista em terapia familiar, no Rio de Janeiro.

Há outro empecilho que está literalmente em nossas mãos: celulares. As horas ativas dos adolescentes não param de despencar, já que as atividades físicas foram substituídas por jogos e interações nos smartphones.

Mesmo que os pais enxerguem essas questões, não adianta somente tentar mudar o adolescente: é necessário dar o exemplo. Toda a família deve se propor a ingerir menos industrializados e mais vegetais, além de criar horários fixos para as refeições (nada de comer só quando a fome bater ou na frente da TV).

A programação completa inclui passeios que agitem o corpo, como uma ida ao parque no fim de semana. “Isso é muito mais efetivo para combater a obesidade do que apenas proibir o consumo de alguns itens”, garante Segal.

Quanto mais cedo a família se unir em torno dessa agenda saudável, melhor. “É logo no início da puberdade que o corpo, em transformação, refaz sua disposição de adipócitos, as células acumuladoras de gordura. Por isso, o sobrepeso e a obesidade nessa fase geram dificuldade para emagrecer ao longo de toda a vida”, alerta a endocrinologista Isabela Bussade, do Rio de Janeiro.

O que precisa aparecer menos na alimentação da moçada

O que os adolescentes devem comer com frequência

Magreza não é sinônimo de saúde

Que fique claro: a luta com a balança não deve ter motivação estética. As doenças crônicas não transmissíveis, como hipertensão e diabetes, já são as principais causas de morte na população brasileira — e elas têm íntima relação com a obesidade.

“Com o estudo Erica, pudemos perceber que esses quadros têm início na infância e na adolescência”, observa a nutricionista Amanda de Moura, do Instituto de Estudos em Saúde Coletiva (Iesc) da Universidade Federal do Rio de Janeiro e uma das responsáveis pelo levantamento.

Mas o peso está longe de ser o único indicativo de saúde. Sabe aquele adolescente que come só porcaria e é magrinho? Pois ele não está isento de riscos. “Esse jovem pode esconder um acúmulo de gordura nos órgãos”, avisa Isabela.

Fora que o consumo excessivo de açúcares e gorduras causa um desgaste no pâncreas e em outros cantos desde muito cedo. “Cerca de metade das crianças com colesterol ou triglicérides elevados terá doença cardíaca na vida adulta”, alerta Zilli. A hora de mudar esse futuro é agora.

Não há um corpo ideal – e focar nisso é um perigo

Na pesquisa da Capricho, 36% das garotas de até 14 anos relataram já ter encarado o jejum intermitente. E 76% fizeram, fazem ou pretendem fazer dieta para emagrecer. “Qual padrão de beleza é esse que deixa mais de 70% das nossas meninas desconfortáveis com a própria imagem?”, questiona Gabriela Malzyner, psicóloga da Clínica de Estudos e Pesquisas em Psicanálise da Anorexia e Bulimia, em São Paulo.

Ela defende a conscientização de que ser saudável não significa ter um certo formato de corpo. “A dieta não pode gerar insatisfação corporal constante nem isolamento social”, frisa. Até porque isso abre brecha para transtornos sérios, capazes de abalar a saúde e a qualidade de vida dos jovens.

 

Ilustração: Davi Augusto/SAÚDE é Vital

Como a poluição do ar pode prejudicar a saúde do seu intestino

O microbioma intestinal é composto de bilhões de bactérias. Cientistas têm tentado entender como elas afetam nossa saúde, aumentam o risco de doenças e interagem com os órgãos e sistemas vitais do corpo, incluindo o cérebro. Há um longo caminho à frente

Por BBC

Embora não se entenda exatamente o que é um microbioma intestinal saudável, sabe-se que fatores ambientais, como a dieta, podem modificá-lo. Uma teoria que ganha força é de que a poluição atmosférica é outro desses fatores e que ela pode provocar doenças – uma má notícia para o intestino, já que a qualidade do ar vem piorando ao redor do mundo.

Se boa parte de nossa saúde é mapeada ainda no início de nossas vidas, o mesmo não ocorre com nosso intestino, afirma Marie Pedersen, professora associada da Universidade de Copenhague. “O microbioma é dinâmico e pode mudar ao longo da vida devido a exposições (a diferentes agentes). Há muita interação entre o intestino e ao que estamos expostos”, explica.

Essas exposições influenciam o desencadeamento das doenças inflamatórias intestinais (DII), que incluem a doença de Crohn e a colite ulcerativa, ambas ainda sem cura. Elas ocorrem quando o sistema imunológico não funciona adequadamente, e o próprio corpo é visto como um agente a ser combatido – processo que causa úlceras e inflamações no intestino.

