CENTRAL DE ATENDIMENTO 24H: 0800 61 3333

As novas diretrizes de hipertensão arterial para quem poderá viver 100 anos

Todos nós provavelmente seremos hipertensos um dia.

Por Uol Viva Bem

Até aquele sujeito que chega aos 60 anos se gabando por sempre ter tido uma pressão normal corre um belo risco — em torno de 90% — de vê-la ultrapassar os famosos 14 por 8 antes de apagar 80 velinhas, porque ela acaba subindo com o avançar da idade. Sinto dizer: não tem como fugir dessa escalada.

Portanto, se tivéssemos juízo ficaríamos de olho nisso. Ainda mais sabendo que podemos viver muito bem até uns 100 anos. Isto é, se não deixarmos o sufoco nos vasos sanguíneos atrapalhar.

O recado vale para os mais jovens, claro, que deveriam prestar atenção em sua pressão arterial desde sempre. Mas também deve ser dado aos que já são oficialmente idosos, ou seja, a quem ultrapassou a barreira dos 65 anos, se está em um país desenvolvido, e a quem está acima dos 60 anos, se mora no Brasil ou em outro canto em desenvolvimento do planeta, segundo a definição de terceira idade da OMS (Organização Mundial da Saúde).

A grande novidade, porém, é reconhecer que tratar a hipertensão faz diferença até para os chamados muitos idosos. A maioria dos países classifica como “muito idosa” a pessoa com 80 anos ou mais, uma faixa etária em que muitos se conformavam com a pressão alta, achando ser coisa tão normal quanto, nessa altura do campeonato, ter cabelos brancos.

“A hipertensão nos idosos pode ser comum, mas nunca deveria ser encarada como algo normal”, pontua o médico Roberto Dischinger Miranda, chefe do Serviço de Cardiologia da Disciplina de Geriatria da Escola Paulista de Medicina (Unifesp) e diretor científico do departamento de hipertensão da SBC (Sociedade Brasileira de Cardiologia).

Foi ele que coordenou, aliás, um capítulo exclusivo sobre idosos nas novíssimas diretrizes contra a hipertensão, criadas em conjunto pela SBC, pela SBH (Sociedade Brasileira de Hipertensão) e pela SBN (Sociedade Brasileira de Nefrologia). E existir um capítulo assim é um feito inédito, começa por aí.

“Os idosos conquistaram esse espaço porque hoje a Medicina sabe que, mesmo entre eles, conseguimos prevenir eventos cardiovasculares a partir de um ou de dois anos do início do tratamento da hipertensão”, conta o doutor Miranda.

É claro que não é para ninguém protelar, porque quanto maior o tempo de tratamento, melhor — e não só para afastar males como infarto e AVC, mas para evitar problemas de cognição, já que as demências andam de mãos dadas com a pressão arterial nas alturas. Só que é aquela velha história: por outro lado, nunca é tarde para começar.

Diga como anda e eu direi que tipo de idoso você é
Em sua aula no 41º Congresso Virtual da SOCESP (Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo), Roberto Miranda explicou aos seus colegas que uma das principais mudanças nas diretrizes foi não criar meta de pressão arterial conforme a idade cronológica e, sim, conforme a capacidade funcional de cada paciente.

O cardiologista, depois, me deu o exemplo da velocidade de marcha. “Ela parece ser um detalhe tão simples, quase bobo, mas reflete uma condição mais complexa do que aparenta. E, portanto, só de ver o modo como o paciente anda, sem pensar em cognição nem mais nada, o médico já teria uma noção do tipo de idoso que está em seu consultório”, garante.

Um trabalho americano, consagrado porque acompanhou muitos idosos por décadas, mostrou o seguinte: se você observar a velocidade com que caminha um indivíduo de seus 80 anos, poderá ter uma ideia de quantos anos de vida ele terá pela frente.

“Os homens que andaram pior, arrastando os pés, tinham uma sobrevida adicional média de quatro anos. Mas essa sobrevida era de até 14 para aqueles que andavam bem”, conta o cardiologista.

Hoje, ao nascer, a expectativa de vida de um brasileiro é de 76,6 anos. Um erro frequente é olhar para esse número e pensar que quem já viveu mais do que isso está “no lucro”, como dizem por aí. “Ora, essa média sempre leva em conta as mortes precoces, por violência, acidentes e doenças infecciosas”, ensina o doutor Miranda.

