5 de fevereiro de 2021 - Anadem

Spray nasal desenvolvido contra Covid-19 também combate resfriado comum

O Inna-X apresentou resultados positivos contra vírus respiratórios, incluindo o rinovírus e o Sars-CoV-2. Testes em humanos devem acontecer nas próximas semanas

Por Revista Galileu

Uma nova droga em desenvolvimento contra a Covid-19 tem apresentado resultados efetivos também no combate a inflamações causadas por rinovírus, principal responsável pelos resfriados comuns. O Inna-X é um spray nasal que tem como objetivo estimular a resposta imunológica nas vias aéreas, que são a primeira região do corpo a atuar contra a invasão de vírus respiratórios.

Em estudo publicado no European Respiratory Journal, pesquisadores do Instituto de Pesquisa Médica Hunter (HMRI, na sigla em inglês) e da Universidade de Newcastle, na Austrália, mostraram que o Inna-X apresentou eficácia contra infecções na fase pré-clínica, além de boas respostas no impedimento da replicação e disseminação do Sars-CoV-2, causador da Covid-19. “Assim como observamos em relação a outros vírus respiratórios, incluindo o Sars-CoV-2, o tratamento com Inna-X anterior à infecção reduziu o nível de vírus no trato respiratório”, conta o pesquisador e chefe do estudo, Nathan Bartlett, em comunicado.

O uso do medicamento também pode ajudar pessoas que sofrem com doenças respiratórias crônicas, como asma. Elas costumam ter uma resposta imune menos efetiva contra vírus respiratórios. “Examinamos os efeitos do Inna-X em células das vias aéreas de pacientes asmáticos, que sabemos que tem uma resposta imunológica antiviral menos eficaz, e descobrimos que o tratamento foi efetivo, o que possibilita o uso do Inna-X em populações de risco”, diz Bartlett.

Desenvolvido pela empresa de biotecnologia Ena Respiratory, o Inna-X está previsto para entrar na fase de testes clínicos em humanos nas próximas semanas, na Austrália. Se for aprovado, o spray, em conjunto com abordagens de vacinas, deve contribuir para reduzir a gravidade dessas doenças.

Foto: Hunter Medical Research Institute

Sars-CoV-2 deleta partes de sua sequência genética para fugir de anticorpos

Mutações ocorrem sempre nos mesmos pontos do material genético do vírus, onde mudanças não comprometem sua capacidade de invadir células e fazer cópias de si mesmo

Por Revista Galileu

De acordo com um novo estudo realizado por pesquisadores da Escola de Medicina da Universidade de Pittsburgh, nos Estados Unidos, o Sars-CoV-2, vírus causador da Covid-19, é capaz de selecionar e deletar pequenas partes de sua sequência genética para “fugir” de anticorpos.

Uma vez que essas mutações acontecem, os anticorpos não conseguem se apoderar do vírus, concluem os pesquisadores em artigo publicado nesta quarta-feira (3), na Science. Como a molécula que geralmente detecta erros na replicação do Sars-CoV-2 não consegue corrigir essas novas transformações, chamadas de deleções, as mutações ficam cimentadas no material genético, formando novas variantes do vírus.

Laboratório vivo
Desde que o artigo foi submetido pela primeira vez como uma pré-impressão em novembro, os pesquisadores observaram esse padrão se desenrolar enquanto diversas variantes se espalhavam pelo mundo. Aquelas identificadas no Reino Unido e na África do Sul têm deleções na sequência genética.

O grupo de pesquisadores, liderado por Paul Duprex, diretor do Centro de Pesquisa para Vacina da Universidade de Pittsburgh, encontrou pela primeira vez essas deleções resistentes à neutralização de anticorpos em uma amostra de um paciente imunocomprometido, que foi infectado com o Sars-CoV-2 por 74 dias antes de morrer de Covid-19.

Como explicam os estudiosos, em nota, esse período é grande o bastante para o vírus e o sistema imunológico brincarem de “gato e rato”, dando várias oportunidades para que mutações sejam geradas no genoma viral, como está ocorrendo em todo o mundo.

Duprex contou com a ajuda do autor principal Kevin McCarthy, professor assistente de biologia molecular e genética molecular, para ver se as deleções presentes nas sequências virais desse paciente podiam fazer parte de uma tendência maior.

McCarthy e seus colegas examinaram o banco de dados de sequências de Sars-CoV-2 coletadas em todo o mundo desde que o vírus se espalhou pela primeira vez em humanos.