“Imagine ter uma ferida que nunca cicatriza, só que do lado de dentro do corpo. Toda vez que você come ou bebe, é como esfregar sal na ferida”, exemplifica Jaina Shah, gerente de publicações e informações da organização Chron’s and Colitis, do Reino Unido.

A colite ulcerativa é localizada e afeta o intestino grosso, enquanto a doença de Crohn pode afetar qualquer parte do intestino. Ambas as condições podem impactar quase todo o corpo, incluindo hormônios, digestão, níveis de energia e saúde mental. Eles exigem medicação ao longo da vida e, em muitos casos, cirurgias de grande porte.

“Crohn e colite são causados pela herança genética do indivíduo, somada a uma reação anormal do sistema imunológico a certas bactérias no intestino, provavelmente desencadeada por algo no ambiente”, explica Shah.

Gatilhos ambientais

Esses gatilhos ambientais incluem a dieta e o estresse. Além deles, a hipótese da higiene argumenta que viver em ambientes assépticos prejudica o desenvolvimento do sistema imunológico.

Tanto genes quanto fatores ambientais podem prejudicar o intestino de forma semelhante, de acordo com Gilaad Kaplan, professor associado da Universidade de Calgary e autor de vários estudos sobre a relação entre o intestino e a poluição do ar.

“Mais de 200 genes são conhecidos por tornar alguém suscetível às DII. Esses genes estão relacionados à parede intestinal e alguns estão relacionados com a forma como o sistema imunológico combate as bactérias ruins nessa área”, afirma Kaplan.

“A barreira intestinal protege contra mutações genéticas, mas a exposição ambiental pode danificar essa barreira. Se um gene danifica o sistema imunológico, isso pode provocar doenças”, acrescenta.

Padrões na ocorrência de DII têm ajudado pesquisadores a entender a influência da poluição atmosférica nessa condição.

Dados mostram, por exemplo, que a incidência dessas doenças é maior em zonas urbanas que do que em rurais e que nações mais desenvolvidas têm taxas mais altas de DII. Uma análise constatou que as taxas mais altas estavam na Europa e na América do Norte, enquanto que o número de casos em países recentemente industrializados na África, Ásia e América do Sul tem aumentado continuamente.

Hoje se acredita que a poluição atmosférica altera o microbioma intestinal, provocando resposta imune e inflamação que levam ao desenvolvimento das DII.

Em 2005, Kaplan participou de uma aula sobre o mecanismo de como a poluição do ar impacta o coração e percebeu que havia cruzamentos com as DII, sua área de atuação. “A primeira parte da minha pesquisa foi analisar dados para ver se havia mais casos de DII em áreas com mais poluição”, explica Kaplan.

Ele analisou dados de mais de 900 casos de DII no Reino Unido, abrangendo três anos. Embora não tenha encontrado uma associação entre os casos diagnosticados recentemente de DII e os níveis de poluição do ar em geral, ele descobriu que a doença de Crohn era mais encontrada em jovens com maior exposição ao dióxido de nitrogênio.

Kaplan também encontrou ligações semelhantes entre poluição do ar e apendicite e dor abdominal.

O fator complicador desses estudos, no entanto, é que as pessoas talvez não tenham vivido por muito tempo em áreas de alta poluição. Além disso, a correlação não prova que um conjunto de dados é causa de outro, por isso é importante explorar mecanismos por trás das informações, diz Kaplan.

Mortalidade

A poluição atmosférica é composta de várias substâncias, incluindo monóxido de carbono, óxido de nitrogênio (produzido por veículos a diesel), ozônio, dióxido de enxofre e partículas (de poeira, pólen, fuligem e fumaça).

A poluição é uma das principais causas de doença e mortalidade e tem sido associada a muitas condições de saúde, incluindo doenças pulmonares, ataques cardíacos, derrames, mal de Alzheimer, diabetes e asma. No entanto, os cientistas ainda não sabem quais são os poluentes específicos responsáveis.

“A maioria dos pesquisadores usa dados de locais de monitoramento fixos, que estão em quase todas as cidades. No entanto, eles ficam limitados a estudar alguns poluentes que representam todos os outros”, diz Kaplan.

“O dióxido de nitrogênio é o principal poluente do trânsito, então estudamos essa substância e a atribuímos à ocorrência de doenças. É como no caso da nicotina do cigarro: ela é o alvo de estudos, embora seja composta de vários outros produtos químicos. É um desafio restringir a fonte exata.”

