Por que os suicídios estão aumentando nos Estados Unidos?


Mortes de estilista Kate Spade e chef Anthony Bourdain lançaram luz sobre assunto, que ainda é tabu; segundo estudo recém-lançado do governo americano, taxa aumentou 30% em mais da metade dos Estados do país desde 1999

Por BBC

Um novo estudo do governo dos Estados Unidos revelou que o suicídio vem aumentando em todo o país desde 1999. Os números foram publicados na mesma semana em que a estilista Kate Spade e o famoso chef Anthony Bourdain tiraram a própria vida. Mas o que causou esse aumento de suicídios nos Estados Unidos?

Segundo o estudo, realizado pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), um órgão do governo americano, a taxa total de suicídio aumentou em 30% em mais da metade dos Estados dos EUA nos últimos 17 anos. O aumento médio em todo o país é de cerca de 25%.

Isso significa que, em média, 16 de cada 100 mil americanos decidem acabar com suas próprias vidas todos os anos. Só em 2016, quase 45 mil pessoas se suicidaram no país. De acordo com os dados do CDC, o suicídio aumentou entre todos os grupos, independentemente de sexo, idade, raça ou etnia. A principal pesquisadora do estudo, Deborah Stone, disse à BBC que o CDC vinha investigando esse aumento há algum tempo.

“Sabíamos que as taxas estavam subindo e queríamos entender esse aumento a nível estadual. Sem falar nos fatores por trás disso”, explica Stone. “Em 25 Estados, houve aumentos de mais de 30%, o que nos surpreendeu”, acrescenta. Quase todos esses Estados são encontrados nas regiões oeste e centro-oeste dos Estados Unidos.

Por que os suicídios estão aumentando?
Embora não exista um único fator que leve ao suicídio, Stone diz que as principais causas são os problemas financeiros e as relações emocionais. A especialista também lembra que alguns Estados do oeste americano têm historicamente altas taxas de suicídio. Isso poderia estar relacionado à economia preponderantemente agrícola dessa região.

Esses Estados, assinala Stone, ainda estão se recuperando de crises econômicas. Seus moradores também tendem a ser mais isolados e a não ter acesso a cuidados adequados. Além disso, foram os locais mais duramente atingidos pela epidemia de opioides (drogas que atuam no sistema nervoso para aliviar a dor). Já para a presidente da Associação Americana de Suicídio, Julie Cerel, parte do aumento pode ser explicado pelo aperfeiçoamento da metodologia dos relatórios e dos estudos.

Mas ela destaca a falta de fundos suficientes para pesquisa em saúde mental e cuidados preventivos. “Nossos sistemas de saúde mental estão passando por dificuldades em todo o país”, diz ela. “Em termos de treinamento de profissionais de saúde mental, não estamos fazendo um bom trabalho”.

Apenas em dez estados americanos, por exemplo, é obrigatório que os profissionais de saúde recebam treinamento sobre prevenção do suicídio.

Armas de fogo
Cerel também alude a outro problema de saúde pública, embora muitas vezes deixado de lado: armas de fogo. “O debate sobre armas de fogo nos EUA se concentrou nos terríveis tiroteios nas escolas, e queremos evitá-los, mas a grande maioria das mortes por armas de fogo ainda é por suicídio”, diz ela.

Segundo o CDC, os suicídios respondem por dois terços desse tipo de morte. “Nós simplesmente não falamos sobre isso nos EUA porque existe um estigma contra a saúde mental; as pessoas pensam que os suicídios são diferentes, por que eles deveriam querer o controle de armas, ninguém em sua família vai fazer isso”, diz ela.

Existe uma relação entre suicídio e doença mental?

O estudo do CDC descobriu que 54% dos americanos que morreram de suicídio não tinham sido diagnosticados com nenhuma doença de saúde mental. Em entrevista à BBC, Jerry Reed, da Aliança Nacional para Ação contra a Prevenção do Suicídio, disse que, “embora haja definitivamente uma ligação entre a doença mental grave e o comportamento suicida”, os especialistas descobriram que isso não se trata apenas de um desafio de saúde mental.

“Condições econômicas ou oportunidades de subsistência em declínio podem levar as pessoas a situações onde passam a correr risco; precisamos intervir nos casos de saúde mental e pública”, diz Reed. Cerel também destaca que muitas pessoas diagnosticadas com doenças mentais não se suicidam.

“Não é algo tão simples como: ‘eles tinham problemas mentais, então se suicidaram’.Stone diz que o estudo do CDC mostra que a perda de entes queridos, abuso de substâncias, saúde física e problemas legais e de trabalho são todos elementos importantes que podem desencadear um comportamento suicida. “Se nos concentrarmos em apenas uma coisa, estamos esquecendo outras pessoas potencialmente em risco”, diz ele.

‘Seguir em frente’
Os especialistas concordam que ensinar as pessoas a processar uma perda e como lidar com emoções difíceis são dois fatores essenciais para evitar o suicídio. “Não podemos supor que todos aprendam isso por meio de uma fórmula mágica”, diz Reed. “Aprendemos a ler, a escrever, por isso também precisamos ajudar as pessoas a aprenderem a ter sucesso.

Então, o que é exatamente progredir do ponto de vista da saúde mental? Cerel defende ter um “plano de segurança”.”Se as coisas derem errado em sua vida, o que você vai fazer? O que você pode fazer para se distrair naquele momento de tristeza? Você pode olhar fotos de seus filhos ou assistir a vídeos engraçados de gatos?”, diz.

“Não que esses vídeos vão manter alguém vivo, mas podem acalmar as pessoas para que sejam usadas outras estratégias de enfrentamento”, acrescenta. Cerel também enfatiza que o objetivo final é incentivar suicidas em potencial a frequentar a terapia e terem profissionais de saúde mental para ajudar a “mudar o pensamento disfuncional”. Para algumas pessoas, “sentir-se conectado e desfrutar de um sentimento de pertencimento são coisas realmente importantes”, destaca Stone. “Temos que envolver toda a comunidade, não apenas os profissionais de saúde”, diz Reed. “Somos uma nação que precisa reconhecer esse isolamento”, acrescenta.

Foto: Brent N. Clarke/Invision/AP/Arquivo

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