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Risco de morte: médicos, enfermeiros e técnicos que trabalham exaustos

Trabalhar sem parar causa danos não somente ao trabalhador, mas às pessoas que os cercam. A jornada exaustiva de trabalho, além de ser uma das características que podem configurar na analogia ao trabalho escravo, também é uma das principais causas de acidentes de trabalho. Se o profissional exausto for da área de saúde, cujas atividades envolvem pacientes, os acidentes podem significar até mesmo a morte de terceiros.

Os profissionais da saúde – que se dedicam a cuidar do bem estar das pessoas, acompanhar o crescimento das crianças e procurar amenizar os problemas que chegam junto com o envelhecimento – são os que mais procuram os serviços do Centro de Referência Regional em Saúde do Trabalhador (Cerest) Maceió, que monitora 28 cidades de Alagoas.

Muitos desses médicos, enfermeiros, auxiliares e técnicos se submetem a uma carga horária exaustiva para poder dar conta de todo o trabalho que se propuseram a cumprir. Mas, e a saúde desses profissionais, como fica?

De acordo com Flaviana Costa, fisioterapeuta e coordenadora de Programas Estratégicos da Saúde do Trabalhador, as principais consequências da jornada exaustiva de trabalho são a Lesão por Esforço Repetitivo (LER) e os Distúrbios Osteo musculares Relacionados ao Trabalho (Dort), a LER/Dort; e problemas mentais.

“São sintomas relacionados à dupla jornada. Um trabalhador cansado está mais sujeito a erros e acidentes. Nosso corpo não é uma máquina e precisamos descansar, mas isso não ocorre em muitos casos. Duplicam a jornada sem descansar, nem o corpo nem a mente. Não existe nenhum trabalhador, por melhor que ele seja, que consiga executar suas atividades laborais com qualidade se estiver adoecido. Uma empresa que cuida de seu trabalhador, o mantém produtivo por muito mais tempo”, afirma Flaviana.

Essa situação é mais grave se o profissional em questão for um médico ou enfermeiro. Um erro, nesses casos, por menor que seja, pode significar a morte de uma pessoa. Dois fatos ocorridos há alguns anos chamaram a atenção do país. Em 2010, em São Paulo, uma auxiliar de enfermagem injetou vaselina ao invés de soro em uma paciente de 12 anos. No ano de 2012, no Rio de Janeiro, uma técnica de enfermagem injetou sopa ao invés do medicamento prescrito em uma paciente de 88 anos.

Ambos os casos demonstram falta de atenção, tanto das envolvidas diretamente quanto indiretamente. Os frascos de vaselina e soro do caso de São Paulo eram, pelo menos segundo reportagens da época, parecidos e estavam no mesmo local. E porque os frascos estavam juntos se são parecidos? No caso fluminense, a técnica em enfermagem não teria checado o conteúdo da seringa que injetou na senhora de 88 anos. Porque alguém encheria uma injeção com sopa? Talvez para alimentar alguém que tenha dificuldades em abrir a boca. O fato é que ambas as rotinas parecem ter sido executadas no automático, comportamento típico de trabalhadores cansados.

Trabalhadores sofrem problemas emocionais

A psicóloga Karoline Félix, que também atende no Cerest, explicou que atende muitos profissionais da área de saúde em Maceió, que apresentam problemas emocionais por conta da carga horária exaustiva de trabalho.

“Os sintomas dos pacientes que nos procuram variam muito de pessoa para pessoa. Os mais comuns são a alteração do ciclo vigília-sono, irritabilidade, ansiedade, isolamento e mudanças de humor. A persistência desses sintomas pode levar ao desenvolvimento de psicopatologias mais graves, como a depressão ou a Síndrome de Burnout, muito comum entre os profissionais da saúde”, afirma a psicóloga.

Karoline Félix explica ainda que a Síndrome de Burnout é um distúrbio psíquico de caráter depressivo, precedido de esgotamento físico e mental intenso.

Karoline Félix diz que seus pacientes reclamam de carga horária excessiva e falta de condições de trabalho

“A depressão é um estado que pode ser episódico ou ainda se manifestar em diversos graus, de leve a profundo. A Síndrome de Burnout é um estado de fadiga crônica que é provocado por uma situação de estresse constante. Seus sintomas iniciais lembram a depressão, tais como agressividade, isolamento, mudanças de humor, irritabilidade, dificuldade de atenção e concentração, falha da memória, ansiedade, tristeza, pessimismo, baixa autoestima, sentimentos negativos, desconfiança e até paranoia”, explica.

“Além dos sintomas emocionais, a síndrome também apresenta manifestações físicas como dor de cabeça, enxaqueca, cansaço, sudorese, palpitação, pressão alta, dores musculares, insônia, asma, distúrbios gastrointestinais, respiratórios e cardiovasculares. O tratamento inclui psicoterapia, medicamentos e o mais importante que é a mudança no estilo de vida, adotar hábitos saudáveis como atividade física regular, alimentação balanceada e vida social ativa”, continua a psicóloga.