Está bem estabelecido que respirar o ar contaminado pela fumaça do cigarro também é um fator de risco para o desenvolvimento da doença de Crohn – o fator de risco ambiental mais estudado para as DII. Há, no entanto, questões ainda não respondidas neste campo de pesquisa.

Uma das mais intrigantes é por que fumar tem, na verdade, efeito protetor contra a colite ulcerativa.

Os poluentes chegam no corpo tanto pela respiração quanto pela ingestão de alimentos contaminados com material particulado. Kaplan e seus colegas mostraram que a exposição ao material particulado pode desencadear doenças gastrointestinais. Em laboratório, camundongos os inalaram por até 14 dias e se alimentaram de ração contaminada por 35 dias.

Exposição contínua

Os pesquisadores queriam simular a exposição contínua a altos níveis de material particulado e a comida contaminada, usando 18 mcg m3 (microgramas por metro cúbico de ar) por dia. Níveis de material particulado em cidades podem variar de 20 a mil em picos de concentração, o que significa que a dose total inalada é maior que 20 mil em 24 horas.

Eles descobriram que os camundongos que inalaram o material por um curto período de tempo sofreram alteração no gene imunológico, inflamação, tiveram aumento da resposta imune no intestino delgado e da permeabilidade do intestino. Os impactos da permeabilidade do intestino na barreira de revestimento da parede intestinal são considerados uma das causas das DII.

“O revestimento do intestino é projetado para servir como uma barreira, mantendo as bactérias ruins fora do corpo e permitindo que as boas façam seu trabalho”, diz Kaplan. “Se algo afeta a integridade do revestimento da parede, isso provoca pequenos buracos, por onde micróbios patogênicos entram, o que pode desencadear a resposta imune”.

Os camundongos expostos por 35 dias mostraram sinais de inflamação no cólon e alterações no microbioma intestinal.

Mas a poluição pode não apenas desempenhar um papel no desencadeamento das DII, mas também alterar a natureza da doença através das mudanças que ela provoca no microbioma intestinal. Em outro estudo, Kaplan comparou casos de apendicite não-perfurada e perfurada em 13 cidades, e descobriu que a apendicite perfurada, que é mais perigosa, estava ligada a uma maior exposição à poluição do ar. Ele concluiu que a exposição à poluição pode modificar o tipo de doença intestinal.

“Se você vivesse em uma área com boa qualidade do ar, você poderia ter tido uma apendicite moderada. A poluição do ar pode agravá-la para uma apendicite perfurada”, conclui.

Kaplan acredita que isto também ocorre com outros distúrbios relacionados ao intestino, mas são necessárias pesquisas para testar essa hipótese. As pesquisas também não explicaram por que as DII são mais comuns em áreas urbanas; e, embora seja evidente que a urbanização desempenhe um papel, não se sabe quais características subjacentes da urbanização causam as DII.

“Essas condições não eram encontradas na última geração nesses países. Conheço gastroenterologistas que não tinham visto DII até muito recentemente, e agora veem casos diariamente”, comenta Simon Travis, professor clínico e gastroenterologista consultor do John Radcliffe Hospital, em Oxford, cujo trabalho envolve a pesquisa das DII em países recentemente industrializados.

Mas esta não é a história toda. Alguns trabalhos associaram o aumento das DII à revolução industrial, uma vez que a doença de Crohn foi identificada nos anos 1930, durante o advento da era automobilística. No entanto, os primeiros casos de colite ulcerativa surgiram no final do século 19.

“Há algo na industrialização, mas também temos que refletir sobre por que em algumas regiões do mundo até mais poluídas, como na China urbana e na Rússia, por exemplo, as DII são incomuns até hoje”, pondera Travis.

Ele descobriu que essas doenças ocorrem nas principais cidades da Índia, como Déli e Mumbai, mas são raras em outras cidades. Ainda assim, ele está convencido de que as DII são doenças da urbanização, de uma forma ou de outra.

Nas circunstâncias atuais, o consenso é que a poluição do ar não é uma das principais causas da doença intestinal, mas pode ser um dos vários fatores desencadeantes.

“As DII são complexas e multicausais, e uma série de fatores ambientais influenciam seu desenvolvimento, incluindo a exposição a antibióticos na infância, amamentação e exposição à fumaça do cigarro”, afirma Kaplan.

Segundo o pesquisador, esses fatores vão se acumulando no corpo até ele desmoronar: “É difícil dizer que há um único responsável pela avalanche, já que cada um contribui em certo nível”.

