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Pesquisa, tecnologia e estética abrem novos caminhos para a odontologia

Número de empresas de produtos para odontologia cresceu 200% nos últimos 10 anos. Odontologia digital é um dos segmentos mais promissores.

Por Futuro da Saúde

A odontologia é uma das especialidades que vem ganhando cada vez mais a atenção dos profissionais da saúde, da população e do mercado. Seja por reconhecer a importância do dentista para os cuidados dos pacientes como um todo ou pelo aumento de interesse com a estética, novas possibilidades vêm surgindo para aqueles que desejam atuar além das clínicas tradicionais. Estimativas do Conselho Federal de Odontologia (CFO) apontam para um faturamento de 38 bilhões de reais ao ano.

O avanço da tecnologia também impulsionou esse movimento. O diagnóstico e tratamento de doenças relacionadas à saúde bucal ganharam grandes aliados, como aparelhos scanners e impressoras 3D. Da mesma forma, a utilização desses equipamentos também contribui para facilitar a vida de pacientes.

As mídias sociais, com foco no compartilhamento de fotos e vídeos, tornaram a odontologia estética um dos carros-chefes para novos profissionais. Aliado a uma característica própria do Brasil, preocupado com a aparência do sorriso, coisa que outras culturas e regiões pelo mundo não investem tanto, a atuação dos profissionais nessa área tem crescido cada vez mais.

O país, que sempre foi referência na profissão e possui mais de 380 mil cirurgiões-dentistas, observa uma mudança ocorrendo na odontologia de forma geral. Novos rumos no cenário de pesquisas e inovações, mostrando o porquê da área estar se atualizando e servindo, muitas vezes, de referência para especialidades médicas, têm contribuído com a saúde da população.

Odontologia digital
Grande parte dos avanços da odontologia veio com a expansão do uso da tecnologia para a saúde. Assim como em outras áreas, a digitalização do setor permitiu que as ferramentas colaborassem com o diagnóstico e o tratamento, tanto para uma atuação mais efetiva dos dentistas, quanto para um cuidado melhor com os pacientes, com técnicas menos invasivas e dolorosas.

As principais vertentes estão em softwares para planejamentos de cirurgias e simulação de procedimentos estéticos, impressoras 3D de moldes e dentaduras, scanners intraorais e aparelhos dentais. Essas soluções têm revolucionado o segmento, de acordo com Newton Sesma, professor da Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo (USP) e coordenador do Mestrado em Odontologia Digital da Faculdade São Leopoldo Mandic.

“O empreendedorismo evoluiu porque, ligado a esses equipamentos, tem toda uma série de materiais que vão ser necessários para serem usados em conjunto. Cresce por todos os lados. A odontologia crescendo com as tecnologias digitais, cresce todo o mercado em torno dele”, afirma o dentista. O Brasil conta com 763 empresas que comercializam ou produzem materiais odontológicos registradas no CFO. Do total, 572 foram cadastradas nos últimos 10 anos.

Com essas novas possibilidades, surge a demanda da atualização. Além dos cursos especialização e mestrado disponíveis para profissionais que já atuam no mercado, algumas instituições de ensino já se movimentam para atualizar as disciplinas. A Faculdade de Odontologia da USP propõe para 2023 uma nova grade curricular, que inclui a cadeira de Odontologia Digital. A última reestruturação havia sido feita em 2010.

“Mas o aluno que está na graduação também precisa receber essa informação de forma organizada e coerente para não cair no mercado, se formar sem a informação e ficar à mercê de informações vindas de empresas, que nem sempre são organizadas e sem viés”, defende Sesma.

Ele acredita que um ponto a ser discutido é o acesso. Por mais que toda tecnologia que venha a agregar o tratamento seja bem-vinda, é preciso estudar e desenvolver formas para que sejam utilizadas por grande parte da população, indo além do setor privado. Ele usa como exemplos as dentaduras feitas por impressoras 3D e o potencial que teria para ajudar a população.

Com o avanço contínuo, novos produtos e ferramentas devem chegar ao mercado da odontologia nos próximos anos. O professor acredita que a próxima fronteira a ser ultrapassada é o chamado “paciente 4D”. Através de programas de computadores, não só a imagem estática da arcada dentária de um paciente é reproduzida, mas toda a movimentação feita ao sorrir e ao mastigar.

“O movimento do sorriso e todo movimento que o lábio faz é importante para planejar correções estéticas, e também os movimentos de mastigação e fala. Eles vão ser reproduzidos em tempo real, copiando exatamente o que o paciente faz. Vamos ter o que chamamos de paciente 4D, um paciente virtual que está todo no computador, com fotos, raio-x e movimentos, como se fosse uma animação de cinema. Estamos muito próximos de chegar a isso”, vislumbra Sesma.

Pesquisa
O Brasil é referência não só na parte clínica da odontologia, mas também no ensino e na pesquisa. Se no passado a exportação de profissionais era uma das principais características, hoje as universidades entraram no radar pelos estudos publicados. De acordo com o Scimago Institutions Rankings, o país ocupa as três primeiras posições em pesquisas de odontologia, com a USP, Universidade Estadual Paulista (Unesp) e Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

“O dentista era um cara muito executor, um técnico. Aprendia a identificar, fazer o preparo e a técnica. Aí começaram os questionamentos, a ciência, e hoje toda universidade séria tem grupos de iniciação científica. Passou a se ter desde o primeiro ano a preocupação com evidências científicas”, explica João Paulo Tanganeli, PhD em odontologia e especialista em DTM Dor Orofacial.