Quando o projeto começou, no inverno de 2020, acreditava-se que o Sars-CoV-2 era relativamente estável, mas quanto mais se examinava o banco de dados, mais deleções eram vistas e novos padrões do vírus emergiam. As deleções continuaram acontecendo nos mesmos pontos da sequência genética, onde o vírus pode tolerar uma mudança de forma sem perder sua capacidade de invadir células e fazer cópias de si mesmo.

Embora o artigo mostre que provavelmente o Sars-CoV-2 escapará das vacinas existentes, é impossível saber exatamente quando isso pode acontecer. “Até que ponto essas exclusões corroem a proteção [de imunizantes] ainda está para ser determinado”, disse McCarthy. “Em algum momento, teremos que começar a reformular as vacinas, ou pelo menos pensar nessa ideia.”

Foto: Kevin McCarthy e Paul Duprex

Transplantes de órgãos caíram 20% no Brasil durante a pandemia

Associação pede que transplantados sejam incluídos no grupo prioritário da vacinação. Procedimentos mais afetados foram os de córnea, pulmão, coração, rim e pâncreas

Por Revista Galileu

A pandemia fez com que os transplantes caíssem 20% no Brasil, revela a Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO). Segundo levantamento da entidade, de janeiro a dezembro passados, foram realizados 7.362 procedimentos. Em 2019, haviam sido 9.189 transplantes realizados ao longo do ano.

De janeiro a março de 2020, antes da chegada da Covid-19 ao Brasil, houve um crescimento de 10% no número de procedimentos, de acordo com a ABTO. Porém, desde então, a pandemia levou a uma redução significativa dos transplantes, com uma leve retomada no último trimestre. A pior queda registrada foi no período de julho, agosto e setembro, com 22%. Os transplantes mais afetados foram os de córnea e pulmão, seguidos por coração, rim, pâncreas e fígado.

Valter Duro Garcia, coordenador do programa de transplantes da Santa Casa de Porto Alegre, apontou que a redução no número de procedimentos foi muito maior que a de doadores, que caiu 11%. Uma das razões indicadas pelo médico são as suspensões de voos, que dificultaram o transporte de órgãos entre diferentes estados.

Mesmo diante desse cenário, alguns estados conseguiram manter bons resultados. Paraná e Santa Catarina tiveram uma média de 40 doadores por milhão de habitantes, 20 a mais do que as projeções almejadas pela ABTO para 2020. Ceará e São Paulo — este último, o estado mais afetado pela Covid-19 em números absolutos — também se mantiveram acima do esperado, com 21,1 e 23,8 doadores por milhão de habitantes, respectivamente.

Huygens Garcia, presidente da Associação, considera que o Brasil saiu vitorioso na questão dos transplantes, uma vez que foi capaz de manter as atividades e até mesmo registrar aumentos, como é o caso de São Paulo e Rio de Janeiro, que tiveram um crescimento nos transplantes de fígado.

Outro ponto abordado pela entidade foi a questão da vacinação. Huygens afirmou que a ABTO está preparando um documento para solicitar ao Ministério da Saúde e às Secretarias Estaduais que as pessoas acima de 18 anos que receberam transplantes sejam incluídas no grupo prioritário, junto aos idosos com mais de 75 anos.

A taxa de letalidade entre a população transplantada é de 24,5%, nível comparável ao de idosos acima de 80 anos. “É uma população fragilizada e pequena, tem em torno de 70 mil pessoas. É muito fácil de vacinar, não vai prejudicar o sistema”, afirma Valter.

Para 2021, os profissionais da ABTO se mostram otimistas, uma vez que há um maior conhecimento sobre a Covid-19. “Mesmo aumentando o número de casos, nós temos um pouco mais de experiência com essa situação”, diz Huygens. Ele lembra que “no começo, quando tinha um doador que estava em uma unidade com um paciente de Covid, a gente já descartava. Agora, nós fazemos o RT-PCR, então não estamos mais descartando doadores”.

Gustavo Ferreira, vice-presidente da ABTO e coordenador do programa de transplantes da Santa Casa de Juiz de Fora, finaliza: “Apesar do tamanho do problema, a gente conseguiu se comportar bem, se organizar como um centro de transplantadores e procuradores de órgãos, e manter esses 7 mil pacientes com a oportunidade de transplantar”.

(Fonte: Agência Einstein)

Foto: National Cancer Institute/Unsplash

Câncer de mama ultrapassa o de pulmão como o mais comum do mundo

Estudo sugere que mudanças no estilo de vida das mulheres têm contribuído para o aumento de fatores de risco associados a tumores malignos nos seios

Por Revista Galileu

Uma das principais causas de morte no mundo é o câncer: uma a cada cinco pessoas desenvolve a doença ao longo da vida. Tumores malignos matam um a cada oito homens e uma a cada 11 mulheres, segundo o relatório Global Cancer Statistics 2020, da Associação Americana do Câncer (ACS) e da Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC). O documento, que reúne dados de 185 países, indica também que, pela primeira vez, o câncer de mama é o mais comum no planeta.

