Mobilização alerta para riscos da automedicação com antibióticos

Infecções de bactérias resistentes são mais comuns e preocupantes

Por Agência Brasil

A Semana Mundial de Conscientização Microbiana começa nesta quinta-feira (18) . A jornada de eventos e iniciativas de entidades médicas vai até o dia 24 e pretende alertar para práticas que dificultam o combate a bactérias, vírus e parasitas.

A Sociedade Brasileira para a Qualidade do Cuidado e Segurança do Paciente (Sobrasp) chama a atenção para a automedicação com antibióticos e como isso pode fortalecer bactérias, favorecendo infecções cada vez mais resistentes a remédios. As infecções de bactérias muito resistentes são mais comuns e preocupantes.

Segundo dados da Organização das Nações Unidas (ONU), relativos a 2019, a cada ano 700 mil pessoas morrem por esse tipo de infecção. Até 2050, a estimativa é que esse tipo de problema possa resultar na morte de até 10 milhões de pessoas.

Pesquisa da Organização Mundial da Saúde (OMS), realizada em nove países europeus, apontou que pessoas com o hábito de utilizar antibióticos por conta própria acreditavam que estavam se prevenindo de infecções.

Segundo a Sobrasp, apesar de ser necessária uma receita para comprar antibióticos, muitas pessoas não utilizam a integralidade do remédio e acabam guardando para empregá-lo em outras situações, como no caso de uma gripe.

Contudo, conforme a entidade, 90% dos casos de rinosinusites são causados por vírus e não demandam o uso de antibiótico para o tratamento.

Fortalecimento de bactérias
A médica infectologista Cláudia Vidal, do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e diretora científica da Sobrasp, disse que o uso contínuo ou prolongado de antibióticos pode acabar provocando o fortalecimento de bactérias.

“O grande problema é que, quando usamos, ele vai matar as bactérias, mas é um fator de risco, pois as bactérias que sobrevivem são resistentes e vão começar a se multiplicar naquele fator de risco. O contato das bactérias com o antibiótico faz com que o gene do organismo comece a se expressar e aí ele muda mecanismos da bactéria e o antibiótico não consegue mais agir”, explicou.

A Sociedade Brasileira para a Qualidade do Cuidado e Segurança do Paciente também ressaltou a importância de os profissionais de saúde realizarem um diagnóstico preciso a partir de avaliações clínicas. Ela pondera que a dificuldade de acesso a condições nas unidades de saúde para a realização de exame e consultas pode alimentar um cenário de automedicação.

Segundo a Sobrasp, para evitar atitudes que possam fortalecer de alguma maneira a resistência microbiana é importante não utilizar antibióticos mais do que o prescrito pelos médicos.

Outra recomendação é não usar sobras de antibiótico, a não ser que essa aplicação tenha sido recomendada por um médico para uma nova condição de saúde. A Sobrasp afirmou, ainda, que o ato de tomar medicamentos deve ocorrer a partir da indicação médica, e não de familiares, amigos ou conhecidos.

Cláudia Vidal acrescentou que prevenir infecções é outra forma de evitar o risco de ter um problema que possa agravar o quadro de saúde. A higiene das mãos, tão popular na pandemia, é um dos hábitos. E nos serviços de saúde é importante evitar que, durante os procedimentos, haja conduta que facilite a infecção no ambiente hospitalar ou ambulatorial.

Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil

Fiocruz pesquisa prazo de imunidade e intercambialidade de vacinas

Fundação vai analisar ação dos imunizantes contra a covid-19

Por Agência Brasil

Fiocruz está conduzindo um estudo sobre validade e intercambialidade entre os diferentes tipos de vacina contra a covid-19. O objetivo é avaliar por quanto tempo se mantém a imunidade contra doença, gerando dados que ajudarão no planejamento do esquema vacinal de reforço, e analisar a resposta da combinação dos imunizantes na proteção contra as novas variantes do vírus.

O projeto, iniciou a sua primeira fase de desenho em maio deste ano, tem encerramento previsto para 2023 e conta com financiamento do Departamento de Ciência e Tecnologia do Ministério da Saúde. Ele faz parte de um conjunto de cinco pesquisas, com o nome “Rede de estudos observacionais para monitoramento da efetividade, imunogenicidade e segurança da vacinação contra Covid-19 no Brasil, e história natural da doença em crianças e adolescentes”, coordenado pelo Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos (Bio-Manguinhos) por meio da médica Tatiana Noronha.

A equipe do estudo é composta pelas pesquisadoras do IOC/Fiocruz, Adriana Valocchi, coordenadora do estudo, e Adriana Bonomo, e o biomédico do IFF/Fiocruz e vice-coordenador dessa pesquisa, Zilton Vasconcelos.

Troca de vacinas
Para uma descoberta científica chegar até a população, ela precisa passar por várias etapas de estudo, seguindo critérios bem rigorosos até a pesquisa ser, de fato, concluída, mas, às vezes, nem tudo obedece a um planejamento prévio, pois imprevistos e desdobramentos podem acontecer no meio do caminho e precisam ser encarados como oportunidades para aprimorar e atualizar o conhecimento. Esse é o caso que motivou esta pesquisa em um momento tão crucial para o mundo como o da atual pandemia.

Em fevereiro deste ano, a mídia informava o caso de aproximadamente 100 professores da Universidade Federal de Rondônia (UNIR), também servidores do setor de saúde, que devido a uma falha no sistema de controle de imunização receberam doses de vacinas diferentes contra a covid-19. Ao invés de tomarem a segunda dose da Coronavac, os profissionais receberam doses da vacina AstraZeneca. Essa vacinação errônea, conforme explicado por Zilton Vasconcelos, foi o que motivou a pesquisa, transformando a falha em uma oportunidade para a ciência avançar em prol da população.

“Mesmo sendo um número limitado de profissionais que receberam, era necessário estudar esses casos, tanto para saber se a imunidade deles ia ser desenvolvida, se teriam efeitos colaterais, quanto para analisar um assunto que até hoje existia total desconhecimento no mundo, é possível realizar de forma segura e eficiente a intercambialidade vacinal. Por exemplo, a CoronaVac não está sendo usada em muitos países, e, nesse contexto, vamos conseguir gerar informações úteis para o mundo sobre a combinação vacinal com essa marca”, explica Zilton.

“Outra questão importante é a viabilidade de obtenção ou produção de vacinas suficientes para imunizar toda a nossa população. A intercambialidade significa maior oferta de doses para a imunização completa”, acrescenta a pesquisadora do IOC/Fiocruz, Adriana Bonomo. Este ano, a intercambialidade vacinal virou foco dos organismos internacionais, pois caso sua efetividade seja comprovada, representará uma ótima alternativa para os governos não dependerem dos estoques de determinadas marcas de vacinas autorizadas em cada país. Sendo assim, a iniciativa poderá solucionar possíveis faltas ou atrasos, com a aplicação de uma segunda ou até uma terceira dose de outra indústria farmacêutica.

Nesse contexto, os pesquisadores do projeto organizaram uma pesquisa maior, com a ajuda do Programa Nacional de Imunizações (PNI), ampliando a mostra desta pesquisa do grupo dos 100 profissionais da saúde da UNIR, para mais de 16 mil pessoas de várias regiões do país, que por alguma falha também tomaram doses de diferentes vacinas, combinando Coronavac com AstraZeneca.

Foto: Myke Sena/MS