Inadimplente, paciente pede R$ 300 mil a médico associado por suposto erro médico em cirurgia plástica, mas tem pedido negado pela justiça
Mulher não ficou satisfeita com os procedimentos e entrou com ação judicial pedindo até mesmo que o nome fosse retirado do registro de inadimplência
Em 2014, D.R.S. passou por cirurgia estética de abdominoplastia, lipoescultura e mamoplastia com prótese com um cirurgião plástico associado a Anadem (Sociedade Brasileira de Direito Médica e Bioética). Insatisfeita com os resultados e afirmando que o procedimento não foi realizado conforme o combinado, entrou com ação por danos morais e materiais, com restituição de valores pagos e cancelamento de débito contra o médico. O pedido foi negado e o caso julgado improcedente por juíza de direito.
A paciente afirma que o resultado da cirurgia foi supostamente desastroso, não sendo eliminadas gorduras localizadas e que as próteses das mamas são completamente diferentes uma da outra, ficando disformes, além de restarem enormes cicatrizes nos locais do procedimento e excessos de pele.
Na alegação ela destacou ainda que foi recomendado pelo profissional o uso de modeladores, mas estes teriam ocasionado manchas escuras na pele e grande desconforto, com constantes dores, estando com as mamas caídas devido ao peso das próteses. Dito isso, ela informou ter perdido os dois empregos que necessitava para sustentar o filho pequeno, já que devido às grandes dores, supostamente causadas pelo procedimento, ela não conseguia realizar as atividades do trabalho com o mesmo desempenho de antes, mesmo seguindo todas as orientações do cirurgião.
D.R.S. pediu a condenação do médico ao reembolso do valor de R$ 11 mil, o cancelamento do débito remanescente, no valor de R$ 7 mil, e a exclusão do nome junto ao cadastro de inadimplentes. Ainda exigiu a condenação do profissional ao pagamento de indenização por danos morais, no valor de R$ 300 mil, e que ele arque com os valores de duas cirurgias reparadoras feitas com outro profissional, uma mastopexia bilateral com uso de próteses de silicone, no valor de R$ 12.960,00, e uma dermolipectomia abdominal no valor de R$ 12.580,00.
DEFESA
A defesa, realizada pelo Dr. Wendell Sant’Ana, do escritório de advocacia credenciado a Anadem, Sant’Ana e Carmo Advogados, apresentou contestação afirmando que o médico realizou a cirurgia na paciente sem nenhuma intercorrência, e acompanhou toda a evolução pós-cirúrgica. Mesmo com o retorno da paciente meses depois dos procedimentos, relatando que estava insatisfeita com as mamas, quando ele informou que a evolução estava normal e que, ao observar que ela estava sem modelador, recomendou o uso.
Também foi sustentado pela defesa que em fevereiro de 2015 D.R.S. retornou a última vez ao consultório, relatando novamente insatisfação com as próteses mamárias. O médico orientou pela terceira vez o uso do modelador, mas a paciente não aceitou a recomendação e nunca mais retornou às consultas, abandonando o tratamento pós-cirúrgico.
Baseando-se nas provas apresentadas, como prontuário e termo de consentimento, a perícia comprovou que a paciente foi orientada quanto aos riscos e possíveis complicações dentro dos procedimentos realizados, fora que existem fatos documentados no prontuário as duas ocasiões de retorno da paciente em que foram observadas a não utilização das malhas modeladoras prescritas.
Os métodos utilizados pelo profissional também foram confirmados como adequados e corretamente aplicados na cirurgia. Sendo as sequelas alegadas pela paciente resultadas não por erro médico, mas sim por resultados naturais do próprio procedimento e do corpo. As cicatrizes evidenciadas em fotografias foram analisadas e dadas como correspondentes a normalidade das cirurgias realizadas, sem incisões atípicas.
A juíza de direito da comarca de Goiânia (GO) julgou o caso improcedente, condenando a paciente ao pagamento das custas e despesas processuais e honorários advocatícios, correspondentes a 10% do valor da causa.
