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Por dentro do azeite: fuja das fraudes

Análises recentes indicam que tem muito produto falsificado no Brasil. Saiba como evitar enganações

 

Por Thaís Manarini, do Saúde é Vital

No sul da Europa, ele é conhecido como ouro líquido. Nada mais justo. Trata-se da principal fonte de gordura dentro da festejada dieta mediterrânea, composta ainda por pescados, vegetais, nozes e castanhas. O ponto é que não falamos de uma gordura qualquer. “O azeite é rico em ácido oleico, um tipo monoinsaturado que dá estabilidade ao produto e proporciona diversos benefícios à saúde”, destaca Juliano Garavaglia, doutor em biologia celular e professor das universidades Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre e do Vale do Rio dos Sinos, no Rio Grande do Sul.

Entre os efeitos clássicos desse nutriente estão a capacidade de baixar o colesterol LDL, que ameaça as artérias, e alavancar o
HDL, considerado vantajoso. Mas pesquisadores do Hospital del Mar, em Barcelona, na Espanha, descobriram que a história vai além. Eles selecionaram quase 300 pessoas com alto risco cardíaco e as separaram em três grupos. Dois seguiram a dieta mediterrânea clássica — uma era turbinada com azeite de oliva e a outra, com oleaginosas. A terceira turma foi orientada a maneirar na carne vermelha, nos itens processados, em lácteos gordurosos e doces. Depois de um ano, só quem usou quatro colheres de sopa de azeite por dia viu o HDL atingir outro patamar de qualidade.

A molécula se mostrou muito mais hábil para remover colesterol dos vasos e evitar a oxidação da versão LDL, o ponto de partida para a formação de placas nas artérias. Ocorre que a gordura boa não é o único trunfo do suco da azeitona. De acordo com Paulo Freitas, engenheiro de alimentos pela Universidade Estadual de Campinas (SP) e degustador profissional do produto, o fato de ele não passar por refino também o torna uma bela fonte de vitaminas e polifenóis. Estes são reconhecidos por sua função antioxidante, o que ajuda a explicar não só a defesa do HDL — e a garantia de sua boa atuação — como outras tantas benesses ao organismo creditadas ao alimento.

O azeite extravirgem, com maior teor dos tais polifenóis, anda surpreendendo lá para as bandas da cabeça. Em estudo com cobaias, o oleocantal, uma dessas substâncias, incitou a limpeza das proteínas beta-amiloides. Isso é animador porque, com o tempo, elas formam emaranhados capazes de destruir os neurônios — uma das hipóteses que explicam o estrago do Alzheimer. Outro elemento que tem exibido potencial de debelar males neurodegenerativos atende pelo nome de hidroxitirosol. A combinação de antioxidantes ainda coloca o alimento na posição de aliado contra diabetes, osteoporose e até alguns tipos
de câncer. A verdade é que, em termos de saúde, não faltam motivos para transformar o óleo da azeitona no rei da cozinha.

O lado infeliz: nem tudo que reluz dentro das garrafas é o azeite que a gente espera. Neste ano, pelo menos dois testes acusaram
que o mercado está lotado de produtos fraudados. Uma das análises foi feita pela Associação Brasileira de Defesa do Consumidor, a Proteste, enquanto a outra leva a assinatura do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (veja mais detalhes nos números da página à direita). Em ambas, dois problemas graves sobressaíram.

O primeiro foi a presença de azeite lampante, permitido apenas para uso industrial. “Ele tem muitos defeitos ligados a deterioração e conservação”, define o olivicultor Guajará Oliveira, presidente da Associação Rio-Grandense de Olivicultores. “Para uma marca ofertá-lo ao consumidor, precisa antes corrigir suas imperfeições. Ou seja, deve refiná-lo”, explica a auditora Fatima Parizzi, coordenadora-geral no Departamento de Inspeção de Produtos de Origem Vegetal do Ministério da Agricultura. Feito isso, o óleo pode ser comercializado como azeite de oliva — e só. Nada de virgem ou extravirgem. Mas não é o que se vê por aí. Para piorar, esse líquido cheio de falhas costuma ser misturado a outros óleos vegetais, como de soja, milho e girassol, o que nos deixa diante do segundo problema.

Para Rita Bassi, presidente da Associação Brasileira de Produtores, Importadores e Comerciantes de Azeite de Oliveira, é necessário desconfiar de preços baixos. A técnica Juliana Dias, representante da Proteste, concorda. “Azeite custa caro, até porque é importado”, justifica. Hoje, ela entende que um item de menos de 10 reais provavelmente não merece ir para casa. Ainda bem que o Ministério da Agricultura está empenhado em fiscalizar e punir as marcas fraudulentas. Tanto que 850 mil litros de “azeite” foram retidos por estarem fora dos padrões ou com rotulagem irregular — quando se destaca a presença de
azeite, só que vemos, em letras pequenas, que é tempero, ou seja, uma mistura.

“O fato de nem sempre conseguirmos confiar na qualidade do produto dificulta a prescrição, mas não pode ser um empecilho para seu consumo”, reflete a nutricionista Flávia Galvão Cândido, pesquisadora da Universidade Federal de Viçosa, em Minas Gerais. Para ela, os profissionais de saúde precisam estar bem informados para recomendarem as marcas idôneas. E, obviamente, o consumidor deve revirar os rótulos. Vale a pena. A inclusão do verdadeiro azeite extravirgem em um contexto de dieta brasileira (desde que equilibrada) só traz ganhos.

Foto: Dulla/SAÚDE é Vital