10 de junho de 2019 - Anadem

Dividir concentração entre real e virtual pode prejudicar o cérebro

Médicos e psicólogos informam que fazer tudo ao mesmo tempo fere o sistema cognitivo

Por Exame

São Paulo – Há quem diga que a dependência da internet é um dos males modernos, enquanto outros defendem o seu lado positivo. A fim de descobrir como o frequente uso do universo virtual afeta os usuários, um grupo de profissionais multinacional da saúde realizou um estudo que diz que as áreas do cérebro associadas com cognição são as que sofrem mais alteração.

Isso significa que, ao utilizar a internet por um tempo considerável, o usuário pode ter problemas de memória e ter menos atenção para o que acontece ao seu redor, gerando problemas de sociabilidade. Tornando-se frequente, esse comportamento pode afetar gravemente a saúde mental e fazer com que o ser humano se sinta dependente do celular ou do computador, como um zumbi.

Para validar sua hipótese, os autores do estudo realizaram exames psicológicos, psiquiátricos e neurológicos. Joseph Firth, pesquisador da Universidade de Western Syndey, disse para o site Medical Press que um dos maiores problemas do usuário é tentar dividir a atenção entre tarefas reais e virtuais. “Por exemplo, o fluxo ilimitado de fatos e notificações vindas da internet nos encoraja a manter constantemente uma atenção dividida – o que, por sua vez, pode diminuir nossa capacidade de manter a concentração em uma única tarefa”, afirmou Firth. o estudo foi realizado por uma equipe com profissionais de saúde de Reino Unido, Austrália, Estados Unidos e Bélgica.

Em um estudo de 2016 sobre o mesmo tema, analisou que pessoas mais novas que adotam o método multitarefa fazem mais esforço cognitivo para manter o foco em situações de distração. Além disso, a alta concentração de uso da internet combinada com diversas tarefas ao mesmo tempo foram relacionadas a uma diminuição da massa cinzenta em regiões frontais do cérebro – que são associadas com a concentração do ser humano.

No entanto, não é apenas um problema de concentração – os autores do estudo mais recente informaram que as evidências sugerem que o vício de internet também afeta a memória e a sociabilidade. “Visto que agora temos a maior parte dos fatos mundiais literalmente ao nosso alcance, isso parece ter o potencial de começar a mudar as maneiras pelas quais armazenamos e até valorizamos os conhecimentos sobre a sociedade e o cérebro.”, disse Firth.

Nem tudo na pesquisa são notícias negativas. Para concluir, os autores sugeriram exercícios de meditação do estilo mindfulness, redução da prática de multitarefas e o aumento do intervalo de tempo entre as vezes que checamos as novidades no celular, que é, em média, a cada dez minutos. Com essas mudanças de comportamento, os especialistas informam que os efeitos prejudiciais do uso constante da internet são minimizados.

 

Foto: Getty Images/Reprodução

Estudo liga consumo de fast food na infância com alergia alimentar

Há evidências de que a incidência de alergias alimentares está aumentando especialmente entre as crianças

Por Diário de Pernambuco

Segundo a Associação Brasileira de Alergia e Imunologia, de 6% a 8% de meninos e meninas com menos de 3 anos de idade são afetados pelo problema. A reação do sistema imunológico logo após a ingestão de um determinado alimento pode ser desencadeada por diversos fatores, mas o que não se sabia, até agora, era que os junk foods (comida lixo, na tradução literal do inglês) estão entre as causas.

É o que mostrarão pesquisadores da Universidade Frederico II, em Nápoles, na Itália, em um estudo que será apresentado neste sábado (8/6), na 52ª Reunião Anual da Sociedade Europeia de Gastroenterologia Pediátrica, Hepatologia e Nutrição na cidade de Glasgow, na Escócia. A equipe alerta, inclusive, que os alimentos processados e ricos em calorias podem ser os responsáveis pela epidemia de alergia alimentar em crianças.

Os estudiosos descobriram que os produtos finais de glicação avançada (AGEs), encontrados em abundância nos junk foods, auxiliam no desenvolvimento de alergias alimentares. Os AGEs são proteínas ou lipídios que fazem parte do metabolismo normal do organismo humano, mas, se forem expostos a altos níveis de açúcares — o que acontece quando se segue as calóricas dietas da atualidade — podem se tornar patogênicos.

Os AGEs já são conhecidos por estarem ligados ao desenvolvimento e à progressão de diversas doenças, incluindo diabetes, aterosclerose e distúrbios neurológicos. Mas é a primeira vez que essas proteínas são relacionadas à alergia alimentar. Para isso, a equipe liderada por Roberto Berni Canani realizou um estudo clínico com 61 crianças de 6 a 12 anos, divididas em três grupos: algumas com alergias alimentares, outras com alergia respiratória e, por último, as mais saudáveis. Foram analisados níveis de AGEs na dieta dos participantes por meio de um leitor tecnológico, além de aplicado um questionário sobre frequência alimentar.

Os resultados mostram que as crianças com alergias alimentares apresentaram níveis mais elevados de AGEs nas dietas do que as que não tinham o problema. Para os cientistas, foram encontradas evidências convincentes relacionadas ao mecanismo de ação dos AGEs na determinação da alergia alimentar. “Existe uma correlação entre os níveis subcutâneos dos AGEs e o consumo de junk foods. Uma dieta com baixos níveis de AGEs pode prevenir a ocorrência de alergias alimentares”, destaca Roberto Berni Canani, também professor de pediatria e chefe do Programa de Alergia Pediátrica do Departamento de Ciências Médicas Translacionais na universidade italiana.

Inovação

Delmir Rodrigues, endocrinologista e nutrólogo pediátrico e do adolescente, ressalta que esses resultados são plausíveis. “Trata-se de um estudo científico com uma boa metodologia, tendo uma hipótese intrigante para muitos ramos da medicina”, evidencia. Segundo o especialista, geralmente, a alergia alimentar começa na infância, mas pode ocorrer em qualquer idade. “Muitas crianças se livram da doença conforme envelhecem, mas em algumas podem durar a vida toda”, afirma.

Para Amanda Rosa Leal, professora de gastroenterologia do curso de Medicina do Centro Universitário João Pessoa (Unipê), o estudo italiano é inovador, ao correlacionar alergias alimentares com a qualidade dos alimentos consumidos. “O reconhecimento da relação entre alergias e o consumo de determinados alimentos com alto teor calórico, mas com níveis reduzidos de nutrientes, pode melhor favorecer monitoramentos e, principalmente, estabelecer intervenções seguras na sua limitação e exclusão, permitindo uma melhor qualidade de vida e a prevenção de doenças”, explica.

De acordo com Roberto Berni, até o momento, as hipóteses e modelos existente sobre alergia alimentar não explicam adequadamente o aumento dramático da complicação observado nos últimos anos. Ele acredita que os resultados obtidos por ele e a equipe vão abrir caminho para futuras investigações na área.“Se essa ligação for confirmada, fortalecerá a defesa dos governos nacionais para melhorar as intervenções de saúde pública para restringir o consumo de junk food em crianças”, aposta o pesquisador.

A alergista Ana Carolina Rozalem, membro do Departamento Científico de Alergia Alimentar da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (ASBAI), também acredita no uso público dessas constatações. “Elucidar mais uma consequência da ingestão de junk ou fast food pode engrossar o coro no sentido de desestimular esse hábito e de criarmos medidas públicas para impedir o consumo”, explica.

 

Foto: Richards/Reprodução