Diabetes não é doença só de adulto: Brasil é 3º país com mais casos entre crianças e adolescentes
Motivos do aumento não estão plenamente esclarecidos, mas obesidade e má alimentação são fatores-chave; país tem 98,2 mil crianças e adolescentes com menos de 15 anos diagnosticados com diabetes tipo 1, segundo relatório
Por BBC
Há seis anos, a advogada Ana Paula Crispim Cavalheiro, de 44 anos, e o marido, o comerciante Fernando Coelho Cavalheiro, de 49 anos, notaram algumas mudanças no comportamento da filha mais nova, Caroline, hoje com 11 anos.
“Ela estava sempre cansada, perdendo peso, não conseguia segurar o xixi e bebia bastante água”, recorda a mãe. Por sugestão de uma amiga, representante de um laboratório que comercializa aparelhos medidores de glicose (glicosímetros), utilizou um para verificar o nível de açúcar no sangue da filha.
“Deu 372 mg/dl, quando o normal é menos de 100 mg/dl. Na mesma hora corremos para o hospital, e lá veio a comprovação: ela estava com diabetes tipo 1”, relata Ana Paula, acrescentando que Caroline teve de ficar nove dias internada, cinco deles na UTI.
A história de Pedro Henrique, de 9 anos, é bem parecida. Em 2016, seus pais também perceberam que ele estava fazendo muito xixi e tomando mais água do que o habitual.
“Como era verão, não fiquei tão preocupada assim, achei que era por causa do calor. Fora que uma semana antes tínhamos ido ao pediatra e estava tudo bem”, conta a mãe, a representante de vendas Erika Crapino Lopes, de 47 anos.
O menino, então, começou a perder peso. “Foi aí que vimos que tinha, sim, alguma coisa errada. No hospital, quando mediram a glicemia, ela estava 415 mg/dl. Ele fez outros exames e o médico nos informou que o diagnóstico era diabetes tipo 1 e que precisaria de internação. Foram sete dias na UTI e mais três no quarto”, complementa.
Crianças e adolescentes diabéticos
Caroline e Pedro Henrique fazem parte de uma turma que só cresce no mundo, o de crianças e adolescentes diabéticos.
O 9º IDF Diabetes Atlas, divulgado recentemente pela Federação Internacional da Diabetes (a IDF, organização que congrega associações especializadas na doença em 168 países), aponta que 1,1 milhão de meninos e meninas com menos de 20 anos têm o tipo 1 da doença no mundo, e a estimativa é de que o aumento anual global de casos seja em torno de 3%.
Na América Latina, 127,2 mil convivem com a diabetes, e o país com mais registros é o Brasil: 95,5 mil casos. No ranking global, o país só perde em número de casos para os Estados Unidos e a Índia – os números, no entanto, não demonstram maior incidência da doença entre os brasileiros; de acordo com a IDF, a posição do país entre os primeiros do ranking se deve ao tamanho de sua população.
Segundo o relatório da IDF, cerca de 98,2 mil crianças e adolescentes com menos de 15 anos são diagnosticados com diabetes tipo 1 a cada ano – o número sobe para 128,9 mil quando a faixa etária se estende até os 20 anos.
“Nos últimos 10 anos, a prevalência de diabetes tipo 1 aumentou 14 vezes em crianças e adolescentes. Nesse grupo, é a doença crônica endocrinológica mais frequente e a segunda ou a terceira doença crônica pediátrica, dependendo da população, mais frequente”, afirma Raphael Del Roio Liberatore Júnior, endocrinologista pediátrico e professor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP.
Segundo o IDF, há evidências de que o diabetes tipo 2, que é mais frequente em adultos, também esteja aumentando entre crianças e adolescentes. Não há, entretanto, dados estatísticos confiáveis que confirmem isso.
Razões do crescimento
Mas por que a diabetes infantil está crescendo tanto, e no mundo todo?
Em seu relatório anual, o IDF diz que esse fenômeno “é motivado por uma complexa interação entre fatores socioeconômicos, demográficos, ambientais e genéticos”.
Liberatore Júnior diz que as causas exatas ainda não são totalmente conhecidas, mas existem teorias. “A principal é o aumento do peso da população”, comenta o médico.
