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Caso de bebê que nunca acordou é investigado e demandado por possível erro médico no parto

Laura Praciano Cruz nasceu no dia 6 de fevereiro de 2014 em Fortaleza (CE) e, desde então, não acordou. Vítima de complicações no parto, fatal para a mãe Paula Teixeira Praciano, Laura respira com ajuda de aparelhos e se alimenta por meio de sonda. Cercada pelos cuidados e carinho da família, a bebê rompeu fronteiras, mobilizando mais de 100 mil pessoas no grupo do Facebook “Acorda, Laurinha”.

Segundo a família da garota de 20 kg e cabelos cacheados, um erro médico (ou até mesmo uma sequência de falhas) teria sido a causa da morte de Paula e do estado de saúde de Laura. “A gente vê a Laurinha e lembra que ela está naquela situação por causa do que houve. Lembro a falta que a minha irmã faz”, lamenta o tio Romeu Praciano.

Paula Teixeira teria sofrido um choque anafilático ao ser medicada antes do parto. O remédio, chamado kefazol, teria sido aplicado por uma técnica de enfermagem, a pedido do obstetra – por telefone.

“Ela teve uma reação alérgica, mas o hospital não tinha estrutura nenhuma para reverter a situação. A unidade era totalmente despreparada, atrapalhada. Ela perdeu muito tempo no apartamento, quando já poderia ter sido encaminhada para a UTI [Unidade de Terapia Intensiva]”, afirma Romeu.

Parto normal x cesárea
Os parentes garantem que Paula estava saudável, com todo o acompanhamento necessário no pré-natal e já se preparando para o parto normal. No entanto, de acordo com o marido Ádamo Cruz, o obstetra teria estimulado a paciente a realizar cesárea.

“Alegava que a paciente tinha engordado muito, estava com pressão alta e sua gravidez era de risco. Ádamo contesta. Paula estaria bem e engordou o que toda grávida engorda. “Como ela teria gravidez de risco se trabalhou até a véspera do parto? Se era gravidez de risco, por que o médico não lhe deu licença do trabalho, para ela ficar descansando em casa?”, indaga a assessoria de imprensa da família.

Antibiótico
O médico, segundo a família, teria prescrito o antibiótico profilático, indicado para procedimentos cirúrgicos, que foi administrado por uma auxiliar de enfermagem. Paula estaria bem, organizando o quarto com as lembrancinhas junto à mãe Julita Praciano, quando começou a passar mal.

“Alguns dias depois, foi colocado um comunicado na parede do hospital dizendo que o medicamento kefazol não seria mais aplicado, alegando desabastecimento da distribuidora. O medicamento foi recolhido pelo hospital para avaliar se havia problemas naquele lote”, informa a assessoria da família.

Demora no atendimento
Os parentes denunciam a demora na tomada de providências por parte dos médicos. Paula, então, foi atendida por um médico otorrinolaringologista, plantonista da Maternidade Gastroclínica, já que tanto o anestesista quanto o obstetra contratados pela cearense não estariam no hospital.

A família defende a teoria de que a demora no atendimento causou a morte de Paula e sequelas em Laura. Segundo disseram, foram mais de 20 minutos na transferência do quarto para a UTI, onde o parto foi realizado.

“Não tinha ninguém na hora. Saíam várias suposições do que teria acontecido, mas nada era resolvido. Até que veio a informação do pior, da morte de Paula”, lembra o irmão Romeu. O laudo cadavérico apresenta como causa da morte choque anafilático devido a efeito adverso de droga ou medicamento correto e administrado de maneira apropriada.

“Laurinha nasceu toda roxa, com morte aparente”, acrescenta. Após ser entubada, voltou à cor normal e passou a respirar com ajuda de aparelhos, como está até hoje. “Pelo tempo que ficou sem oxigênio, todo o sofrimento que ela sofreu, acabou adquirindo uma lesão cerebral muito grave. Ela não interage, é paradinha”.

Processos
A família entrou com requerimento de instauração de inquérito policial contra o obstetra e o otorrinolaringologista. O caso é investigado pelo 2º Distrito Policial, no Bairro Aldeota, em Fortaleza.

De acordo com a assessoria da Polícia Civil, o inquérito foi encaminhado ao Fórum, e a polícia aguarda retorno dos autos para dar continuidade às apurações. “Os médicos envolvidos no ocorrido estão sendo ouvidos e investigados”, garantiu, por meio de nota enviada ao Tribuna do Ceará.

Um processo cível foi acionado contra a Gastroclínica. Segundo a advogada da família, o processo está sob análise do juiz da 33ª Vara Cível, em fase de instrução. “A primeira audiência ocorrerá em 16 de fevereiro”, garante.

“Os processos acionados pela família são contra os atores que prestaram serviço na ocasião. Houve uma sucessão de erros por parte do médico que atendeu e do hospital, que culminaram no falecimento de Paula e sequelas graves para o bebê”, explicou a advogada.

Mesmo passados dois anos do caso, a família afirma ser difícil esquecer o ocorrido e promete continuar insistindo para evitar que possíveis erros médicos aconteçam nos hospitais.

“A gente não pode deixar isso cair no esquecimento. É meio difícil perdoar. Perdoar quem? Nunca ninguém veio se retratar. Ninguém pegou na mão da minha mãe ou do meu cunhado e disse: ‘Vamos ali ver o que aconteceu com ela’. Foi uma falta de atenção muito grande. Não se pode tratar a vida dessa forma não”, desabafa o tio de Laura, Romeu.

O Tribuna do Ceará entrou em contato com o Hospital e Maternidade Gastroclínica. A assessoria da unidade disse não poder se pronunciar no momento, por aguardar decisão da Justiça.

“O Hospital reforça, no entanto, que sempre colaborou com as informações referentes ao caso. Nosso maior compromisso é com a qualidade da assistência prestada aos nossos pacientes, em uma relação de confiança que tem bases sólidas na ética e na transparência”, informou por meio de nota.

Acorda, Laurinha
Laura Cruz Praciano permaneceu seis meses internada na UTI neonatal da Gastroclínica. Hoje, a bebê vive em uma UTI montada dentro de casa, no antigo quarto da mãe. A família gasta diariamente R$ 280, de domingo a domingo, para manter a UTI na residência.

Os custos não incluem alimentação, medicamentos, energia (que já ultrapassa os R$ 700 mensais) e as consultas médicas particulares com os nove profissionais de saúde que acompanham Laura: terapeuta ocupacional, oftalmologista, urologista, neurologista, dentista, pediatra, fisioterapeuta e pneumologista.

“A despesa é muito alta. As consultas variam de R$ 500 a R$ 700, cada médico. Se a gente somar o que gasta por mês, não sabe como está dando para pagar. Não recebemos nenhum tipo de ajuda, vamos nos ‘rebolando’ de todo jeito. Tem o salário do pai dela, o meu, o da tia dela e o de alguns familiares, que ajudam como podem”, conta a avó Julita.

O desejo é conseguir, aos poucos, retirar o traqueóstomo [recurso usado para facilitar a chegada de ar aos pulmões] e fazer com que a criança respire sem a necessidade do equipamento. Para isso, é feito o chamado ‘desmame’. O tratamento segue o lema de ‘um dia de cada vez’, e Laura já atinge 39 minutos respirando sozinha. “Nas novenas que fazemos, o meu maior pedido é ‘Respira, Laurinha’. A gente conseguir isso seria um presente. Seria um sonho, na verdade”, finaliza o tio.

Fonte: http://tribunadoceara.uol.com.br/
Foto: Reuben Degiorgio, via Flickr