A relação entre álcool, síndrome metabólica e obesidade
Estudo com 27 milhões de adultos mostra que mesmo o consumo moderado de bebida está ligado a um risco maior para essas doenças
Por G1
No começo do mês, a Associação Europeia para o Estudo da Obesidade divulgou um trabalho que mostra que o consumo de acima de sete gramas de álcool por dia está associado ao aumento do risco de síndrome metabólica e obesidade. Para se ter uma ideia mais precisa do que essa medida significa, bebidas como uma taça pequena de vinho (100 ml), uma lata de cerveja (375 ml) ou uma dose de uísque (30 ml) têm dez gramas de álcool puro. No entanto, há variações sobre o que é um drinque padrão entre os países – enquanto no Reino Unido a referência é de oito gramas, nos EUA é de 14 e no Japão chega a 20! A Organização Mundial da Saúde crava sua medida em dez gramas e adverte que ninguém deve passar de dois drinques por dia, o que também é controverso, já que não há um patamar seguro para o consumo que se aplique a todos os indivíduos.
O risco, que vale para homens e mulheres, fica mais claro se pensarmos na quantidade de calorias contidas numa bebida: uma taça de vinho tem cerca de 100 calorias; uma latinha de cerveja, 150; uma caipirinha com vodca e açúcar, 300! O estudo foi realizado pelo médico Hye Jung Shin, de Seul, na Coreia do Sul, com base em dados de 27 milhões de pessoas, acima dos 20 anos, durante dois anos. Independentemente de outros fatores, como idade, falta de atividade física e tabagismo, a análise estabeleceu uma relação direta entre álcool e obesidade e o conjunto de condições que descrevem a síndrome metabólica: glicose, pressão e colesterol altos, além da gordura abdominal que chamamos de “pneu”. O quadro aumenta as chances de doenças coronariana, infartos e AVCs.
Comparados com os abstêmios, os homens que ingeriam entre sete e 14 gramas de álcool, de acordo com o padrão utilizado pelos pesquisadores, tinham 10% a mais de probabilidade de apresentar um quadro de obesidade ou síndrome metabólica. No caso do consumo alcoólico chegar a dois drinques diários, as chances subiam para um patamar de 22% para obesidade e de 25% para síndrome metabólica. Além de duas doses, o risco crescia, respectivamente, 34% e 42%. Entre as mulheres, o perigo aumentava para aquelas que tomavam mais de dois drinques por dia: 22% para obesidade e 18% para síndrome metabólica.
Pesquisa da escola de medicina da NYU (New York University), divulgada em 2019, mostrara que cerca de 10% dos indivíduos acima de 65 anos bebem pesadamente, se expondo a uma série de doenças. Beber sem moderação é ruim em todas as idades, mas as complicações são maiores na velhice. Em tempos de pandemia, quando já está provado que a obesidade tem papel relevante nas complicações por Covid-19, é bom pensar duas vezes antes de levantar o copo.
Foto: https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=11516570
Brasil é um dos países onde a pandemia mais afetou a saúde psicológica de meninas e de jovens mulheres, diz levantamento
Quase 90% das brasileiras entre 15 e 24 anos sentem níveis médios a altos de ansiedade
Por G1
Um estudo global sobre a saúde mental de meninas e mulheres durante a pandemia do novo coronavírus mostrou que quase 90% das brasileiras entre 15 e 24 anos sentem níveis médios a altos de ansiedade.
Realizado pela Ong Plan Internacional, o estudo será divulgado nesta quarta-feira (23) durante a Assembleia da ONU.
“A ansiedade tem a ver com o medo da falta de proteção, medo de alguém da família ficar doente, e do que vem por aí. Além de efeitos colaterais como o acesso à renda. Muitas delas perderam empregos ou tinham empregos informais e foram muito impactadas financeiramente. Isso traz uma ansiedade ainda maior”, explicou à agência RFI Cynthia Betti, diretora executiva da Plan International Brasil.
O estudo ouviu 7 mil garotas de 14 países entre 15 e 24 anos por meio de um questionário online abordando diversos temas para avaliar os efeitos sobre a saúde. No Brasil, o levantamento ouviu 500 meninas e jovens de várias regiões.
Os principais resultados globais da pesquisa mostraram que:
- 88% das entrevistadas disseram ter níveis altos ou médios de ansiedade por causa da pandemia
- 62% das meninas disseram que estavam tendo dificuldades por não poderem ir à escola ou à universidade
- 58% estão sentindo os efeitos negativos de não poder sair de casa normalmente
“Quanto mais vulnerável economicamente e socialmente a classe à qual ela pertence, mais ansiosa ela fica e mais medo tem do futuro”, destacou Betti.