Para se ter uma ideia, no Brasil, a Pesquisa de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel), de 2018, do Ministério da Saúde, revela que a obesidade cresceu 67,8% nos últimos treze anos, saltando de 11,8% da população em 2006 para 19,8% em 2018.
Em se tratando de crianças com idade entre 5 e 9 anos, os dados apontam que 3 a cada 10 delas estão acima do peso.
“A obesidade é o fator de risco mais importante para o diabetes tipo 2 porque gera uma situação de resistência à ação da insulina, ou seja, o corpo não consegue usá-la para controlar adequadamente os níveis de açúcar no sangue”, explica o endocrinologista.
No caso do tipo 1 da doença, esclarece Karla Melo, doutora em endocrinologia e membro da diretoria da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), a ação do excesso de peso se dá de forma indireta.
“Em uma criança que já tenha predisposição genética para a enfermidade, o excesso de peso pode deflagar a reação imune à insulina ou de forma mais precoce ou mais intensa”, explica a médica.
Ainda sobre o diabetes tipo 1, mais uma explicação para a sua maior prevalência, de acordo com Liberatore Júnior, é a teoria (ou hipótese) da higiene.
Apresentada pelo médico inglês David Strachan, em 1989, ela sugere que meninos e meninas que não têm seus sistemas imunológicos estimulados desde cedo, por não entrarem em contato com micro-organismos presentes na natureza e viverem em ambientes extremamente limpos e estéreis, são mais propensos a desenvolver algumas patologias.
“Isso faz com que se contraiam menos doenças infecciosas e se produzam menos anticorpos contra o meio externo. Aí, como o sistema imune não tem inimigos fora, ele começa a destruir a parte de dentro, atacando o próprio organismo”, complementa o endocrinologista pediátrico.
Diabetes tipo 1 e tipo 2
O diabetes é uma doença crônica causada pela produção insuficiente ou pela má absorção de insulina, hormônio que regula a glicose no sangue e garante energia para o organismo, tendo como consequência a elevação do nível de açúcar no corpo – o normal, para uma pessoa saudável e em jejum, é abaixo de 100 mg/dl.
Quando esse quadro prossegue por longos períodos, pode causar danos graves em diversos órgãos, vasos sanguíneos e nervos.
Na lista de complicações estão doenças cardiovasculares, insuficiência renal crônica, potenciais amputações dos membros inferiores, problemas na visão, acometimento dos nervos (neuropatia periférica) e cetoacidose diabética – quando processo do corpo para compensar a ausência de insulina acaba por deixar o sangue ácido. O risco de morte também é grande.
Os tipos de diabetes que acometem crianças e adolescentes são o 1 e o 2. O 1, de acordo com a SBD, se dá quando o próprio sistema imunológico ataca as células do pâncreas que produzem insulina, fazendo com que pouca ou nenhuma quantidade do hormônio seja liberada para o corpo.
Seus principais sintomas são sede constante, vontade de urinar diversas vezes ao dia, alterações no apetite, perda de peso (mesmo comendo mais), fraqueza e fadiga.
O tratamento é feito com insulina, medicamentos, planejamento alimentar e atividades físicas.
O tipo 2, por sua vez, ocorre quando o corpo não consegue aproveitar adequadamente a insulina produzida ou não a produz em quantidade suficiente para controlar a taxa de glicemia.
Os sintomas, apesar de menos perceptíveis, são basicamente os mesmos do anterior, acrescido de formigamento nos pés e nas mãos, infecções frequentes na bexiga, nos rins e na pele, feridas que demoram para cicatrizar e visão embaçada.
Normalmente, o controle se dá com atividade física e planejamento alimentar. Casos mais graves exigem o uso de insulina e/ou outros medicamentos.
Embora não exista cura, Denise Reis Franco, diretora da ONG ADJ Diabetes Brasil, destaca que vários progressos ocorreram nos últimos anos.
“Foram desenvolvidas, por exemplo, insulinas mais modernas e eficazes e novos aparelhos domiciliares para medição de glicose e aplicação de insulina. Aos poucos, o diabético está tendo mais opções, que facilitam o tratamento, e isso é importantíssimo porque o maior desafio ainda é o controle do índice glicêmico, sobretudo entre os adolescentes”, diz.
