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Envelhecimento populacional requer mais atenção dos planos de saúde

Número de idosos em planos de saúde dobrou nos últimos 20 anos. Envelhecimento da população e pandemia estão entre os principais fatores.

Por Futuro da Saúde

O envelhecimento populacional – e seu respectivo potencial de mercado – tem atraído a atenção de diversas empresas no mundo, de gigantes à startups, como Futuro da Saúde já explorou em reportagem recente. Essa tendência, aliada à queda de natalidade desde 2017, deve fazer do Brasil o quinto país com a maior população de idosos do mundo em 2030, o que evidencia o desafio de um olhar para o envelhecimento tanto pelo sistema público quanto pela saúde suplementar.

Por ser uma parcela da população que, de modo geral, utiliza mais os planos, há uma demanda para que as operadoras acompanhem essa mudança, colaborando com a promoção de saúde e consequente redução de custos com tratamentos de doenças graves e complicações. Alguns dados já corroboram essa análise: o número de pessoas idosas em planos de saúde dobrou nos últimos 20 anos e hoje já soma 7 milhões de beneficiários, de acordo com levantamento feito pelo Instituto de Estudos de Saúde Suplementar (IESS). Esse grupo representa cerca de 14% do total da população que conta com algum tipo de convênio médico.

“Durante um bom tempo o envelhecimento foi visto pelo setor como um problema: as pessoas envelhecem, têm mais doenças e isso encarece a saúde suplementar. E tudo que a gente sempre quis mostrar é que é uma grande conquista. O problema não é o envelhecer, é envelhecer sem qualidade e cuidado, e que você acaba trazendo outros tipos de necessidade para o setor”, analisa Martha Oliveira, CEO da Laços Saúde e ex-diretora da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS).

O que é preciso fazer?
Os planos já vem trabalhando algumas iniciativas para que os beneficiários possam ter um envelhecimento mais saudável e com um maior controle das doenças crônicas que possam surgir com o passar dos anos. “A ideia foi mudando. As operadoras foram entendendo que a prevenção faz parte do escopo delas. Ainda não de uma forma populacional, mas para grupos de risco sim. Agora, a ideia do envelhecimento saudável e a redução do risco de doenças está acontecendo muito mais do que antes”, explica Martha.

Para que os planos estejam ainda mais preparados para enfrentar esse cenário, a ex-diretora da ANS sugere que é necessário trabalhar em alguns pontos principais, como vínculo entre profissionais de saúde e pacientes, autonomia do beneficiário e coordenação do cuidado – este último feito por um profissional único, como um médico da família, geriatra ou enfermeiro, que acompanha os diferentes tratamentos e orienta sobre possíveis interações medicamentosas, evitando a polifarmácia, bem como direciona para especialistas quando necessário.

Martha defende ainda que, apesar da mudança de postura dos planos de saúde, é preciso que haja uma reestruturação do sistema como um todo, tanto na saúde pública, quanto na saúde suplementar: “A forma como está organizado o hospital, a clínica e os laboratórios, assim como a formação dos médicos e enfermeiros, é igual lá atrás, no passado. Precisamos entender quais as limitações e os benefícios desse envelhecimento”.

Sistema sustentável
Por regra da ANS, os planos de saúde podem cobrar dos idosos até 6 vezes mais do que a primeira faixa etária, de 0 a 18 anos. No entanto, José Cechin, superintendente-executivo do IESS, aponta que os gastos das operadoras com as pessoas acima dos 60 anos ultrapassam 7 vezes o valor do gasto com jovens. Por isso, para que os planos não tenham grandes prejuízos, cobra-se acima do necessário para os mais novos, o que é chamado de solidariedade intergeracional.

“O problema é que com a sociedade envelhecendo vai aumentar a proporção de idosos e encolher os mais jovens. Então a base de financiamento está encolhendo e coloca em cheque [o sistema]. O problema não é o envelhecimento, é como financiar. Em algum momento vai ser preciso rever e ter mudanças. Falamos em um horizonte de 5 ou 10 anos”, afirma o superintendente-executivo.

Além da proposta de rever o sistema de financiamento, há a necessidade de trabalhar a atenção à saúde para que, quando a população for envelhecendo, reduza os gastos com internações e cirurgias relacionadas a complicações e doenças crônicas. A reestruturação do modelo assistencial reflete diretamente na redução de custos.

Isso já vem ocorrendo em alguns planos, principalmente nas operadoras que trabalham com a população acima dos 50 anos. Por não ter o subsídio dos jovens e adultos, essas empresas buscam tornar o atendimento mais eficiente e melhorar o cuidado com as pessoas idosas. “Eles mudaram a forma de atenção à saúde. Normalmente operam com rede verticalizada e, em geral, acabam dedicando uma atenção muito grande para a atenção à saúde, um conjunto de medidas que evite o adoecimento ou postergue”, explica Cechin.

A expectativa é que as operadoras que já atuam nesse mercado se consolidem ao longo dos próximos anos e surjam novos players. O cenário mostra que é possível ampliar o número de beneficiários nessa faixa etária, atuando em um envelhecimento mais saudável e ampliando ainda mais a expectativa de vida.