Mas quem ultrapassa essa idade, vencendo o incrível desafio de sobreviver mais do que isso no Brasil, começa a ter quase a mesma expectativa de vida de pessoas de outros países. Depois de chegar aos 80 então…Onde quero chegar: nessa altura, biologicamente todo mundo é bem parecido e apresenta uma expectativa de vida semelhante ao receber seu título de muito idoso. “Seja em São Paulo ou em Londres”, brinca o doutor.

Se a pessoa está bem — por exemplo, andando em passadas firme e ligeiras —, ela terá uns dez anos de vida adiante, por baixo. Até um pouco mais, no caso das mulheres. E, se completar 90, esse contrato com a expectativa vida será renovado, modo de dizer. Desde que, óbvio, a saúde continue bem.

Isso é importante para você entender por que os cardiologistas não estão dando mais moleza aos idosos. Muito menos se, observando uma série de parâmetros — e o da marcha é só um deles —, notam que a pessoa é, como se diz no jargão da Medicina, hígida, vendendo saúde.

Os idosos hígidos, agora, são considerados hipertensos se a pressão sistólica — aquela medida mais alta, que vem na frente — é igual ou maior do que 140. Para eles, a meta deve ser baixá-la para que fique entre 130 e 139.

No entanto, só se considera o tratamento anti-hipertensivo para o idoso frágil, menos ativo e com comorbidades, quando sua pressão sistólica é igual ou maior do que 160. E, no caso dele, o objetivo será estabilizá-la entre 140 e 149.

Outro antigo mito sobre a pressão dos idosos
Não é raro a gente encontrar hipertensos idosos com uma pressão de 181 por 82, por exemplo — ou 18 por 8, para simplificar. Acontece que a pressão diastólica, aquela do momento em que o coração relaxa e cuja medida é representada pelo segundo número, costuma aumentar só até os 50, 60 anos, no máximo. A partir dessa idade, ela começa a cair, ficando cada vez menor. Enquanto a pressão sistólica, aquela de quando o coração se contrai, ao contrário, tende a subir sem parar.

O importante, aqui, é evitar confusão. Muita gente se ilude que está tudo bem, se a segunda medida está baixinha. Aliás, ainda acredita que esse valor seria mais importante do que o da pressão diastólica. “Até porque durante muito tempo se achou isso mesmo e foi o que quem está idoso hoje sempre ouviu falar”, diz o doutor Miranda. Saiba: não é verdade. Ambas importam.

A pressão diastólica bem menor só indica um enrijecimento dos vasos sanguíneos, que é um motivo para se cuidar. “Até com um aparelho comum, que não mede a rigidez dos vasos como os equipamentos eletrônicos, podemos deduzir que há rigidez só por essa diferença grande entre as duas medidas”, ensina o doutor Miranda.

A precisão faz toda a diferença
O diagnóstico de uma doença deve ser preciso para qualquer um. No entanto, o idoso é bem mais sensível a erros. Por isso, a diretriz de hipertensão atual recomenda o uso, se possível, de equipamentos eletrônicos para avaliar a pressão.

Ela também reforça a necessidade de múltiplas medidas, especialmente fora do consultório. “Há inclusive aqueles que apresentam pressão normal quando se sentem seguros no médico. Mas, em casa, ela sobe”, exemplifica o doutor.

O cardiologista pode pedir o MAPA, quando o aparelho fica no braço do paciente por 24 horas, disparando sozinho. Ou pode fazer a MRPA (monitorização residencial da pressão arterial). Aí, é quando o especialista mede a pressão do paciente antes de ele sair do consultório e, depois, empresta o mesmo equipamento, pedindo que ele próprio repita a medição em casa, em horários determinados.

“No idoso, isso ganha enorme importância pela questão da tolerabilidade. Se eu tratar a hipertensão sem ser necessário ou, em outro extremo, se eu deixar de tratá-la quando isso seria o certo, o idoso vai terá muito mais complicações do que um jovem adulto”, avisa Roberto Miranda. “Se eu baixar um pouco além da conta a pressão de uma pessoa idosa, ela poderá ter até uma síncope e cair, por exemplo.”

Esse risco, porém, não deve impedir ninguém de cuidar da hipertensão. O que deve existir é uma reavaliação periódica mais estreita, inclusive para se ajustar um detalhe ou outro. “No idoso frágil, às vezes diminuímos a intensidade do tratamento”, conta Miranda. Existem, ainda, aqueles que deixam de se alimentar direito — o que também é fundamental — se diminuem demais o sal. Mas, feitos os ajustes, sempre valerá a pena tratar. Afinal, esse coração vivido, sem tanta pressão, ainda poderá bater por muito tempo.

Foto: iStock