Apesar disso, a especialista explica que o mais importante é prevenir o diabetes, com a adoção de hábitos saudáveis.
“Isso inclui controle do peso, dieta equilibrada, rica em verduras, legumes e frutas e com redução de sal, açúcar e gorduras, e a prática regular de atividade física, de acordo com cada faixa etária”, finaliza.
Foto: Science Photo Library
Por que um terço dos países mais pobres enfrenta ao mesmo tempo epidemias de obesidade e de desnutrição
Sistemas alimentares estariam por trás do baixo crescimento e do comer em excesso em países de baixa renda, segundo estudo
Por BBC
Um terço dos países mais pobres do mundo lida, ao mesmo tempo, com níveis altos de obesidade e de subnutrição, que deixa pessoas magras demais. A constatação vem de artigo da publicação científica “The Lancet”. O relatório afirma que o problema seria causado pelo acesso global a alimentos ultraprocessados, e por pessoas se exercitarem cada vez menos.
Os autores pedem mudanças nos “sistemas alimentares modernos”, que eles acreditam serem vetores do problema. Os países da África Subsaariana e da Ásia são os mais afetados. A publicação estima que cerca de 2,3 bilhões de crianças e adultos no planeta estejam acima do peso, e que mais de 150 milhões de crianças apresentem crescimento atrofiado.
Muitos países de baixa renda e de renda média encaram os dois problemas ao mesmo tempo, a chamada “dupla carga da desnutrição”. Comunidades e famílias podem ser afetadas pelas duas formas de desnutrição, assim como indivíduos em diferentes fases da vida.
De acordo com a publicação, 45 entre 123 países foram afetados por essa dupla carga nos anos 1990, e 48 entre 126 países nos anos 2010. Também nos anos 2010, 14 países com menor renda do mundo já apresentavam esse “problema duplo” desde os anos 1990.
Sistemas alimentares falhos
Os autores do relatório afirmam que os governos precisam tomar uma atitude, assim como as Nações Unidas e os membros da academia, para solucionar o problema. E o foco apontado por eles é o de mudanças na dieta. O jeito como as pessoas comem, bebem e se deslocam está mudando. O número crescente de supermercados, a ampla disponibilidade de alimentos pouco nutritivos, assim como a diminuição nos níveis de atividade física conduzem ao número maior de pessoas com sobrepeso.
E essas mudanças estão afetando tanto países de baixa e de média renda, quanto os de alta renda. Ainda que o crescimento atrofiado de crianças em muitos países tenha se tornado menos frequente, a alimentação com ultraprocessados logo na infância está ligada ao baixo crescimento.
“Nós estamos presenciando uma nova realidade nutricional”, diz o autor principal do estudo, Francesco Branca, diretor do Departamento de Nutrição para Saúde e Desenvolvimento da Organização Mundial de Saúde (OMS). “Não podemos mais caracterizar os países de baixa renda como subnutridos, ou os de alta renda como preocupados apenas com obesidade.” “Todas as formas de desnutrição têm um denominador comum: os sistemas alimentares que falham em fornecer às pessoas uma dieta saudável, acessível, segura e sustentável”.
Branca diz que isso requer uma mudança nos sistemas alimentares, da produção ao processamento, passando por comércio e distribuição, assim como precificação, marketing e rotulagem, padrões de consumo e de desperdício. “Todas as políticas e investimentos relevantes precisam ser reexaminados”, afirma.
O que seria uma dieta de alta qualidade?
De acordo com o artigo, uma dieta do tipo contém:
- muitas frutas e vegetais, grãos integrais, fibras, nozes e sementes;
- porções moderadas de alimentos de origem animal;
- porções mínimas de carnes processadas;
- porções mínimas de comidas e bebidas que sejam ricas em energia e em açúcar adicionado, gordura saturada, gordura trans e sal
Dietas de alta qualidade reduzem o risco de desnutrição ao encorajar crescimento saudável, desenvolvimento e proteção do corpo contra doenças ao longo da vida.
Foto: Getty Images/BBC