“São pessoas que fidelizam mais, saem menos dos planos de saúde, têm uma rotatividade menor. Acredito que daqui pra frente vamos começar a ver – assim eu espero –, esse grupo como um público bastante focado dentro da saúde suplementar, seja para modelos de desenvolvimento de cuidado ou de acesso à saúde pelos planos”, prevê Martha Oliveira, da Laços Saúde.

Cenário de envelhecimento populacional
Além da questão do envelhecimento da população brasileira e da baixa natalidade, existem outros fatores que contribuem com o aumento do número de pessoas idosas nos planos de saúde. De acordo com José Cechin, do IESS, a pandemia teve um papel importante, já que pessoas com mais de 60 anos estavam entre o grupo mais vulnerável para complicações pela Covid-19:

“Mais recentemente, nos últimos 2 ou 3 anos, temos dois fatores que explicam a aceleração. Além do efeito pandemia, tivemos a reforma da previdência, que passou a exigir idades mínimas para se aposentar. Quem está no mercado de trabalho exige mais tempo para se aposentar, então ele continua na empresa e com plano de saúde. Esse impacto ainda vai se manifestar entre 8 ou 10 anos, pelo menos”.

Outro ponto importante diz respeito aos planos de saúde da modalidade autogestão. São operadoras geridas por funcionários de uma mesma empresa e que, diferente de quando o benefício é de uma operadora privada, permitem que os funcionários aposentados continuem com o plano.

“De um tempo para cá, o envelhecimento tem refletido de uma forma diferente para as operadoras, exatamente pela quantidade. Existem várias operadoras, principalmente de autogestão, que tem mais da metade da carteira de idosos. As pessoas efetivamente percebem a necessidade de ter programas e projetos para cuidar dessas pessoas”, explica Martha Oliveira, CEO da Laços.

Dos planos de autogestão, a Caixa de Assistência dos Funcionários do Banco do Brasil (Cassi), por exemplo, possui 28,1% da sua carteira de 600 mil beneficiários composta por idosos. A Saúde Petrobrás, dedicada aos empregados que trabalham na gigante estatal, possui 34,8% dos 265 mil usuários.

Operadoras para idosos
Neste contexto começam a surgir operadoras no mercado com foco na população idosa. Uma delas é a MedSênior, que possui 79% da carteira de beneficiários com idade acima dos 60 anos. Com mais de 80 mil pessoas atendidas, a empresa capixaba começa a expandir seus negócios para outros estados, chegando em São Paulo neste segundo semestre.

De acordo com Thiago Maia, médico e líder de saúde e operabilidade da MedSênior, a possibilidade de trabalhar apenas com pessoas idosas permite que a operadora seja mais especializada, focando nas necessidades dessa população: “Quando você tem uma operadora com foco direcional, ela se especializa na entrega para aquele público. Então, tem uma capacidade de aprimorar a qualidade do que está sendo entregue e ao mesmo tempo reduzir esses desperdícios, que quando você tem uma massa muito grande fica mais complexo de controlar”.

Segundo o médico, a operadora baliza seus atendimentos em três pilares: assistência preventiva e preditiva, a integralidade e o gerenciamento do cuidado ao paciente. A ideia não é só ter programas para estimular o beneficiário na prevenção de doenças, mas realizar o tratamento e acompanhamento ao longo da vida, de forma unificada.

“A gente sabe que o mercado da saúde suplementar vai carecer cada vez mais de empresas especializadas em um público que cresce. Entendemos que o momento de chegar a São Paulo uniu a demanda para esse serviço de forma qualificada e a capacidade da operadora em escalar, sem prejudicar a qualidade assistencial”, aponta o líder de saúde e operabilidade.

A expectativa é que até 2030, a MedSênior chegue ao número de 1 milhão de beneficiários, o dobro da carteira atual da principal concorrente, a Prevent Senior. Atualmente, 100% da carteira é de planos individuais particulares e a empresa tem apostado na verticalização da rede para conseguir reduzir ainda mais os gastos.

Inovação aliada ao cuidado
Acreditando que a tecnologia pode ser uma grande aliada no controle de doenças e envelhecimento saudável, a empresa conta com o seu próprio laboratório de inovação, o MILSênior, para criar e propor novas ferramentas para a saúde, contribuindo com a saúde e prevenção dos usuários. Um dos principais projetos pilotos desenvolvidos pela empresa era de controle de doenças crônicas.

Em uma parceria com a Klivo, a MedSênior desenvolveu o Programa Prime Diabetes, para monitorar integralmente a glicemia, com uso de wearables, e acompanhar os pacientes com a doença. Foram acompanhadas 54 pessoas idosas, com diabetes tipo 2 e complicações decorrentes da doença. Dessa forma, os profissionais de saúde conseguiam acompanhar os níveis de glicemia e propor alterações na rotina. Após 6 meses, cerca de 64% dos pacientes que estavam com a glicemia alta controlaram a doença.

“Resultado clínico, experiência do cliente e capacidade de escalabilidade são nossas três frentes quando pensamos em inovação”, aponta Thiago. Ele ainda reforça que mais do que ter boas ideias é importante que elas sejam aplicáveis e garantam a segurança e bem-estar dos pacientes.

Foto: Futuro da Saúde