22 de agosto de 2019 - Anadem

Candida auris: cientistas mapeiam avanço de 'superfungo' resistente a medicamentos

A maioria das infecções por Candida auris documentadas no mundo aconteceram em ambientes hospitalares

Por BBC

O Candida auris, fungo resistente a medicamentos, só foi descoberto há 10 anos, mas é hoje um dos micro-organismos responsáveis por infecções hospitalares mais temidos do mundo.

Foram registrados surtos em várias partes do mundo, e pesquisas recentes sugerem que as temperaturas mais altas, provocadas pelo aquecimento global, podem ter levado a um aumento no número de casos.

De acordo com os Centros para Controle e Prevenção de Doenças dos EUA (CDC, na sigla em inglês), é necessária uma compreensão melhor de quem são os pacientes mais vulneráveis ao micro-organismo para reduzir o risco de contágio.

Confira abaixo tudo o que você precisa saber sobre o “superfungo”:

O Candida auris (C. auris) é uma levedura, tipo de fungo, que pode causar infecções em seres humanos.

Apesar de ser do mesmo gênero que o fungo Candida albicans (C. albicans), um dos principais causadores da candidíase, são espécies bem diferentes.

A candidíase por C. albicans é uma doença comum que pode afetar a pele, as unhas e órgãos genitais, e é fácil de tratar.

Já a infecção pelo C. auris é resistente a medicamentos e pode ser fatal.

O fungo foi identificado pela primeira vez, em 2009, no canal auditivo de uma paciente japonesa no Hospital Geriátrico Metropolitano de Tóquio.

Na maioria das vezes, as leveduras do gênero Candida residem em nossa pele, boca e genitais sem causar problemas, mas podem causar infecções quando estamos com a imunidade baixa ou quando se provocam infecções invasivas, como na corrente sanguínea ou nos pulmões.

O C. auris costuma causar infecções na corrente sanguínea, mas também pode infectar o sistema respiratório, o sistema nervoso central e órgãos internos, assim como a pele.

Essas infecções são geralmente muito graves. Em todo o mundo, estima-se que infecções fúngicas invasivas de C. Auris tenham levado à morte de entre 30% e 60% dos pacientes.

É com frequência resistente aos medicamentos comuns, o que dificulta o tratamento das infecções.

Além disso, o C. auris costuma ser confundido com outras infecções, levando a tratamentos inadequados.

Isso significa que o paciente pode ficar doente por mais tempo ou piorar.

“Vários hospitais do Reino Unido já tiveram surtos que exigiram o apoio da agência de saúde pública do país (PHE, na sigla em inglês)”, diz a médica Elaine Cloutman-Green, especialista em controle de infecções e professora da University College London (UCL).

“O C. auris sobrevive em ambientes hospitalares e, portanto, a limpeza é fundamental para o controle. A descoberta (do fungo) pode ser uma questão séria tanto para os pacientes quanto para o hospital, já que o controle pode ser difícil”, acrescenta.

“Os hospitais do NHS (sistema de saúde público do Reino Unido) que tiveram surtos de C. auris não constataram que (o fungo) tenha sido a causa da morte de nenhum paciente”, explicou Colin Brown, microbiologista da agência de saúde pública do país.

“A PHE está trabalhando em parceria com o NHS para oferecer atendimento especializado e aconselhamento sobre medidas de controle de infecção para limitar a disseminação do C. auris.”

É improvável que você pegue uma infecção por C. auris.

No entanto, o risco é maior se você estiver internado em um hospital por um longo período de tempo ou em uma casa de repouso. Além disso, pacientes de unidades de tratamento intensivo têm muito mais chance de contrair uma infecção por C. auris.

O risco de ser infectado também é maior se você já tiver tomado muitos antibióticos, uma vez que este tipo de medicação também destrói as bactérias boas que podem impedir a entrada do C. auris.

Conforme mostra o mapa, não foi confirmado nenhum caso de infecção no Brasil até agora. Mas como o fungo é difícil de identificar, isso não quer dizer que ele não tenha entrado no país.

“Com a globalização e o fato de a doença sobreviver muito tempo em superfícies inanimadas, o risco de a doença chegar ao Brasil é grande”, alertou à BBC News Brasil em abril, o infectologista Arnaldo Lopes Colombo, professor da Unifesp e especialista em contaminação com fungos.

De acordo com os Centros de Controle e Prevenção de Doenças nos EUA, cada vez mais países estão relatando casos de infecções por C. auris.

A maioria das nações europeias já reportou algum caso. No Reino Unido, cerca de 60 pacientes foram infectados desde 2013.

A resistência aos antifúngicos comuns, como o fluconazol, foi identificada na maioria das cepas de C. auris encontradas em pacientes.