De acordo com a pesquisa, publicada nesata quinta-feira (4) no jornal científico CA: A Cancer Journal for Clinicians, estima-se qie 19,3 milhões de novos casos de câncer foram diagnosticados em 2020. Aproximadamente 2,3 milhões (11,7%) deles são de mama. O segundo tipo mais comum de câncer é o de pulmão (11,4%), seguido do colorretal (10%), de próstata (7,3%) e de estômago (5,6%).

O levantamento mostra que os casos de câncer de mama têm aumentado em países onde esse tipo de tumor tradicionalmente tem um histórico de baixa incidência. De acordo com os pesquisadores, grandes mudanças no estilo de vida têm contribuído para o aumento na prevalência de fatores de risco relacionados a esses tumores, como excesso de peso corporal, sedentarismo, consumo de álcool, adiamento da gravidez e diminuição de partos e de amamentação.

Apesar do câncer de mama ser o mais comum do mundo, o de pulmão ainda é o que causa mais mortes. Em 2020, houve quase 10 milhões de óbitos por câncer: 1,8 milhão (18%) em decorrência de tumores pulmonares, 9,4% devido a câncer colorretal, 8,3% no fígado, 7,7% de estômago e 6,9% de mama.

Os dados do relatório Global Cancer Statistics 2020 foram coletados antes de 2020, portanto não refletem o impacto da pandemia do novo coronavírus no diagnóstico e nas mortes por câncer. Ainda não se sabe a dimensão das consequências da Covid-19, mas o estudo observa que atrasos no diagnóstico e no tratamento podem resultar em um declínio de casos seguido por um aumento na detecção de câncer em estágios avançados, além de uma possível elevação nos óbitos causados por tumores malignos.

A projeção é de que haja um crescimento de 47% no número de casos de câncer em 2040 em comparação a 2020, com cerca de 28,4 milhões de novos diagnósticos no mundo. O relatório alerta também que, sem medidas para conter esse avanço, os sistemas de saúde correm risco de ficar sobrecarregados.

Foto: Ed Uthman/ flickr/Creative commons

Gene que aumenta risco de Alzheimer também pode agravar Covid-19

Em experimentos, cientistas dos EUA observaram que a gravidade da infecção pelo novo coronavírus pode estar relacionada ao ApoE4, gene que também aumenta a predisposição à demência

Revista Galileu

Uma equipe liderada por pesquisadores do centro de pesquisa City of Hope, nos Estados Unidos, descobriu que o mesmo gene que aumenta o risco de Alzheimer, o ApoE4, pode elevar a suscetibilidade e a gravidade da infecção causada pelo novo coronavírus.

“Nosso estudo fornece uma ligação causal entre o fator de risco do mal de Alzheimer e a Covid-19 e explica por que alguns (por exemplo, portadores de ApoE4), mas nem todos os pacientes com coronavírus apresentam manifestações neurológicas”, disse, em nota, Yanhong Shi, diretora da Divisão de Biologia de Células-Tronco da City of Hope e coautora do estudo. “Compreender como os fatores de risco para doenças neurodegenerativas afetam a a gravidade da Covid-19 nos ajudará a lidar melhor com a doença e seus potenciais efeitos de longo prazo em diferentes populações de pacientes.”

No começo do estudo, a equipe se interessou em entender o motivo pelo qual algumas pessoas perdem o paladar e o olfato quando contaminadas pelo Sars-CoV-2. A equipe criou células cerebrais em laboratório usando células-tronco pluripotentes, que podem se transformar em qualquer outro tipo de célula. Os neurônios e astrócitos (células abundantes no sistema nervoso) recém-criados foram infectados com o novo coronavírus, e os cientistas viram que ambos eram suscetíveis à infecção.

Em seguida, a equipe usou essas células tronco para criar organoides cerebrais, que são modelos de tecido 3D que imitam certas características do cérebro humano. Foi criado um modelo que continha astrócitos e outro sem essa células. Eles infectaram os dois tipos de organoides cerebrais com o vírus e descobriram que aqueles com astrócitos aumentavam a infecção pelo Sars-CoV-2.

Então, usando técnicas de edição genética, a equipe modificou algumas das células ApoE4 criadas por células-tronco para que contivessem ApoE3, um tipo de gene considerado neutro, para geração de neurônios e astrócitos. Os resultados, publicados na revista Cell Stem Cell, mostraram uma maior suscetibilidade da ApoE4 à infecção por Sars-CoV-2 em comparação com os neurônios ApoE3 neutros.