Entendendo a importância da atualização, das pesquisas científicas e da evolução da odontologia como um todo, o Conselho Regional de Odontologia de São Paulo (CROSP) instituiu, por exemplo, um Grupo de Trabalho para analisar os estudos que comprovem a utilização de canabinóides, assim como trabalhar junto a agência reguladora e o conselho para regulamentar a indicação médica e de ensino sobre o tema. O Grupo é liderado por Tanganeli.

“Temos a preocupação de ter surgido como panaceia, da cannabis medicinal servir para tudo e resolve qualquer problema, e não é bem assim. Estamos preocupados também com quem está dando cursos, e entra a questão ética e de responsabilidade. E a ciência está começando a apontar em que situações usamos, especificamente para quais patologias tem evidências ou vamos começar a buscar isso”, aponta o dentista.

Segundo o especialista, evidências preliminares mostram efetividade do uso de canabinóides na odontologia para o tratamento de DTM (Disfunção Temporomandibular) e bruxismo, e também como potencial cicatrizante e anti-inflamatório. No entanto, ainda é preciso mais estudos para cravar a sua eficácia.

Saúde e estética
As evoluções de pesquisa e tecnologia foram importantes para o trabalho dos dentistas em benefícios dos pacientes, mas também em aumentar as possibilidades de mercado. No entanto, a percepção da população com a saúde foi importante para se ampliar os atendimentos e investimentos na área. Isso refletiu no número de beneficiários em planos odontológicos, que cresceu 76% em 10 anos, de acordo com dados da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS).

Em razão das mídias sociais e a busca por um padrão estético, a imagem se torna cada vez mais importante para os brasileiros, o que fez as facetas dentárias, lentes de contatos e clareamentos se tornarem cada vez mais populares. No entanto, os dentistas também podem realizar outros procedimentos estéticos cirúrgicos, como harmonização facial, regulamentados pelo Conselho Federal de Odontologia em 2020.

“A questão da estética também é muito cultural. Na América Latina e nos Estados Unidos há uma atenção enorme, e a Europa não tem tanto essa preocupação. O lado saúde tem mudado bastante. Mesmo o diálogo com médicos e fisioterapeutas mudou bastante, nos últimos anos temos uma outra valorização”, avalia Tanganeli.

A percepção de que os cuidados com a saúde dos pacientes vão além do médico tem ganhado cada vez mais espaço. Essa visão multidisciplinar tem valorizado cada vez mais outros profissionais, como dentistas, fisioterapeutas e enfermeiros, propiciando um cuidado mais integral.

“Hoje no Brasil muitos hospitais e Unidades de Terapia Intensiva (UTI) já têm a figura do dentista dentro do ambiente médico. Alguém tem que estar olhando a boca desse paciente também quando ele está internado. Não adianta apenas medir a temperatura e ver o exame de sangue. Às vezes ele tem um problema que não é a boca, mas se ninguém olhar ele pode ter uma complicação absurda, porque tinha uma infecção e estava escondida”, aponta Alberto Blay, implantodontista e membro do conselho do Hospital Israelita Albert Einstein.

Inovação na prática
Blay também é CEO da Plenum, empresa brasileira de inovação que fabrica implantes impressos 3D e materiais regenerativos sintéticos, como membranas e enxertos. Com 3 mil clientes e mais de 50 patentes registradas, a companhia tem buscado produzir novas tecnologias com o que de mais avançado há no mercado.

“Brincamos que a Plenum é a Tesla dos implantes. Não fizemos um carro novo, mas fizemos um carro diferente. No nosso caso, um implante que tem um conceito e características diferentes. Não inventamos o titânio de novo”, explica o CEO. Os implantes são produzidos em uma impressão 3D com pó de titânio, um dos materiais mais recomendados para esse uso, devido a sua resistência e adequação ao organismo.

O implantodontista explica que a forma que os elementos são impressos contribuem com a aderência na região bucal. Por ter um aspecto mais poroso, permite que as células se aglutinem melhor, ao contrário de superfícies lisas. Consequentemente, promete uma maior estabilidade e duração, diminuindo o risco de rejeição e complicações. A impressão de ossos 3D está em processo de regulamentação.

Por ser uma parte do corpo complexa, onde se tem diferentes tecidos, estruturas, bactérias e contato externo, os avanços obtidos para os cuidados bucais também podem, no futuro, serem utilizados em outras regiões do corpo.

“Hoje eu consigo aperfeiçoar os produtos que fizemos e cada vez criando melhorias, mas também esses mesmos produtos, das formas que a gente fez, o cuidado, a ciência que está por trás e toda biocompatibilidade, estamos começando aplicar e estudar em outras áreas que não na odontologia. Porque na realidade, osso é osso no corpo inteiro. Se regenero tecidos moles na cavidade bucal, por que não outros?”, questiona Blay, que aponta alguns dos campos de expansão da empresa.

O CEO explica que toda inovação na odontologia também possibilitou que, além do dentista poder empreender em tecnologia, há espaço para ele trabalhar em empresas que atuam no ramo. Áreas de regulamentação, pesquisa, desenvolvimento e educação dos consumidores, são alguns dos novos caminhos da odontologia. “Ele tem um leque de opções, a não ser que ele tenha o sonho de ter uma clínica”, conclui.

Foto: Futuro da Saúde