Isso significa que essas drogas não funcionam para combater o C. auris. Por causa disso, medicações fungicidas menos comuns têm sido usadas para tratar essas infecções, mas o C. auris também desenvolveu resistência a elas.

Análises de DNA mostram que os genes de resistência antifúngica presentes no C. auris são muito semelhantes aos encontrados no C. albicans.

Isso indica que esses genes passaram de uma espécie para outra.

Um estudo recente, publicado na revista científica mBio, da Sociedade Americana de Microbiologia, indica que as infecções por C. auris podem ter se tornado tão comuns porque essa espécie foi forçada a viver em temperaturas mais altas devido às mudanças climáticas.

A maioria dos fungos prefere temperaturas mais baixas encontradas no solo. Mas, à medida que as temperaturas globais aumentaram, o C. auris foi forçado a se adaptar a temperaturas mais altas.

Isso pode ter facilitado o desenvolvimento do fungo no corpo humano, que é quente, com temperatura em torno de 36°C e 37°C.

Uma compreensão melhor de quem corre mais risco de contrair uma infecção por C. auris é o primeiro passo para reduzir o número de casos.

Profissionais de saúde precisam entender que pacientes que passam longas temporadas em hospitais, lares de idosos ou que têm o sistema imunológico debilitado apresentam um risco elevado.

Nem todos os hospitais identificam o C. auris da mesma maneira. Às vezes, o fungo é confundido com outras infecções fúngicas, como candidíase comum, o que leva a um tratamento inadequado.

Melhorar o diagnóstico vai ajudar a identificar os pacientes com C. auris mais cedo, o que significa oferecer o tratamento correto – prevenindo a disseminação da infecção para outros pacientes.

O C. auris é muito resistente e pode sobreviver em superfícies por um longo tempo.

Também não é possível eliminá-lo usando os detergentes e desinfetantes mais comuns.

É importante, portanto, utilizar os produtos químicos de limpeza adequados para eliminá-lo dos hospitais, especialmente se houver um surto.

 

Foto: Getty Images

Pesquisadores brasileiros detectam hanseníase resistente a tratamento padrão no Pará

Imagem microscópica mostra a Mycobacteruim laprae; pesquisadores brasileiros detectaram existência de bactérias resistentes ao tratamento-padrão em maior proporção do que apontado pela OMS

Por BBC

Uma doença considerada erradicada em grande parte do mundo ainda é um problema de saúde pública no Brasil: a hanseníase tem cerca de 28 mil novos casos registrados por ano no país, que ocupa o segundo lugar no ranking mundial de novos pacientes diagnosticados, atrás apenas da Índia.

Agora, um estudo recente publicado por pesquisadores brasileiros indica que o problema pode ser ainda mais sério: detectou-se uma existência de bactérias resistentes ao tratamento-padrão em maior proporção do que os números divulgados pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

“Por muitos anos, a OMS dizia que não existia resistência, que a hanseníase é 100% curável. Isso não é verdade”, diz Marcelo Mira, professor do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde da PUC-PR e líder do estudo.

“Mas, no passado, não tínhamos as ferramentas para detectar isso. A Mycobacterium leprae é a única bactéria que causa a doença em humanos e que não pode ser cultivada em laboratório, em meio de cultura. Só nos anos 90 começaram a surgir os primeiros testes moleculares, que permitem identificar a resistência diretamente no genoma do bacilo”, explica.

O tratamento-padrão para a hanseníase é a chamada poliquimioterapia (PQT), uma associação de drogas como a rifampicina e a dapsona, remédios para os quais o levantamento testou a resistência. No estudo, os pesquisadores detectaram a maior proporção de cepas resistentes da M. leprae já reportada em uma determinada comunidade: 43,2% dos casos apresentavam resistência a algum dos medicamentos, e 32,4% possuíam resistência dupla.

Publicado na Clinical Infectious Diseases, uma das principais revistas científicas na área de doenças infecciosas, o artigo também contou com pesquisadores do Instituto Lauro de Souza Lima, Fundação Oswaldo Cruz, Universidade Federal do Pará (UFPA), Universidade Estadual do Pará (UEPA) e Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Vila do Prata

Para chegar aos resultados, os pesquisadores analisaram, ao longo de 12 anos, a população da Vila Santo Antônio do Prata, uma ex-colônia de hansenianos no interior do Pará, situada a 110 km de Belém. Hoje com uma população perto dos 3 mil habitantes, a maioria descendente de pacientes que tiveram hanseníase, a comunidade foi submetida a mais de 600 consultas pela equipe em suas expedições.

A localidade, popularmente conhecida como Vila do Prata, foi um dos vários hospitais-colônias abertos no Brasil a partir de 1923, quando pacientes diagnosticados com lepra (o nome da doença na época) passaram a ser internados compulsoriamente.