Entre as principais queixas dos profissionais da área de saúde atendidos por Karoline Félix estão, além da carga horária exaustiva, a falta de condições de trabalho nos hospitais e postos de saúde, principalmente na rede pública.

“No serviço público existe uma pressão por produtividade que, infelizmente, não é viável. Mas não pela falta de vontade do profissional, e sim pela falta de equipamentos e condições mínimas que garantam a sobrevivência dos pacientes atendidos por esses profissionais da saúde”, explica a psicóloga.

Porém, não é só na rede pública de saúde que esses problemas são encontrados.

“Já nas unidades de saúde particulares, a maior fonte de adoecimento dos profissionais são os processos organizacionais de trabalho, falta de valorização, baixa remuneração, o que obriga a esses médicos e enfermeiros a terem três ou mais empregos”.

E os pacientes tratados por esses profissionais que sofrem com a exaustão? Correm algum risco? Para a psicóloga Karoline Félix a resposta é “sim”.

“Com certeza! A depressão, a Síndrome de Burnout ou qualquer outra psicopatologia afetam a capacidade de concentração e discernimento do profissional, principalmente quando se está em situação de estresse. Isso prejudica o desempenho nas atividades e não é raro encontrar profissionais com muita experiência que cometem erros primários em virtude do problema emocional em que se encontra”, afirma.

Tratamento deve unir médicos e psicólogos

Para a psicóloga Karoline Félix, os profissionais da saúde que sofrem distúrbios psicológicos por conta da carga horária de trabalho exaustiva, devem ser tratados em parceria com um médico e um psicólogo.

“O principal fator para o sucesso, que garante a evolução do tratamento, é o próprio paciente. Ele precisa ter coragem para procurar ajuda e se engajar no tratamento, porque a melhora da qualidade de vida se dará dentro e fora do ambiente de trabalho”, explica Karoline.

Porém, a profissional comenta que é muito difícil para alguém que trabalha na área de saúde, procurar ajuda psicológica.

“A grande maioria omite os sintomas nos estágios iniciais e só procura tratamento quando há algum comprometimento severo, seja físico ou psicológico e crônico”, disse.

Caso o transtorno evolua para um grau mais grave e incapacitante, é hora de parar.

“Quando há alguma ruptura com a realidade, os profissionais da saúde devem parar de trabalhar. São casos raros, e a recuperação depende do grau de comprometimento de cada paciente”, alerta a psicóloga.

Sindicato denuncia a falta de regulamentação

Rosimeire Machado, presidente do Sindicato dos Enfermeiros de Alagoas (Sineal), explica que existem casos de enfermeiros que trabalham até 44 horas semanais, topo do permitido por lei no Brasil.

“Um enfermeiro, ou qualquer outro trabalhador de saúde como os médicos, precisa estar descansado para poder exercer sua profissão com qualidade. Cuidar de outra pessoa requer muita atenção a detalhes que um erro pode ser fatal. Muitos medicamentos possuem frascos iguais, só nisso o risco é grande. Um trabalhador cansado pode confundi-los com mais facilidade”, afirma Rosimeire.

Rosimeire Machado: enfermeiros trabalham 44 horas por semana

Além da redução das horas semanais trabalhadas pelos enfermeiros, Rosimeire aponta que a não existência de um piso salarial também estimula a dupla jornada porque muitos passam a ter dois ou até mesmo três empregos para conseguir complementar sua renda.

Difícil, a pauta da redução da jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais já tramita na Câmara dos Deputados há 21 anos através da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) nº 231/95. Outra PEC sobre esse tema, de nº 148/15, tramita no Senado. Ela propõe a redução gradual anual da jornada de trabalho até atingir 36 horas por semana e um trabalhador não poderia trabalhar mais que 40 horas semanais, mas está parada na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) desde novembro de 2015 a espera da designação de um relator.

A última redução da jornada de trabalho no Brasil ocorreu com a promulgação da Constituição Federal em 1988, quando as horas trabalhadas por semana passaram de 48 para 44.

Denúncias chegam ao MPT

Apesar da jornada exaustiva de trabalho ser uma das características que podem configurar na analogia ao trabalho escravo, o procurador Rafael Gazzaneo, do Ministério Público do Trabalho de Alagoas (MPT-AL), explica que muitos desses profissionais da saúde se submetem a essa rotina por conta própria.

“Eu desconheço qualquer estabelecimento que cobre uma carga horária que desrespeite a jornada estabelecida legalmente. Acontece que muitas vezes esses profissionais trabalham 12 por 36 horas, e acabam procurando manter mais de um emprego”, explica o procurador.

Porém, o MPT recebeu cerca de 70 denúncias de irregularidades no meio ambiente do trabalho de profissionais da área de saúde entre os anos de 2014 e 2015.

“Essa situação degradante é o que entendemos como ‘escravidão moderna’. Não tira o direito de ir e vir do profissional, mas ele está submetido a um ambiente de trabalho que apresenta irregularidades, como a falta de equipamentos de proteção individual, os EPIs”, continua Gazzaneo.

