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Disciplina inédita na USP de Ribeirão Preto vai capacitar enfermeiros a atuar na prevenção do suicídio

Módulo optativo voltado a alunos de graduação no interior de São Paulo começa a ser ministrado em agosto. Em 6 anos, Brasil registrou 62,8 mil casos de suicídio, aponta Ministério da Saúde

Por Patrícia Rennó, G1 Ribeirão e Franca

A Universidade de São Paulo acaba de lançar uma nova disciplina sobre prevenção do comportamento suicida na Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto (SP). Considerada pela instituição como pioneira no Brasil, a iniciativa visa capacitar alunos da graduação a identificar e prevenir situações de risco de suicídio de pacientes e combater o preconceito.

Intitulada de “Introdução à Prevenção e Posvenção do Suicídio”, a disciplina optativa começará a ser ministrada em agosto, com previsão de término em novembro. A enfermagem da USP também pretende oferecer cursos e palestras ao público em geral.

A proposta foi apresentada pela professora doutora do curso de enfermagem, Kelly Graziani Giacchero Vedana, após perceber a necessidade de os alunos aprofundarem o conhecimento sobre suicídio e desmistificarem as dificuldades de abordagem enfrentadas no meio profissional.

“Os alunos tinham interesse, porém, com a formação do generalista, a gente passa mais brevemente sobre esses assuntos mais especializados. Também com o fato de que os profissionais de saúde, no geral, têm bastante dificuldade em lidar com o tema, vi que a melhor alternativa seria a de criar uma disciplina”, disse.

Com uma média nacional de 5,5 mortes por 100 mil habitantes, o Brasil registrou entre 2011 e 2016 62.804 ocorrências de suicídio. As situações mais recorrentes envolveram homens – 79% dos casos – e foram concretizadas por enforcamento – 62%. Somente no Estado de São Paulo, no mesmo período, foram 8.585 suicídios.

Além das mortes concretizadas, entre 2011 e 2016 ocorreram em todo país outras 48.204 tentativas, em 69% delas praticadas por mulheres. Um terço das vítimas tentou o suicídio mais de uma vez.

Avaliação de risco
No plano estabelecido para a disciplina em Ribeirão, os alunos terão a oportunidade de desenvolver competências para avaliar o potencial de suicídio, reconhecer fatores de risco e proteção, identificar necessidades de saúde e elaborar ações de cuidado voltadas para o indivíduo e familiares.

Segundo Kelly, a disciplina será útil tanto para a prevenção do suicídio, em casos de risco, quanto em situações de menor potencial.

Para a professora, preparar o profissional para identificar os casos também é necessário para que haja a prevenção e o apoio pósvenção, ou seja, a assistência ao paciente depois da tentativa e à família após o suicídio consumado.

“Hoje em dia temos um leque bem variado de profissionais que atuam nessa área da saúde e todos precisam estar preparados para essas situações, porque muitas vezes as pessoas vão expressar pedidos de ajuda que podem não ser muito claros em diferentes setores da comunidade, nem sempre será com esses profissionais da saúde”, analisa.

Desafios
Um dos grandes desafios enfrentados pelos profissionais que lidam com as tentativas de suicídio está ligado ao próprio comportamento e aos sentimentos que podem surgir durante o atendimento ao paciente.

Kelly explica que uma das principais questões é o bloqueio relacionado às emoções, crenças e aos mitos relacionados ao suicídio, porque esse é um tema bastante complexo.

“O suicídio é um os grandes mistérios com que a gente lida na saúde mental. O que se destaca é a dificuldade também de saber avaliar riscos, de identificar alguns padrões, mas também saber reconhecer a individualidade dos casos, porque isso é bem desafiador”, comenta.

Com a disciplina específica, a professora acredita que o conhecimento adquirido pelos alunos da enfermagem será expandido para outras regiões do país.

“Nossos alunos vão para várias regiões do país e, muitas vezes, numa posição de poder modificar a política, as ações e várias questões de serviço de saúde. Temos a intenção, tanto na disciplina, quanto por meio de outras ações é tornar os alunos multiplicadores, acreditamos que isso pode ter um efeito positivo sobre várias pessoas que nem conhecemos,”, completa Kelly.

Foto: Produção Multimídia da EERP-USP/Divulgação