Os chamados “leprosários” contribuíram para aumentar o estigma social em relação à doença: eram locais de isolamento, onde os doentes acabavam apartados da sociedade e, com frequência, permaneciam até o fim da vida – mesmo já tratados e com o contágio encerrado.

A Vila do Prata recebeu pacientes dos Estados do Norte e Nordeste do país. Embora o isolamento tenha deixado de ser obrigatório em 1962, a integração dessas comunidades permaneceu rara, tanto no que diz respeito à saída dos habitantes quanto à entrada de novas pessoas. Tratamentos interrompidos, desconhecimento e preconceito em relação à doença também fizeram com que muitas dessas áreas se mantivessem endêmicas.

“Ainda hoje, a população local é discriminada pelo fato de ser uma ex-colônia de hansenianos”, lamenta Mira, que destaca a importância de vencer o estigma.

Para o estudo, o isolamento acabou se revelando importante para compreender como a resistência opera.

“É uma população que permaneceu relativamente isolada desde o estabelecimento da colônia e foi submetida a praticamente todos os protocolos de tratamento aplicados nos últimos 100 anos”, destaca Mira.

“Claro que os resultados devem ser interpretados corretamente: é uma população muito particular, superexposta e supertratada por décadas. Mas os resultados são um importante sinal de alerta, de que ainda sabemos muito pouco sobre o fenômeno da emergência de resistência ao tratamento”, ressalta o pesquisador.

Por ser uma doença com um tempo de incubação alto, não há o risco de um surto: a proliferação dessas cepas viria gradualmente, como consequência de uma negligência continuada por parte das autoridades.

“Em um cenário em que não se preste atenção a esse problema, é provável que daqui a 20 ou 30 anos haja uma hanseníase muito mais resistente disseminada nas populações endêmicas”, pontua Mira.

Sinal de alerta

Para especialistas da área, o estudo se soma às evidências de que a resistência é um problema que ainda não recebeu a devida atenção do poder público. Como a própria OMS subestimava essa questão até os anos 90, as políticas nacionais se movem lentamente no que diz respeito aos tratamentos alternativos à PQT.

“O Ministério da Saúde não tem um protocolo padronizado para agir em casos de resistência. Estamos em uma fase em que o ministério ainda faz levantamentos sobre a situação, enquanto a bactéria já está um passo à frente, como sempre”, diz Claudio Salgado, pesquisador do Laboratório de Dermato-Imunologia da UFPA e presidente da Sociedade Brasileira de Hansenologia (SBH), que analisou o estudo a pedido da BBC Brasil.

Para Salgado, o combate à doença vive uma espécie de “marasmo” causado por uma percepção errônea de que o problema já foi devidamente controlado.

“As pessoas acham que a hanseníase está controlada, e que vai acabar com a melhoria das condições socioeconômicas”, aponta. “Mas o trabalho mostra claramente que a bactéria está se desenvolvendo, e temos um percentual cada vez maior de pessoas que respondem menos aos tratamentos convencionais”, entende o especialista.

“A bactéria não espera. Ela se multiplica e desenvolve resistência aos antibióticos”, resume. “Já vimos isso na tuberculose algumas décadas atrás. Ela começou a apresentar os primeiros casos de multirresistência naquela época e hoje, quase metade dos casos são multirresistentes. Com a hanseníase, estamos vendo o início disso”, argumenta Salgado.

Por ser um campo relativamente recente, a compreensão da resistência ainda é parcial, segundo o presidente da SBH. “O que o estudo traz é uma parte da história, as partes do genoma que nós conhecemos, mas há outras áreas com resistência que ainda não são conhecidas, o que torna o processo mais grave”, interpreta Salgado.

“Não podemos alarmar a população com promessas de uma epidemia, mas também não se pode empurrar com a barriga achando que está tudo bem. Temos casos de resistência publicados em 2011, agora vemos esses resultados em 2019. O que vamos aguardar? Sair outro trabalho em 2029 para dizer que realmente tem resistência? Precisamos de um protocolo urgentemente”.

A visão é semelhante à de Marcelo Mira, que reforça a necessidade de uma política alternativa para casos em que o M. leprae já não responde ao tratamento convencional.

“Alguns médicos realizam o tratamento com antibiótico específico para casos mais resistentes, mas fazem isso não por uma orientação definida pelo ministério, e sim por entenderem que o protocolo clássico já não funciona”, aponta o líder do estudo. “O Ministério da Saúde precisa decidir logo a respeito disso”.

Procurada para comentar os resultados do estudo, a Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde (SVS/MS), órgão responsável pelo monitoramento e políticas relacionadas à hanseníase, não havia retornado os contatos até o fechamento desta reportagem.

 

Foto: Getty Images