Para o procurador, essas irregularidades podem acarretar problemas sérios na saúde do trabalhador, que precisa se proteger da contaminação por várias doenças, principalmente em ambiente hospitalar.

“As condições de trabalho nem sempre são as melhores, principalmente no setor público da saúde. Temos denúncias contra a Maternidade Escola Santa Mônica e contra o Hospital Geral do Estado, por exemplo, mas as ações ajuizadas contra os entes públicos tem um trâmite muito mais demorado e por isso existe essa demora em se atender as reivindicações”, explicou.

Além disso, segundo o procurador, ainda existem as licitações, que trazem ainda mais burocracia para as ações de melhoramento do ambiente de trabalho nas unidades públicas de saúde.

Entre as denúncias recebidas pelo MPT estão: condições sanitárias e de conforto no local de trabalho; equipamentos de proteção individual e coletiva; descumprimento da NR 32 – Norma regulamentadora que cuida da saúde dos profissionais da área; atividades e operações insalubres; acidente de trabalho; comunicação de acidente de trabalho; programas de proteção à saúde e segurança (PCMSO, PPRA, SESMT); e uso de fardamento.

“Eu já sofri Síndrome do Pânico”

Rita (nome fictício) é enfermeira e já trabalhou em dois hospitais ao mesmo tempo, um público e um particular. Sua rotina foi extremamente estressante por anos, chegando a tirar dias sem dormir. O resultado da jornada desenfreada e arriscada, tanto para si quanto para os pacientes, foi o descuido com suas tarefas, mesmo que nenhuma falta grave tenha sido cometida, e doenças como a Síndrome do Pânico.

Logo no primeiro mês da superjornada, problemas de saúde começaram a aparecer, como tonturas e visão turva. “Fiz uma série de exames porque eu pensava que era labirintite, mas eles não deram nada. Era estresse mesmo, excesso de trabalho. Até Síndrome do Pânico eu já tive”.

A reportagem da Tribuna Independente usa um nome fictício para contar a história da enfermeira atendendo a seu pedido, pois Rita teme retaliações e, também a seu pedido, os locais onde a enfermeira trabalhou e trabalha não serão revelados. Atualmente, ela deixou de trabalhar no hospital público e está apenas no particular e nos serviços de home care.

“Mesmo sendo estressante, minha rotina hoje é bem mais leve do que há alguns anos, pois a possibilidade de cometer erros é quase nula. Quando eu trabalhava nos dois hospitais tinha jornada de trabalho de pelo menos 60 horas semanais e suas escalas coincidiam. Além disso, as condições de trabalho não eram boas”, diz.

Ela garante que nunca chegou a cometer erros como aplicar o medicamento inadequado em algum paciente, mas confessa que isso quase ocorreu e já pediu a colegas que lessem os prontuários para ela.

“Estava com a vista tão cansada que não conseguia ler o que estava escrito. Troquei um medicamento por outro que possuem nomes parecidos. Mas não cheguei a dá-lo ao paciente, percebi a tempo. Tem momentos que a gente não pensa mais. Já pedi para lerem para mim e checarem se a medicação estava correta”, afirma.

Ela destaca que a rotina estressante é comum na enfermagem, tanto em bacharéis quanto em técnicos, fora o desgaste do trabalho do lar. A maioria dessa categoria é mulher. “O cansaço é muito grande. Tenho uma colega que bateu o carro quando ia de um hospital para o outro”.

O fato de no Brasil não haver piso salarial e nem carga horária definida em lei para os trabalhadores de enfermagem é fator preponderante para que muitos optem pela dupla e, às vezes, tripla jornada de trabalho. Enquanto o Congresso Nacional não define essa situação, trabalhadores e pacientes sofrem com as consequências dessa difícil realidade.

Vocação

“Eu penso nos meus pacientes. No quanto eles precisam de mim e acabo excedendo meu horário de trabalho. A saúde tem horas que abala e fico exausto, mas é minha vocação. Eu preciso cuidar das pessoas mais necessitadas”.

Quem fala é o neurologista Fernando Gameleira, que atua há 26 anos e trabalha de 12 a 14 horas por dia.

Gameleira atende pacientes em sua clínica particular e também no Hospital Universitário Professor Alberto Antunes (HUPAA), onde a demanda é maior.

Fernando Gameleira: “Excedo meu horário por vocação”

“Não existe uma cobrança direta, mas a demanda de pacientes é sempre grande e precisamos passar mais tempo no hospital para dar conta de todos os pacientes. A maioria dos que atendo tem problema de epilepsia”, conta o médico.

“Apesar do cansaço, do desgaste físico e emocional, muitas vezes o nosso zelo com o outro fala mais alto. Nem todos estão nessa rotina apenas para aumentar seus salários no final do mês”, concluiu.

Fonte: http://www.tribunahoje.com/
Foto: Kate Dugas, via flickr