“Alterar o microbioma intestinal é uma das principais causas da colite ulcerativa e da doença de Crohn. Muitas coisas causam isso. A poluição do ar é uma delas, mas sem a qual ainda veríamos casos da doença”, acrescenta.

Mais pesquisas devem se concentrar em países recém-industrializados, argumenta Travis.

“Se buscarmos as causas das DII, elas provavelmente serão encontradas em áreas do mundo onde as condições estão evoluindo e ocorrendo, porque no Ocidente, especialmente na América do Norte, as condições já evoluíram quase completamente.”

 

Foto: OLEG LASTOCHKIN

Terapia genética recupera nervos danificados

Pesquisadores holandeses alcançam resultados animadores em tratamento de roedores com movimentos comprometidos. Nova técnica foi combinada com a realização de cirurgia, atualmente a única opção disponível para reparação desse tipo de dano

Por Portal Uai

Complicações ocorridas durante o nascimento ou em consequência de acidentes são algumas das situações que podem provocar danos nos nervos. Para corrigir problemas dessa natureza, a única opção disponível atualmente é a cirurgia, mas ela nem sempre rende os resultados esperados. Em busca de um tratamento mais eficaz para esse problema, pesquisadores holandeses resolveram unir a intervenção cirúrgica com a terapia genética. A estratégia foi testada em ratos e rendeu as melhoras almejadas pelos cientistas. Os resultados foram publicados na revista especializada Brain.

A ideia de usar a genética como recurso extra para tratar problemas nervosos era um desejo antigo de um dos autores do estudo. “Em 1998, tive a ideia de que a terapia genética seria uma maneira de promover a regeneração do nervo periférico lesionado”, explicou ao Estado de Minas Joost Verhaagen, principal autor da pesquisa e pesquisador do Instituto Holandês de Neurociência (NIN) e do Centro Médico da Universidade de Leiden (LUMC).

Verhaagen explica que grande parte dos pacientes com problemas nos nervos perdem a função do braço, por exemplo, e são incapazes de realizar atividades diárias, como segurar uma xícara de café. “Depois da cirurgia, as fibras nervosas têm que atravessar muitos centímetros antes de atingir os músculos. Por isso, as células nervosas das quais novas fibras precisam para se regenerar são perdidas em grande número. A regeneração da fibra nervosa não atinge os músculos. A recuperação da função do braço é decepcionante e incompleta”, ressalta Ruben Eggers, um dos autores do trabalho e também pesquisador do NIN.

No estudo, os cientistas resolveram combinar a reparação neurocirúrgica com a terapia genética em experimentos realizados em ratos com danos nervosos. Os cientistas utilizaram uma substância chamada fator neutrófico de crescimento, que impulsiona o desenvolvimento dos nervos. Ela foi aplicada dentro de um vírus inativado, pois, segundo os cientistas, apenas dessa forma a substância teria como entrar no DNA dos animais.

TROCA FURTIVA

Em conjunto com a aplicação do fator neutrófico de crescimento, os pesquisadores também deram aos roedores, misturado à comida, um antibiótico. O medicamento permitiu que os cientistas tivessem mais controle em relação ao DNA, numa técnica chamada de troca furtiva, que permite a ativação alternada e específica de genes. “A troca do gene é um passo importante para o desenvolvimento da terapia genética para danos nos nervos. O uso de stop-any-disease.com invisível melhora a terapia genética, tornando-a ainda mais segura. Como fomos capazes de desligar a terapia genética quando o fator de crescimento não era mais necessário, a regeneração de novas fibras nervosas em direção aos músculos melhorou consideravelmente”, frisou Ruben Eggers.

Os resultados foram positivos, muitas das células nervosas que estavam morrendo puderam ser resgatadas e o crescimento das fibras nervosas na direção do músculo pôde ser estimulado.

Segundo Ivan Coelho Ferreira, neurocirurgião do Hospital Santa Lúcia, em Brasília, e membro titular da Sociedade Brasileira de Neurocirurgia (SBN), o estudo mostra dados importantes para tratamento. O cientista explica que a terapia gênica usada pelos cientistas pode complementar o tratamento atual. “Um caso comum em que ocorre esse tipo de lesão é em acidentes de moto. Neles, uma lesão no ombro ocorre com frequência, e isso dificulta a movimentação. Mesmo com a cirurgia, é difícil retornar às funções originais das raízes dos nervos. A cirurgia resolve, mas não totalmente”, detalha o especialista.

