Pesquisa aponta risco alto de covid-19 prolongada em crianças

Os cientistas entrevistaram os pais de mais de 500 crianças internadas em um hospital de Moscou, entre abril e agosto do ano passado, e retomaram o contato de sete a nove meses depois da alta hospitalar

Por Correio Braziliense

Um estudo divulgado na plataforma de pré-publicação científica MedRiv com 518 crianças indica que aquelas infectadas pelo Sars-CoV2 que precisam ser internadas correm risco de desenvolver fadiga crônica e outros sintomas de covid prolongada. A pesquisa, realizada em Moscou, com a participação de cientistas de outros países, se baseia em dados do Escritório de Estatísticas Nacionais da Rússia e acompanhou os pacientes meses depois de receberem alta.

Os pesquisadores entrevistaram os pais de mais de 500 crianças internadas em um hospital de Moscou, entre abril e agosto do ano passado, e retomaram o contato de sete a nove meses depois da alta hospitalar. Eles descobriram que 24% dos pacientes recuperados tinham sintomas contínuos mais de cinco meses depois de voltar para casa. Os principais foram fadiga (10%), distúrbios do sono (7%) e problemas sensoriais (6%). De acordo com o trabalho, as crianças mais velhas, aparentemente, estão em risco maior do que as mais novas. Além disso, aquelas com histórico de alergias parecem mais propensas à covid prolongada.

Em entrevista ao The Guardian, o inglês Daniel Munblit, especialista em pediatria e alergia da Universidade Sechenov, em Moscou, disse que, embora as descobertas sejam preliminares, os médicos devem considerar seriamente a perspectiva de covid prolongada em crianças. “Isso mostra que há um problema. A fadiga é o problema mais comum. Não falamos de fadiga por um ou dois dias, estamos falando de fadiga bastante persistente, e a causa disso precisa ser determinada.”

De acordo com o estudo, 16% das crianças apresentaram fadiga logo após a alta hospitalar, número que caiu para 12% em poucos meses. Mas, a partir de então, diminuiu muito mais lentamente, com 11% dos pacientes ainda com o sintoma sete meses depois. Mais de 8% perderam o olfato ao sair do hospital e, embora isso também tenha melhorado com o tempo, quase 6% ainda relataram problemas sete meses depois.

Foto: Daniel Mihailescu/AFP – 18/7/20

Feluma desenvolve oxímetro mais preciso para pacientes com pele escura

Pesquisadores estão desenvolvendo um novo aparelho, que levará em consideração cada tipo de pele para aferir corretamente os níveis de oxigenação

Por Estado de Minas

Pesquisadores da Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais (Feluma) estão em busca de uma resposta para otimizar a forma como pacientes com pele escura têm a sua saturação de oxigênio aferida. Os especialistas estão desenvolvendo um novo oxímetro, que levará em consideração cada tipo de pele para aferir corretamente os níveis de oxigenação de pacientes com pele escura.

Isso porque, conforme o coordenador do estudo e professor da Faculdade de Ciências Médicas, Hércules Pereira Neves, os oxímetros tradicionais, usados em hospitais, não levam em consideração a cor de pele e, portanto, impõem dificuldades para aferir a saturação corretamente.

“Ele usa uma luz vermelha e infravermelha para atravessar a pele e medir os níveis. Porém, a precisão é menor em pacientes com pele escura. E essa dificuldade pode ocorrer, inclusive, em pessoas com a pele bronzeada, por exemplo”, explica.

“Essa imprecisão é de cerca de 4% a mais do que os valores reais. Ou seja, pode ser que uma pessoa precise de atendimento especializado e cuidados específicos, mas, segundo a medição, os níveis podem ser apresentados como ‘normais’. Arrisca-se, então, a possibilidade de que quadros de hipóxia – quantidade insuficiente de oxigênio transportado aos tecidos do corpo – passem desapercebidos e sem intervenção necessária”, explica.

Ou seja, os pacientes podem achar que os órgãos estão bem oxigenados, quando na verdade não estão.

Para além da pandemia de COVID-19, em que as pessoas passaram a ter uma consciência maior sobre o uso do oxímetro, inclusive com o aferimento em casa para medir níveis de saturação, Hércules Pereira Neves destaca que esse é um problema que perdura por mais de 10 anos e que sempre esteve em voga.

O novo oxímetro, segundo o pesquisador, ainda está em fase de construção e deve ser finalizado até o fim deste mês. Posteriormente, serão feitos estudos clínicos para atestar a eficácia do novo equipamento.

“Esperamos, então, que possamos ter concluído essa testagem até o fim deste semestre. Pretendemos compará-lo, para maior eficácia, com o método de aferição que chamamos de gasometria de sangue arterial – procedimento doloroso, invasivo e potencialmente arriscado –, uma alternativa atual para as pessoas com pele escura, já que com o oxímetro tradicional não poderemos ter o mesmo parâmetro.”

