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Homem recebeu células-tronco que congelou na infância para reverter infertilidade

Novo estudo explora alternativas para restaurar a fertilidade em pacientes que perderam a capacidade reprodutiva devido a tratamentos contra o câncer

Por Revista Galileu

A azoospermia é a total ausência de espermatozoides no esperma. Reconhecida como uma das principais razões para a infertilidade masculina, essa condição afeta cerca de 1% dos homens em todo o mundo. Apesar dos avanços da medicina, ainda há desafios significativos no tratamento e reversão do problema.

Buscando uma abordagem inovadora, pesquisadores da Universidade de Pittsburgh, nos Estados Unidos, investigaram a possibilidade de um transplante de células-tronco responsáveis pela produção de espermatozoides. Os resultados do estudo, apresentados em um artigo ainda não revisado por pares na última quarta-feira (26), descrevem experimentos com o congelamento de células testiculares de meninos com câncer, com o objetivo de preservar sua capacidade reprodutiva no futuro.

A azoospermia pode ser provocada por diversas condições médicas, incluindo caxumba, diabetes, cirrose hepática e insuficiência renal, além do uso de quimioterapia no tratamento do câncer. Esse foi o caso de Jaiwen Hsu, diagnosticado aos 11 anos com osteossarcoma, um tipo de câncer ósseo. Para combater a doença, ele precisou se submeter a um tratamento agressivo, que provavelmente resultaria em infertilidade.

Com o objetivo de preservar as futuras possibilidades reprodutivas do filho, seus pais decidiram inscrevê-lo em um estudo clínico experimental. A pesquisa, ainda em estágio inicial, se baseava no congelamento de células testiculares de meninos com câncer. No caso de Jaiwen, o congelamento de esperma não era uma opção, pois ele ainda não havia atingido a puberdade.

O estudo utilizava células-tronco presentes desde o nascimento nos meninos, armazenadas em túbulos finos dentro dos testículos. Essas células são responsáveis por dar início à produção de espermatozoides quando a puberdade provoca um aumento nos níveis de testosterona. Então, aos 11 anos, Hsu passou por uma biópsia para a coleta de uma pequena amostra de tecido testicular contendo milhões dessas células.

Quinze anos depois, em 2023, ele decidiu retomar contato com os pesquisadores por curiosidade sobre o estudo do qual participou na infância, mas sem a ambição de começar uma família. No mesmo ano, as células congeladas foram transplantadas de volta para ele. O procedimento foi realizado por meio de uma injeção guiada por ultrassom, posicionando as células nos dois testículos. Os pesquisadores esperam que as células se fixem nos túbulos do testículo e se tornem maduros.

“Se der certo, essas células-tronco devem reativar a espermatogênese”, afirmou Kyle Orwig, professor da Escola de Medicina da Universidade de Pittsburgh e autor do estudo, em entrevista a AP News. No entanto, ele ressalta que, caso a amostra congelada não tenha sido adequada, pode não ser suficiente para que os espermatozoides cheguem à ejaculação. “E, mesmo que isso ocorra, a quantidade provavelmente não seria suficiente para restaurar a fertilidade natural.”

Desde 2011, a equipe de Orwig já congelou amostras de aproximadamente 1.000 meninos em pré-puberdade. No entanto, a quantidade de tecido retirada é limitada. Em pacientes pediátricos em tratamento contra o câncer, é fundamental minimizar procedimentos não essenciais e possíveis danos, o que implica a extração de apenas uma pequena porção do tecido testicular. Como resultado, o número de células-tronco coletadas pode ser insuficiente para reverter a infertilidade no futuro.

Ainda é cedo para saber se o procedimento feito em Hsu trará resultados. Em entrevista à AP News, ele afirmou que, mesmo que seu transplante experimental não funcione, a experiência servirá para orientar pesquisas futuras. Hsu também expressou gratidão aos pais, que anos atrás “tomaram uma decisão que me permitiu ter a opção de escolher por mim mesmo hoje.”

Pesquisas avançam

A equipe de Orwig possui outros estudos em paralelo, com o objetivo de encontrar uma alternativa para o tratamento da azoospermia. Em um outro estudo clínico, os pesquisadores um pedaço de tecido testicular imaturo preservado é colocado sob a pele do escroto. A esperança é que o tecido amadureça e eventualmente produza esperma.

Essas técnicas, tanto o transplante de células-tronco quanto o de tecido testicular, passaram por testes em animais e mostraram resultados animadores quando combinados a outras técnicas de reprodução, como barriga de aluguel e reprodução assistida.

“Para esses pacientes que recebem terapias de câncer que salvam vidas, eles muitas vezes ficam com fertilidade permanentemente prejudicada como resultado”, disse Robert Brannigan, presidente da American Society for Reproductive Medicine, em entrevista à revista Wired. “É difícil dizer qual abordagem será a mais eficaz, mas acho que ambas as abordagens realmente merecem mais estudo.”

Foto: Freepik

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