Na última parte do estudo, os pesquisadores testaram se a droga antiviral remdesivir inibe a infecção pelo vírus em neurônios e astrócitos. O remédio foi capaz de reduzir com sucesso o nível viral nos astrócitos e prevenir a morte celular. Ele também resgatou neurônios da neurodegeneração.

O próximo passo da equipe é continuar estudando os efeitos do vírus para entender melhor o papel da ApoE4 nas manifestações neurológicas da Covid-19. Muitas pessoas infectadas com o novo coronavírus se recuperam, mas efeitos no sistema nervoso ainda podem ser observados por um tempo.

Foto: Robina Weermeijer / Unsplash

Exame permite sequenciar câncer de próstata e tratamento personalizado

Procedimento busca alterações em genes relacionados ao desenvolvimento da doença para identificar quais são os melhores tratamentos para cada paciente

Por Revista Galileu

Tendência mundial na área da saúde, a medicina personalizada avança mais um passo no Brasil com o lançamento de um novo método para avaliar qual é a melhor forma de tratar casos de câncer de próstata, atendendo as necessidades individuais de cada paciente.

Chamado de Painel Somático da Próstata, o recurso é um exame desenvolvido e validado pela área de Pesquisa & Desenvolvimento do Grupo Fleury, fruto do ensaio clínico PROfound, cujos resultados foram divulgados em maio de 2020 no periódico científico The New England Journal of Medicine.

“Antes, na oncologia, havia um tratamento só, como a radioterapia, para todo mundo. Mas com o avanço da tecnologia e do conhecimento estão aparecendo cada vez mais terapias-alvo e drogas específicas para determinadas alterações genéticas”, explica Aloísio Souza F. da Silva, assessor médico em patologia do Fleury Medicina e Saúde.

Para descobrir qual é a melhor forma de combater o câncer de próstata caso a caso, os médicos agora podem contar com esse novo exame, que consiste na realização de uma biópsia do tecido tumoral e no sequenciamento e análise do DNA dessa amostra. Com técnicas de biologia molecular e bioinformática, 22 genes relacionados ao desenvolvimento desse tipo de câncer são avaliados durante o sequenciamento, ajudando a identificar quais são as mutações e variantes que estão provocando a doença.

O teste avalia tanto as alterações pontuais (como a troca de nucleotídeo único e de pequenas inserções e deleções), como também alterações amplas (duplicações e deleções do gene). “O câncer é heterogêneo e, entre os cânceres de próstata, várias alterações genéticas podem ser sequenciadas e descobertas para que sejam desenvolvidas drogas-alvo direcionadas”, afirma Aloísio.

Tendo essa informação em mãos, os especialistas podem direcionar o tratamento mais adequado para cada paciente. A realização desse procedimento pode melhorar a resposta ao tratamento, diminuir efeitos colaterais das terapias e aumentar a sobrevida dos pacientes.

Câncer de próstata no Brasil

Segundo o Instituto Nacional de Câncer (Inca), o câncer de próstata é o segundo tipo de tumor mais comum no país, somando cerca de 65 mil novos casos estimados por ano, atrás apenas do câncer de pele não melanoma.

O diagnóstico pode ser feito pelo exame de toque retal, em que o médico apalpa a glândula em busca de possíveis nódulos e tecidos endurecidos, ou pela dosagem de PSA, a quantidade de um antígeno prostático que pode ser avaliada em exame de sangue. Apesar da resistência de muitos pacientes, os exames são indolores, rápidos e essenciais para a prevenção e diagnóstico precoce de tumores.

Em geral, a evolução do câncer de próstata é “silenciosa” e “lenta”, como descreve o Inca, podendo levar cerca de 15 anos para que o tumor atinja 1 cm³. “Hoje temos muitos casos precoces e indolentes, em que o câncer se desenvolve lentamente e sem se espalhar para outros tecidos”, afirma Silva.

Na maioria dos casos, os sinais da doença podem se assemelhar aos sintomas de quando a glândula está crescendo benignamente: há dificuldade de urinar ou necessidade de urinar várias vezes ao dia ou à noite. Quando o câncer avança, no entanto, pacientes podem sentir dor óssea e ter infecções generalizadas e insuficiência renal.

O risco de desenvolver a doença é significativamente maior após os 50 anos; três quartos dos casos em todo o mundo ocorrem a partir dos 65 anos. Histórico familiar, excesso de gordura corporal e exposição a certos produtos químicos — como aminas aromáticas, arsênio, petróleo e hidrocarbonetos policíclicos aromáticos (HPA) — também podem aumentar o risco de desenvolver câncer de próstata.

Foto: Wikimedia Commons