O novo oxímetro, produzido pela Feluma, é uma alternativa de baixo custo e mais acessível a todos, haja vista o seu método de aferição de pulso, assim como o oxímetro tradicional. Dessa forma, vidas podem ser salvas, principalmente a de pessoas de pele escura, considerando a imprecisão do método atual, com mais eficácia e sem técnicas invasivas.

Foto: Pixabay

Benefícios da vacina AstraZeneca superam riscos, sugere modelo estatístico

Estudo europeu mostra que suspensão do imunizante na França e na Itália por três dias – sem substituí-lo por outro – causou mais mortes pelo novo coronavírus

Por Revista Galileu

Quando um pequeno número de casos de trombose venosa profunda (TVP) foi notificado entre europeus que receberam a vacina da AstraZeneca nos últimos meses, alguns países decidiram suspender o uso do imunizante contra a Covid-19. Mas não escaparam de um questionamento: será que os riscos associados ao produto são mesmo capazes de superar seus benefícios? De acordo com um novo modelo estatístico europeu, não – e a sua interrupção pode estar inclusive prejudicando o controle da pandemia.

No estudo, publicado na última terça-feira (27) no periódico científico Chaos, cientistas fizeram uso de um modelo epidemiológico clássico chamado SEIR. A partir dele, foi possível investigar se a pausa na aplicação da vacina, desenvolvida junto à Universidade de Oxford, mesmo por um curto período, poderia levar a mortes adicionais pelo novo coronavírus em dois países que optaram por interromper seu uso, França e Itália.

Já que a relação entre a vacina da AstraZeneca e casos de coágulo sanguíneos ainda é incerta, os pesquisadores compararam a estimativa ao pior cenário de efeitos adversos do produto. Assim, o modelo se baseou na hipótese de que todas pessoas que recebessem o imunizante seriam acometidas pela TVP, a fim de fornecer um “limite superior robusto” para a compreensão do panorama.

A análise concluiu que os benefícios da aplicação do imunizante superam “em muito” os riscos associados, especialmente onde a taxa de reprodução do vírus é maior – no caso, na Itália. “Nosso trabalho mostra que a suspensão da vacinação da AstraZeneca na França e na Itália por três dias, sem substituí-la por outra vacina, levou a cerca de 260 e 130 mortes adicionais, respectivamente”, relata Davide Faranda, cientista do Laboratório de Matemática de Londres (LML), no Reino Unido, em comunicado.

De acordo com o pesquisador, a diferença entre o número de óbitos estimado para os dois países se deve às particularidades epidemiológicas de cada região, como o número de reprodução R – que determina o potencial de propagação do vírus dentro de determinadas condições. À medida que se passavam os dias desde a proibição da vacina, decretada em 15 de março de 2021 na França e na Itália, o cenário de mortes por Covid-19 piorou.

O modelo estatístico também avalia que, mesmo na hipótese de retomada da administração da AstraZeneca, o excesso de mortes ainda ficaria na mesma ordem de magnitude que aqueles observados anteriormente por um período de dias igual ao de interrupção da vacina. Segundo o estudo, um “mecanismo de cascata” estaria por trás desse resultado, já que os cidadãos que não foram vacinados podem contaminar outros indivíduos antes do retorno. Para contrabalançear o cenário, os pesquisadores sugerem que será necessário “dobrar” o número de vacinas aplicadas diariamente nesses países.

Outra questão também exigiria “esforços de vacinação difíceis de definir em tempo oportuno”: a retomada da confiança da população na vacina da AstraZeneca após sua interrupção. “Nesse sentido, nossas estimativas tendem a ser conservadoras e podem subestimar o excesso de óbitos decorrente da descrença nas políticas de vacinação observadas nos maiores países europeus”, avalia o estudo.

Os pesquisadores esperam que os resultados sejam o ponto de partida para modelos estatísticos mais sofisiticados e novas coletas de dados, a fim de auxiliar na tomada de decisões e estratégias de combate à pandemia adotadas mundo afora, especialmente “em condições de grandes incertezas a nível de saúde e de resposta social.”

Foto: Ali Raza/Pixabay

Tomógrafo criado no Brasil reduz em 80% necessidade de ECMO em casos de Covid-19

Aparelho indicado para pessoas com insuficiência respiratória grave monitora os pulmões em tempo real

Por CNN Brasil

Um tomógrafo que monitora em tempo real o pulmão de pacientes com problemas respiratórios graves está fazendo a diferença no tratamento da Covid-19. Desenvolvido na Universidade de São Paulo (USP), o aparelho consegue otimizar a ventilação mecânica e evitar o agravamento do estado de saúde dos pacientes.

Um estudo que avaliou o uso do equipamento brasileiro no Massachusetts General Hospital, em Boston, nos EUA, mostrou que ele ajudou a diminuir em 80% a necessidade de submeter pacientes com insuficiência respiratória a terapia de oxigenação por membrana extracorpórea (ECMO), a mesma utilizada pelo ator Paulo Gustavo.

O trabalho também indicou que o fato de o aparelho monitorar o que ocorria dentro dos pulmões em tempo real diminuiu em 50% a mortalidade de pacientes obesos com insuficiência respiratória grave. Os resultados do estudo foram descritos em um artigo publicado na revista Respiratory Care.

O Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da FMUSP (Incor), de São Paulo, também está levantando dados sobre o impacto uso do tomógrafo no tratamento de seus pacientes com Covid-19 internados na UTI . Os resultados devem ser divulgados até julho, segundo o pneumologista Carlos Carvalho, um dos autores da pesquisa.

O médico do Incor explica que o uso do equipamento permite observar a entrada e a saída de ar dos pulmões de pacientes intubados, ou seja, como o ar emitido artificialmente está sendo distribuído nos pulmões já lesionados pelo coronavírus. Isso possibilita à equipe médica ajustar a ventilação mecânica, se necessário – um ajuste que pode ser a diferença entre a vida e a morte do paciente.

“Sem a visão de dentro do pulmão, pode parecer que está tudo certo lá dentro, mas pode estar ruim. Com o tomógrafo eu consigo ver a situação real, e com isso, se necessário, fazer manobras e ajustar melhor a ventilação mecânica”, afirma Carvalho.

O pneumologista afirma que um ajuste mais otimizado da ventilação mecânica provavelmente pudesse ter feito a diferença no alto número de mortes entre pacientes intubados no Brasil. “O desequilíbrio na oferta de oxigênio pode ainda causar lesões cerebrais, cardíacas e nos rins, que ajudam a piorar o quadro do paciente e o risco de morte”, explica Carvalho.

Um levantamento realizado no ano passado pela Fiocruz mostrou que 80% dos pacientes de Covid intubados no Brasil morreram — a média mundial é de 50%.

Como funciona a tecnologia
O tomógrafo foi desenvolvido por alunos das faculdades de engenharia e de medicina da USP e financiado pela Fapesp. O projeto foi pensado para auxiliar as equipes médicas de UTIs na acurácia dos cuidados com pacientes com insuficiência respiratória grave, que precisam da suplementação de oxigênio, devido à inflamação dos pulmões.

O equipamento faz uso de sinais elétricos de alta frequência e baixa intensidade para fornecer imagens ao vivo da respiração, mostrando o desempenho pulmonar do paciente em tempo real. Os sinais elétricos são transmitidos e recebidos através de eletrodos embutidos em uma cinta posicionada ao redor do tórax do paciente que, passados para a máquina, geram imagens do pulmão.

Ao perpassar por todo o tórax, a corrente elétrica indica a região dos pulmões por onde circula o ar e, com isso, gera 50 imagens por segundo, que permitem aos médicos enxergar a dinâmica de insuflação do pulmão em tempo real, na beira do leito. Um software integrado ao equipamento permite à equipe médica avaliar a melhor estratégia de ventilação protetora para o paciente.

Segundo Rafael Holzhacker, um dos engenheiros do projeto da USP e hoje CEO da Timpel, empresa que desenvolve e comercializa o tomógrafo para hospitais, a comercialização do equipamento ganhou maior escala com a pandemia de Covid-19. Ele afirma que o aparelho já é usado em ao menos cem hospitais no Brasil, nos Estados Unidos e na Europa, entre os quais os hospitais Albert Einstein e o Incor.

Diminuição do uso de ECMO
Não há dados no Brasil que atestem a diminuição da necessidade da ECMO pelo uso da tomografia por impedância elétrica. Mas a importância da monitorização existe, sobretudo por ela evitar os problemas causados pela ventilação mecânica prolongada que podem levar à necessidade da ECMO, segundo Ederlon Rezende, diretor do Serviço de Terapia Intensiva do Hospital do Servidor Público Estadual de São Paulo e membro do conselho consultivo da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (Amib).

A ECMO é utilizada quando a respiração mecânica já não é suficiente para proporcionar uma boa oxigenação ao paciente. O equipamento, conhecido como pulmão artificial, é formado por uma membrana porosa colocada dentro de uma estrutura com uma entrada de oxigênio puro nos pulmões e outra para a saída do gás carbônico produzido pela respiração.

Além de garantir a troca gasosa, o aparelho propicia um repouso ao pulmão bastante comprometido do paciente, para que o tratamento contra a insuficiência respiratória faça efeito e o órgão seja recuperado.

Rezende ressalta que o uso da tomografia e da ECMO podem ser complementares, já que a primeira é uma ferramenta de diagnóstico e a segunda de tratamento. “A ECMO é uma terapia de suporte, não de cura, que serve para manter o paciente vivo enquanto seus pulmões se recuperam”, afirma.

Ele explica que enquanto a ventilação mecânica é indicada para uma população enorme, a ECMO deve ser indicada para um número muito restrito de pacientes, para casos extremamente graves. “Na prática clínica, os dados fornecidos pelo material de ventilação mecânica podem indicar que não seja necessário a ECMO e, assim, se evita o uso de uma tecnologia de alto custo”, diz. Uma diária de ECMO pode custar mais de R$ 30 mil, segundo o intensivista.

Foto: Mister Shadow/Estadão Conteúdo