Escola como espaço seguro para meninas
No Brasil, o levantamento mostrou que o impacto psicológico durante a pandemia está relacionado com o distanciamento do universo escolar que, para muitas delas, representa um espaço de proteção.
“No caso do Brasil e da América Latina, não frequentar a escola e não poder sair de casa com frequência foram os impactos negativos mais apontados pelas entrevistadas”, relatou à agência RFI Cynthia Betti, diretora executiva da Plan International Brasil.
“No Brasil, a escola é mais do que o aprendizado, a escola é um espaço seguro, onde a menina pode buscar informação e, às vezes, buscar proteção quando acontece alguma coisa em casa”, explica Betti.
A diretora executiva lembra que a casa é o local das principais ocorrências de violência contra a mulher no Brasil, cenário que se agravou com o isolamento social.
“Infelizmente, sabemos que mais de 70% dos casos de violência contra as meninas e mulheres acontecem dentro da própria casa. Então, a casa não é o lugar mais seguro para muitas delas. Poder ir à escola e frequentar amigos é uma forma delas buscarem ajuda, quando necessário”, acrescenta.
Exclusão digital
O estudo também relacionou o aumento da ansiedade com o aumento da exclusão digital durante a pandemia.
“Nas classes D e E, somente 59% têm acesso à internet. Para famílias com apenas 1 salário mínimo, 78% só acessam a internet por meio de um celular. E como uma criança, uma jovem pode estudar por meio do celular? Quando ela tem acesso à internet”, diz Betti.
“Além da saúde, o rompimento com os estudos abala a confiança na projeção sobre o futuro. Por isso falamos muito no estudo de vidas interrompidas e impactadas”, afirma.
Neste contexto, a falta de acesso à informação e de métodos contraceptivos agravaram uma situação já bastante difícil.
“Estamos encontrando muitas jovens e adolescentes grávidas, com gravidez indesejada. E normalmente elas acabam abandonando os estudos. Com isso, a evasão escolar aumenta. Temos uma preocupação muito forte em olhar para essas meninas e jovens e perceber que devemos fazer algo para que elas retornem à vida delas, à escola, e que possam continuar os estudos”, diz a diretora executiva da ONG.
“Temos que perceber que serviços de acessos a métodos contraceptivos e direitos sexuais e reprodutivos têm que ser garantidos independentemente do momento da pandemia. O acesso à saúde básica tem que ser garantido a essas meninas. Temos, como governo, Estado, ver como garantir esses apoios”, afirmou Betti.
Mulheres são as mais afetadas, segundo ONU
O relatório “Mulheres no centro da luta contra a crise Covid-19”, divulgado no final de março pela ONU Mulheres, entidade da Organização das Nações Unidas para igualdade de gênero e empoderamento, mostrou que a pandemia afeta mais as mulheres porque:
- 70% dos trabalhadores de saúde em todo o mundo são mulheres, fato que as expõe a um maior risco de infecção pelo novo coronavírus;
- com o isolamento, os índices de violência doméstica e feminicídio têm aumentado no mundo – como as mulheres estão confinadas com seus agressores e distantes do ciclo social, riscos para elas são cada vez mais elevados;
- entre os idosos, há mais mulheres vivendo sozinhas e com baixos rendimentos;
- a ONU Mulheres estima que, dentre a população feminina mundial, as trabalhadoras do setor de saúde, as domésticas e as trabalhadoras do setor informal serão as mais afetadas pelos efeitos da pandemia de coronavírus.
- mulheres também são maioria em vários setores de empregos informais, como trabalhadores domésticos e cuidadores de idosos;
com a pandemia, mulheres têm de se dividir entre diversas atividades, como as seguintes: emprego fora de casa, trabalhos domésticos, assistência à infância (cuidado com filhos), educação escolar em casa (já que as escolas estão fechadas) e assistência a idosos da família; - antes da Covid-19, mulheres desempenhavam três vezes mais trabalhos não remunerados do que os homens; com o isolamento, a estimativa é que este número triplique;
- mulheres não estão na esfera de poder de decisão na pandemia: elas são apenas 25% dos parlamentares em todo o mundo e menos de 10% dos chefes de Estado ou de Governo;
- e, no setor têxtil, um dos mais afetados da indústria em todo mundo e paralisado por causa do trabalho temporário de lojas, as mulheres são três quartos dos trabalhadores no mundo.
Foto: Nelson Almeida/AFP