“Essa interferência genética testada pelos pesquisadores estimulou os axônios, células relacionadas a esse crescimento nos nervos, e, mais importante ainda, isso foi feito por meio dessa técnica de ligar e desligar o DNA, usando esse estímulo apenas quando necessário. Isso evita que ocorram excessos e possíveis danos, pois desequilíbrios poderiam causar danos graves”, frisa Ferreira.

PRÓXIMOS PASSOS

Os autores do estudo explicaram que a terapia genética testada ainda não está pronta para uso em pacientes. Eles ressaltam que, embora a capacidade de desativar um gene terapêutico seja um grande passo à frente, os pesquisadores ainda encontraram pequenas quantidades do gene ativo quando o “interruptor” do DNA foi desligado. Portanto, mais pesquisas são necessárias para otimizar essa terapia. “Devemos primeiro testar se a terapia genética é segura, por exemplo, em uma lesão nervosa em um modelo animal de grande porte. Nosso próximo passo é combinar a terapia gênica do fator neutrófico em um grupo de cobaias mais complexas”, frisa Verhaagen.

Ferreira também acredita que os resultados observados precisam de maior aprofundamento para que novos tratamentos com base no estudo se tornem realidade. “Os cientistas já observaram ganhos extremamente consideráveis nesses experimentos com ratos e determinaram quatro semanas como o tempo ideal para essa recuperação nesses animais. Porém, é necessário ter medidas com base em animais de maior porte, como macacos, além de testar a segurança. Só assim teremos uma noção se isso funcionaria em humanos e qual o tempo necessário de intervenção para ter essa recuperação”, observa o médico brasileiro.

 

Foto: Reprodução/Internet/Incrível.club

Cura do câncer: tubarões-brancos podem ajudar cientistas a pesquisar soluções

Tubarões-brancos podem ser o segredo para a cura do câncer e outras doenças relacionadas ao envelhecimento, acreditam especialistas

Por BBC

O primeiro mapa do DNA de tubarões revelou mutações que protegem esses animais de câncer e outras enfermidades.

Cientistas esperam que, com mais pesquisa, seja possível aplicar as descobertas ao tratamento de doenças ligadas ao envelhecimento humano.

A habilidade do tubarão-branco de reconstruir seu próprio DNA evoluiu, enquanto a nossa, não.

A pesquisa foi feita por uma equipe de cientistas da Save Our Seas Foundation Shark Research Centre, da Nova Southeastern University, na Flórida.

Oque há nos genes dos tubarões?

Genes instáveis nos seres humanos são o que nos torna vulneráveis a doenças ligadas ao envelhecimento, como câncer.

Por estarem presentes há milhões de anos e serem criaturas dominantes, seu DNA evoluiu a ponto de ser capaz de se reconstruir e tolerar danos.

“A instabilidade genômica é uma questão muito importante em várias doenças humanas”, diz um dos líderes da pesquisa, Dr Mahmood Shivji.

“Agora descobrimos que a natureza desenvolveu métodos para manter a estabilidade do genoma nessas criaturas enormes e tão antigas.”

“Ainda há muito a se aprender com essas maravilhas evolucionárias, inclusive informações que podem ser úteis para combater câncer e outras doenças ligadas ao envelhecimento e para melhorar tratamentos de cura de ferimentos, à medida que formos descobrindo como esses animais conseguem isso.”

O tubarão-branco está patrulhando os mares há pelo menos 16 milhões de anos e pode chegar a ter seis metros de comprimento e pesar até três toneladas.

O DNA de tubarões é uma vez e meia mais longo que o de seres humanos, o que significa que há coisas que esses animais conseguem fazer que humanos não conseguem.

Cientistas esperam desvendar esses segredos e usá-los para tratar problemas que o DNA já está resolvendo nos tubarões.

Eles acham que os tubarões podem ajudar no desenvolvimento de tratamento de cura de feridas e estancamento de sangue, devido à habilidade que têm de se recuperar rapidamente de ferimentos graves.

Tubarões: mais do que só dentões

Essa pesquisa pode ser um passo para mudar a imagem de um dos animais mais temidos do mundo.

A fotógrafa Kimberly Jeffries disse recentemente à Radio 1 Newsbeat, da BBC, que não sentiu “medo algum” quando nadou com um dos maiores tubarões-brancos do mundo, chamando Deep Blue.

“É uma lição de humildade”, disse ela.

Ainda assim, não recomenda que ninguém pule na água com um. “São predadores, então é preciso respeitá-los”, disse Kimberly.

Ao caçar peixes e outros bichos no oceano, também ajudam o avanço dessas espécies, já que seu alvo são os indivíduos mais lentos e fracos.

Pesquisas mostram que tubarões são importantes na luta contra o aquecimento global, já que caçam animais pequenos que produzem mais dióxido de carbono.

 

Foto: GETTY IMAGES

Cirurgia ocular: a terapia genética que pode barrar 'causa mais comum de cegueira'

Uma mulher britânica se tornou a primeira pessoa no mundo a ser submetida a uma terapia genética que tenta deter a forma de cegueira mais comum no Ocidente

Por BBC

Os cirurgiões injetaram um gene sintético na parte de trás do olho de Janet Osborne em uma tentativa de impedir a morte de mais células.

É o primeiro tratamento a atacar a causa genética subjacente da degeneração macular relacionada à idade (DMRI).

“Tenho dificuldade de reconhecer rostos com meu olho esquerdo porque minha visão central está desfocada. Se esse tratamento for capaz de impedir que isso piore, vai ser incrível”, diz Osborne à BBC.

O tratamento foi realizado com anestesia local no mês passado, no Oxford Eye Hospital, na cidade homônima, no Reino Unido, pelo médico Robert MacLaren, professor de oftalmologia da Universidade de Oxford.

“Um tratamento genético precoce para preservar a visão em pacientes que, sem intervenção, perderiam a visão seria um tremendo avanço na oftalmologia e certamente algo que espero para um futuro próximo”, afirmou MacLaren.

Osborne, de 80 anos, é a primeira de 10 pacientes com DMRI a participar de um tratamento experimental de terapia genética, desenvolvido pela Gyroscope Therapeutics, com financiamento da Syncona, fundo de investimentos da Wellcome Trust.

O que é DMRI?

A mácula é a parte da retina responsável pela visão central e de pequenos detalhes.

Na degeneração macular relacionada à idade, as células da retina morrem e não são renovadas.

O risco de desenvolver DMRI aumenta com o passar dos anos.

A maioria dos pacientes, incluindo todos os participantes do tratamento experimental, apresenta o que é conhecido como DMRI seca, em que o declínio na visão é gradual e pode levar muitos anos.

Já a DMRI úmida pode se instalar subitamente e levar à perda rápida da visão, mas pode ser tratada se for diagnosticada logo.

Como a terapia genética funciona?

À medida que algumas pessoas envelhecem, os genes responsáveis ​​pelas defesas naturais do olho começam a apresentar anomalias e a destruir as células da mácula, levando à perda da visão.

Uma injeção é aplicada na parte de trás dos olhos, introduzindo um vírus inofensivo que contém um gene sintético.

O vírus infecta as células da retina e libera o gene.

Isso permite que o olho produza uma proteína destinada a impedir que as células morram e a manter, assim, a mácula saudável.

Em estágio inicial, no Oxford Eye Hospital, o teste foi desenvolvido principalmente para verificar a segurança do procedimento e está sendo realizado em pacientes que já perderam uma parte da visão.

Se o tratamento for bem sucedido, a meta seria tratar os pacientes antes que tenham perdido qualquer percentual da visão, em uma tentativa de deter a DMRI no início.

Isso teria um impacto grande na qualidade de vida dos pacientes.

Expectativa para os resultados

É muito cedo para saber se a perda de visão no olho esquerdo de Osborne foi interrompida, mas todos que participam do teste terão a visão monitorada.

“Ainda gosto de praticar jardinagem com meu marido, Nick, que cultiva muitas verduras e legumes”, conta Osborne.

“Se eu puder continuar descascando e cortando os legumes, mantendo meu atual nível de independência, sem dúvida vai ser maravilhoso.”

Já existe um tratamento de terapia genética bem-sucedido para outro distúrbio ocular raro.

Em 2016, a mesma equipe de Oxford mostrou que uma única injeção poderia melhorar a visão de pacientes com coroideremia, que, do contrário, ficariam cegos.

E, no ano passado, médicos do Moorfields Eye Hospital, em Londres, recuperaram a visão de dois pacientes com DMRI implantando um curativo de células-tronco sobre a área danificada no fundo do olho.

A expectativa é que a terapia com células-tronco possa ajudar muitas pessoas que já perderam a visão.

Mas o tratamento experimental de Oxford é diferente porque visa a combater a causa genética subjacente da DMRI e pode ser eficaz em deter a doença antes que as pessoas fiquem cegas.

 

Foto: FERGUS WALSH